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Artilheiro e trabalhador, Mané protagoniza temporada do Liverpool

  • por Daniel dos Santos Leite
  • 1 month atrás

Quando Brasil e Senegal se enfrentarem nesta quinta-feira, em amistoso em Singapura, o jogador em campo mais bem posicionado no último prêmio The Best, da FIFA, estará do lado africano. Quinto colocado na corrida para ser o “melhor do mundo” em 2018-19, Sadio Mané  já faz um 2019-20 do mais alto nível. Com oito gols por todas as competições e cinco na Premier League, ele é o artilheiro do Liverpool na temporada.

É uma marca impressionante para Mané, que em 19 de julho estava no Egito, defendendo seu país contra Argélia na final da Copa Africana de Nações, e voltou aos treinamentos no Liverpool  17 dias depois. Ele não atuou sequer um minuto em amistosos de pré-temporada, ainda curtia sua folga quando os Reds enfrentaram o Manchester City na Community Shield e entrou apenas no fim do jogo na estreia na Premier League, contra o Norwich. Antes da Supercopa Europeia, que aconteceu nove dias após sua reapresentação, o atacante disse acreditar que “o cansaço está apenas na mente”. Marcou dois gols contra o Chelsea em Istambul e desde então é o finalizador mais inspirado do Liverpool.

Foto: reprodução – Mané por Senegal, adversária do Brasil no próximo amistoso

Mas não só isso. Quem assistiu à vitória dos Reds por 2 a 1 sobre o Leicester, no último sábado, notou logo no início uma mudança no posicionamento do trio ofensivo, que durou a maior parte do jogo. Mané foi deslocado para a direita (ainda que tenha marcado seu gol partindo do outro lado), Firmino para a esquerda, e Salah foi o centroavante. A mais provável motivação para o ajuste promovido por Jürgen Klopp foi a preocupação com os ótimos laterais do Leicester, Ricardo Pereira e Chilwell.

Em diferentes momentos da temporada, equipes adversárias do Liverpool definiram como alvo Alexander-Arnold. Não porque o jovem lateral-direito seja frágil na marcação (já evoluiu bastante nesse departamento), mas por ele invariavelmente ficar sobrecarregado sem um trabalho defensivo permanente do ponta que atua em seu lado, geralmente Salah. O egípcio participa muito bem do “perde-pressiona” no ataque, mas às vezes não acompanha o lateral oponente até o fim quando a primeira marcação do Liverpool é vencida. Mané fez isso de forma impecável contra Chilwell.

Marcando gol, sofrendo o pênalti (sobre o qual houve um grande debate na Inglaterra) que garantiu o resultado e exercendo um papel fundamental em um dos principais aspectos táticos do confronto, que era limitar a contribuição ofensiva dos laterais do Leicester, Mané foi escolhido pelos torcedores o melhor em campo. A vitória, a 17ª consecutiva na Premier League e que manteve os 100% de aproveitamento na atual campanha, foi importante demais para o Liverpool, pois significou a ampliação da vantagem em relação ao vice-líder Manchester City, derrotado em casa pelo Wolverhampton, para oito pontos.

Subestimado?

Quando Salah chegou a Anfield, Mané já tinha uma temporada no clube e era parte imprescindível de um trio de ataque que contava então com Firmino e Coutinho, à época o maior ídolo da torcida. Quando este trocou Liverpool por Barcelona, em janeiro de 2018, Salah já estava brincando de marcar gols e assumiu esse posto no coração dos torcedores de forma natural e merecida. Mané continuava jogando em alto nível, mas o protagonismo era todo do egípcio, que havia conquistado, pela assustadora eficiência, o direito de jogar mais próximo ao gol nas movimentações ofensivas.

 Foto: reprodução – Mané comemora o gol diante do Leicester

Desde então, muitos torcedores e analistas fazem questão de exaltar o trabalho exercido por Roberto Firmino. O craque que veste a 9, é listado como centroavante, mas habitualmente conecta as diferentes partes do time, recebendo a bola dos meio-campistas e acionando os laterais ou mesmo Salah e Mané, além de trabalhar incessantemente sem a bola. Normalmente com números mais tímidos em relação aos outros dois, o brasileiro recebe o justo reconhecimento por prestar ao time uma contribuição que nem sequer pode ser mensurada. Isso sem falar no jogo solidário do brasileiro, que veio à tona especialmente após o episódio da “explosão” do senegalês quando Salah não lhe passou a bola contra o Burnley, no fim de agosto (que, vale destacar, todos eles levaram na brincadeira depois).

Mané às vezes ficava à margem dessa discussão, ofuscado ou pelos números de Salah ou pela função única cumprida por Firmino. Mas continuou evoluindo em todos os aspectos, inclusive em seu número de gols. Sem cobrar pênaltis, o senegalês foi coartilheiro da última Premier League com 22 ao lado de Salah e Aubameyang (que converteram, respectivamente, três e quatro pênaltis). Destes gols, 11 foram marcados com o pé direito, cinco com o esquerdo e seis de cabeça, dando a exata noção de sua facilidade para girar e finalizar de diferentes formas. Já são 50, além de 16 assistências, em 100 jogos da liga pelos Reds. À parte atuações memoráveis na Champions League, como na vitória por 3 a 1 sobre o Bayern na Allianz Arena, uma das mais importantes na caminhada do título europeu.

Fora de campo, o perfil é mais tímido, tanto nas entrevistas quanto em redes sociais ou eventos. Na parte final da última temporada, Klopp salientou que Mané “começava a perceber que era um jogador de nível mundial”. Demorou muito, talvez porque o senso comum também tenha demorado a reconhecer que ele é um dos melhores jogadores do mundo, se é que já reconheceu. É correto dizer que o Liverpool não tem um craque que se sobreponha aos outros, mas hoje Mané está exatamente na mesma prateleira de van Dijk, Salah e Firmino nessa conversa.

A teoria de Jamie Carragher

Para o ex-zagueiro do Liverpool, hoje comentarista, Mané é a mais importante contratação de Klopp em Anfield. Mas e van Dijk? Alisson? Robertson e Salah, que vieram praticamente de graça em função do que produzem para o time? O ponto é que, quando o senegalês chegou, em 2016, o Liverpool acabara de ser o oitavo colocado, abaixo de West Ham e Southampton, num campeonato vencido pelo Leicester. Apesar de alguns bons sinais nos primeiros meses de trabalho do técnico alemão, os Reds ainda precisavam mudar de patamar.

Foto: reprodução – mané foi contratado junto ao Southampton, em 2016

E Mané foi, efetivamente, o nome mais importante para essa mudança acontecer, o Liverpool terminar a temporada seguinte na quarta colocação e retornar à Champions League. Logo em sua estreia, um gol espetacular contra o Arsenal fez queixos caírem. Era simplesmente um jogador que os Reds não tinham no elenco, associando velocidade, drible, finalização e trabalho defensivo. “O melhor winger no clube desde John Barnes”, de acordo com Carragher.

A teoria de Carragher está correta. Mané provavelmente é o principal símbolo de um clube completamente transformado por Klopp, tanto por suas virtudes como jogador quanto pelo contexto de sua chegada. Ele trocou o Southampton pelo Liverpool quando isso não era uma escolha tão óbvia ou, no mínimo, poderia haver destinos mais tentadores. Seu desempenho desde o primeiro dia permitiu ao time dar os primeiros passos na direção certa.

Aos 27 anos, Mané não parece ter parado de evoluir. Da Génération Foot, em Senegal, ao Metz, do Red Bull Salzburg ao Southampton, de sua primeira versão no Liverpool à atual, ele está em constante transformação e definitivamente pronto para ser protagonista.

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Jornalista, acompanha a Premier League desde o auge da rivalidade entre Arsenal e Manchester United. Viu o número de grandes equipes aumentar e o campeonato se globalizar por meio da qualidade de um espetáculo que é ótimo até quando o jogo é ruim. Escreve aqui para registrar algumas das ideias que aparecem durante as rodadas.