‘Baile de Munique’: um recado para a Europa

O gigante acordou: goleada em Londres faz Bayern voltar a crer que pode ser o melhor da Europa

Grandes noites de Champions sempre ficam eternizadas. E o Bayern de Munique teve o privilégio de viver muitas delas nos últimos anos. Como não lembrar dos 7 a 1 na Roma no Estádio Olímpico, ou dos 3 a 0 no Camp Nou sobre o Barcelona (com 7 a 0 no agregado), ou, mais recentemente, dos 5 a 1 sobre o Arsenal repetidos nos jogos de ida e volta?

Como se não bastasse, os bávaros engordaram essa seleta lista com mais um triunfo acachapante: 7 a 2 sobre o Tottenham, atual vice-campeão europeu, em pleno Tottenham Stadium. Mas seria um erro tratar este atropelo como só mais uma grande noite. Ela possui um significado único, completamente diferente das outras.

Quando pensamos nas goleadas que abriram o texto, pensamos num Bayern que reafirmava o seu poder. Com cinco títulos europeus, o Bayern nunca se contentou em ser apenas um dos melhores times do Velho Continente. Sempre foi obsessivo em ser O melhor. Portanto, à medida que protagonizava tantos massacres, o Bayern sempre lembrava o quanto você deveria temê-lo.

Porém, a autoestima do clube alemão sofreu um duro golpe na temporada passada. Depois de sete temporadas alcançando ou ultrapassando as quartas de final da Champions, os bávaros foram superados de forma categórica pelo Liverpool nas oitavas. Naquele momento, o Bayern simplesmente deixou de ser visto como um dos melhores. Mais do que isso: eles próprios também já não se reconheciam mais desta forma.

É por isso que o 7 a 2 sobre o Tottenham não é propriamente uma demonstração de poder: é a etapa final de um processo de autoconvencimento. Ao despachar um dos finalistas da última Liga dos Campeões, o Bayern elimina a insegurança que atormentou o clube nos últimos meses e finalmente volta a se ver como alguém capaz de bater qualquer rival europeu.

Não foi um processo fácil. Depois da frustração contra o Liverpool, o Bayern conquistou a Bundesliga, mas viveu um verão turbulento. O principal alvo do clube na janela de transferências, Leroy Sané, ficou pelo caminho. Mas quando o mercado parecia perdido, o clube tirou um último coelho da cartola: Philippe Coutinho.

Um dos efeitos da chegada de Coutinho foi convencer o elenco de que o clube não perdeu a ambição. O Bayern já havia investido forte (Lucas Hernández, Pavard, Perišić), mas faltava alguém de sua estirpe. Além disso, a chegada do brasileiro provocou um efeito ainda mais reconhecível dentro das quatro linhas: Coutinho fez a equipe de Niko Kovač subir de patamar.

O camisa 10 fez uma partida exemplar contra o Tottenham, mas o 7 a 2 em Londres teve pelo menos outros três protagonistas maiores: Serge Gnabry, Robert Lewandowski e Manuel Neuer.

Com quatro gols, Gnabry roubou a cena. É impressionante como a carreira do atacante sofreu uma metamorfose nos últimos três anos. Em 2016, ele foi descrito pelo técnico Tony Pulis como alguém que “não estava no nível” do West Bromwich, clube que defendia até então. Ironia do destino, Pulis estava certo: o nível de Gnabry pedia algo muito maior. Hoje, o jovem de 24 anos é uma estrela não apenas do Bayern, mas também da seleção alemã.

Ninguém brilhou mais do que Gnabry em Londres, mas os dois gols de Lewandowski também foram valiosíssimos. Na coluna da última semana, já havíamos descrito que Lewy simplesmente é uma lenda viva do futebol alemão. Seu início de temporada é arrasador: 14 gols em 10 partidas.

Quando uma equipe ganha de 7, é até curioso dizer que o goleiro do time vencedor foi um dos destaques. Mas Neuer realmente brilhou. E como ele precisava desta atuação. Na última semana, os debates sobre quem deve ser o goleiro titular da seleção alemã (Manu ou ter Stegen) esquentaram de forma alarmante, com declarações polêmicas de todos os lados. Pois Neuer fez questão de lembrar que seu nível não ficou esquecido no passado. Ele é ainda é um dos melhores do mundo no que faz.

E nesse clima de mandar recados, o mais importante ficou a cargo do ‘Baile de Munique’. A Europa inteira está avisada de que o Bayern está de volta. É melhor não duvidar.

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Jornalista e autêntico doente por futebol, de olho até nos campeonatos mais obscuros. Cresceu vendo times como Werder Bremen, Stuttgart e Wolfsburg conquistarem a Bundesliga. Inspirado em Grafite contra o Bayern, vou dar a letra no que acontece no campeonato de melhor média de público do planeta.