Bundesliga com toque austríaco

No início de temporada mais equilibrado da década na Bundesliga, quem brilha são dois treinadores que vieram da Áustria

Alemanha e Áustria são países que, por mais que seus povos resistam em aceitar, nutrem muitas semelhanças. Obviamente, isto nunca se aplicou ao futebol, onde há um abismo entre o que é jogado nos dois países. Em comum, apenas o nome do campeonato nacional: Bundesliga. Porém, nesta temporada, o que era tão diferente nunca esteve tão parecido.

Há exatos 135 dias, a Bundesliga austríaca terminava com o Red Bull Salzburg do técnico Marco Rose como campeão e o LASK Linz de Oliver Glasner como vice. Hoje, lá estão Rose e Glasner novamente na ponta da Bundesliga. Mas não mais a austríaca: a alemã mesmo.

Foto: reprodução – Oliver Glasner

Esse excêntrico déjà vu não é só uma simples coincidência. É também o retrato do arranque de Bundesliga mais equilibrado dos últimos 13 anos. Com o Bayern perdendo sete pontos em sete rodadas e o Borussia Dortmund com um início ainda pior, a ponta da tabela caiu no colo dos outsiders Borussia Mönchengladbach e Wolfsburg. Dois clubes que tomaram decisões corajosas e estão colhendo frutos imediatos delas.

M’Gladbach e Wolfsburg fugiram do lugar comum e buscaram na Áustria uma nova identidade para suas respectivas equipes. Comecemos pelo primeiro, que conseguiu atrair a coqueluche do mercado. Marco Rose, o treinador que levou o Salzburg para a semifinal da Liga Europa, foi convencido de que o projeto encabeçado pelo diretor Max Eberl era mais sedutor do que o de pelo menos outros três clubes da Bundesliga que o procuraram – incluindo o Wolfsburg.

Naquele momento, o M’Gladbach já sabia que perderia seu principal jogador: Thorgan Hazard, a caminho do Dortmund. Isso sem falar do promissor Mickaël Cuisance, vendido para o Bayern. Com esse dinheiro, o clube do Baixo Reno foi atrás de quatro reforços pontuais. Entre eles o lateral Stefan Lainer, que jogava com Rose no Salzburg, e o atacante Marcus Thuram, um dos 10 jogadores das grandes ligas a completarem mais de 100 dribles na última temporada.

Foto: site oficial – Wolfsburg é o vice líder da Bundesliga

Mesmo com pouco tempo de trabalho, o M’Gladbach já é a cara de Marco Rose. O time que prezava a posse de bola hoje abraça o gegenpressing, termo tão popularizado com Jürgen Klopp. Pressão alta e intensidade máxima, que sempre foram as marcas do Salzburg de Rose, foram transferidas para o seu novo trabalho.

O M’Gladbach hoje também joga sob a formação preferida de Rose: o 4-3-1-2, com o popular “diamante” no meio-campo. Aliás, Rose definitivamente é um treinador muito apegado aos detalhes táticos. Não à toa, sua numerosa comissão técnica recebe funções específicas. Um de seus auxiliares, René Maric, que por muito tempo foi um blogger de tática, hoje é o responsável direto por desenvolver o jogo de posse de bola da equipe.

Foto: reprodução – Marco Rose

Obviamente, o time não está imune às consequências negativas do choque de estilo. Na Liga Europa, sofreu 4 a 0 em casa do Wolfsberger, curiosamente da Áustria. Por outro lado, o time está em uma situação que não vivia desde 1984: ocupando a liderança isolada em pontos do Campeonato Alemão, depois da goleada por 5 a 1 sobre o Augsburg.

Na cola do M’Gladbach está o Wolfsburg de Oliver Glasner. Os Lobos se encantaram pelo treinador que levou o modesto LASK Linz da segunda divisão para o vice-campeonato austríaco.

As bases do trabalho de Glasner também foram fundamentadas de maneira inteligente no verão. O mercado de transferências foi quase todo direcionado para jogadores de confiança do treinador, o que resultou na chegada do brasileiro João Victor, que estava com Glasner no LASK, e do lateral português Paulo Otávio, que também jogou na Áustria sob as ordens do treinador.

Foto: site oficial – O Borussia Mönchengladbach lidera o Campeonato Alemão

Somado a isso, o Wolfsburg não perdeu nenhum jogador titular na janela. A única mudança mesmo foi em termos táticos: Glasner é adepto do 3-4-3 e já molda seu time desta forma.

O sistema de muita aplicação defensiva e saída rápida nos contra-ataques já potencializa vários jogadores importantes. Joshua Guilavogui, por exemplo, se converteu em zagueiro. E o brasileiro William, ex-Inter, vive seu melhor momento na Alemanha, jogando como um ala bastante exigido em termos físicos.

Com Glasner, o Wolfsburg é a melhor defesa da Bundesliga, com apenas quatro gols sofridos. Mas há de se fazer uma observação: o time da Baixa Saxônia não enfrentou nenhuma equipe da metade de cima da tabela.

Independente disso, é inegável que Marco Rose e Oliver Glasner já dão novos ares para a Bundesliga. Um prêmio para dois clubes que pensaram fora da caixinha e, por mais que devam sofrer com uma quase inevitável instabilidade, alimentam projetos que já apetecem torcida e elenco de muito entusiasmo.

E se antes era difícil somente diferenciar um alemão de um austríaco, agora está difícil até diferenciar as Bundesligas.

Comentários

Jornalista e autêntico doente por futebol, de olho até nos campeonatos mais obscuros. Cresceu vendo times como Werder Bremen, Stuttgart e Wolfsburg conquistarem a Bundesliga. Inspirado em Grafite contra o Bayern, vou dar a letra no que acontece no campeonato de melhor média de público do planeta.