Como a rica em história Granada transformou-se na casa do futebol na Espanha

  • por Victor Mendes Xavier
  • 14 Dias atrás

A Andaluzia é uma das regiões mais importantes da Espanha. Rica em recursos minerais como carvão, cobre, ferro e chumbo, possui um comércio plenamente ativo e desenvolvido, muito por causa da industrialização de algumas de suas oito províncias. A mais famosa cidade é Sevilha, também a mais populosa, com 704,414 habitantes. Mais ao leste está Granada, com seus pouco mais de 234 mil habitantes. Granada pode não ter o glamour da vizinha, mas tem uma história cheia de acontecimentos, de fato, históricos. Lá, por exemplo, foi o último reino espanhol de caráter islâmico. Hoje Andaluzia, em meados dos anos 900 era conhecida como “al-Andalus”, com mais de cinco milhões de habitantes muçulmanos. Tempos depois do islamismo se estabelecer, vários de seus estados foram caindo um por um para reinos cristãos invasores. Granada foi um forte ponto de resistência.

Após anos de guerra, no início de 1492, Muhammad, filho do sultão, já sem nenhuma condição estratégica, assinou um tratado que deu o controle da cidade ao Rei Fernando de Aragão e à Rainha Isabel de Castela, casal também conhecido como “Reis Católicos”. Assim, caía o último estado oficialmente muçulmano de al-Andalus. Os primeiros anos de conquista foram de trégua, mas, depois, o islamismo foi proibido, e a alternativa aos muçulmanos foram se refugiar em especial no norte da África ou viverem em clandestinidade. Em 2016, uma reportagem da BBC mostrou como Granada atrai católicos convertidos ao islamismo.

No século XX, Granada voltou a chamar a atenção. O golpe militar contra a República começou ali perto, em junho de 1935, entre oficiais do exército colonial sediado no Marrocos, até chegar em toda a Espanha continental. Com as tropas anti-republicanas se espalhando, matar passou a ser considerada uma forma de limpeza, principalmente nas áreas rebeladas. Em 1936, uma das primeiras figuras públicas brutalmente perseguida e posteriormente assassinada foi Federico García Lorca, um dos maiores poetas da Espanha.

Explica Helen Grahan, professora de História Espanhola da Universidade de Londres, no livro “Guerra Civil Espanhola” que a limpeza citada “incluiu ainda pessoas que simbolizavam a mudança cultural e que supostamente representavam uma ameaça aos antigos modos de ser e de pensar: professores progressistas, intelectuais, operários autodidatas, as “novas” mulheres”. Não somente por suas ideias políticas que Lorca foi assassinado (ele era apoiador da Frente Popular Marxista), mas também por sua sexualidade. O artista viveu parte de sua juventude em Granada e, para Ian Gibson, autor da biografia de Federico García Lorca, certamente a cidade serviu como fonte de inspiração para muitos de seus trabalhos.

 

Por Granada se vê várias referências a um de seus grandes expoentes. Tem o famoso museu Casa-Museu Federico Garcia Lorca e também o principal aeroporto da região, que leva o nome do poeta. Como se vê, é um lugar onde futebol costumeiramente fica em segundo plano quando o assunto é protagonismo. O ápice do Granada Club de Futbol foi em 1959, quando ficou com o vice-campeonato da Copa do Generalíssimo, atual Copa do Rei. Na final, mal conseguiu acompanhar o frenético ritmo do Barcelona, que levou a taça após vitória por 4 a 1. Na década de 70, o Granada terminou o Campeonato Espanhol em sexto lugar, na temporada 73/74, em um time marcado pela força defensiva, representada pelo trio sul-americano de zagueiros, Julio Montero (uruguaio), Pedro Fernández (paraguaio) e Ramón Alberto Aguirre Suárez (argentino). O duro jogo dos três por vezes era alvo de críticas da opinião pública.

O ostracismo passou a ser condição para o Granada da década de 80 à atual. O time voltou para a primeira divisão em 2011 e até ficou um bom tempo, mas caiu em 2017. Com o vice-campeonato da segundona em 18/19, retornou à elite. E retornou para ficar, para surpresa de muitos. Passadas dez rodadas, o surpreendente Granada é o líder de La Liga com 20 pontos, e não para de ganhar manchetes na imprensa europeia.

A campanha é magnífica: seis vitórias, dois empates e duas derrotas. Destes, em seis não sofreu gols, incluindo um contra o Barcelona, quando venceu por 2 a 0 (com Suárez, Griezmann e Messi em campo). Daí se tira a solidez do sistema defensivo, mas é o espírito coletivo que ajuda os Rojiblancos a alcançarem o incrível status. Sobretudo quando joga em casa, no Nuevo Los Carmenes, o Granada impõe uma agressiva marcação ao rival que começa já no sistema ofensivo. Fora, opta por marcar mais atrás e explorar a velocidade de seus pontas. Como destacou o Marca em sua matéria de capa na edição online de segunda-feira, “uma equipe camaleônica”.

No domingo, o Bétis agonizou e saiu derrotado por 1 a 0. Primeiro, pela dificuldade para sair jogando. E, quando conseguia passar da pressão dos atacantes e meias, encontrava um onipresente Gonalons mordendo tudo no círculo central. O volante francês, emprestado pela Roma, teve sua melhor atuação, multiplicando-se nas quatro linhas. Notícia importante, diga-se de passagem, porque Montoro era titular e o dono da posição até se lesionar. A intensidade do Granada com e sem a bola deixou os Verdiblancos numa situação de desconforto total.

Diego Martínez é o comandante da orquestra. Elétrico, não para por um instante na área técnica. Nos jogos nos Carmenes, Martínez costuma comandar a torcida, inflamando o estádio, à la Diego Simeone fazia no auge do Atlético de Madrid no Vicente Calderón. E os méritos do profissional vão muito além de uma simples capacidade de mexer com o brio do grupo e dos torcedores. Os números mostram que a bola parada do Granada é uma arma quase que mortal. Ninguém marcou mais gols dessa forma que a equipe andaluza: oito dos 17 gols saíram em escanteios ou faltas.

 

O Granada joga substancialmente pelos lados. Até Azeez, atacante que foi recuado para atuar de meia-atacante com a lesão do camisa 10 Puertas, não para de cair pela direita, principalmente, juntando-se a Vadillo e Victor Dias. Na esquerda, Machis tem o auxílio do lateral-esquerdo Carlos Neva, em incessantes apoios pelo setor. A ordem é clara: seja começando as jogadas ou recuperando, a pelota tem que estar nos flancos, ainda mais pela força na bola aérea.

Se todo time bom começa por um bom goleiro, o Granada segue à risca esse princípio. Isso porque o português Rui Silva talvez seja, neste momento, o melhor arqueiro da temporada na Espanha. Aos 25 anos, Rui Silva, de 1,91 m, foi o goleiro menos vazado da segunda divisão 2018/2019 e é um dos responsáveis pelos seis jogos sem sofrer gols do Granada. À frente, o também português Domingos Duartes cresce semanalmente e se afirma como zagueiro de nível alto.

Qual o limite do Granada? Difícil de responder. É um time que recorda o Levante de Juan Ignácio Martínez em 2011/2012, outro caçula que alcançou a liderança (mas por poucas rodadas), embora fosse bem mais defensivo. Ao término da temporada, o Levante conquistou uma celebrada vaga na Liga Europa. De qualquer forma, o Campeonato Espanhol reserva aventuras que tendem a ser especiais à cidade de Granada, que estará no centro do futebol do país como poucas vezes esteve.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.