Conte e sua busca por desfazer a hegemonia que ajudou a construir

É impossível não associar Antonio Conte à dinastia vencedora que a Juventus mantém no futebol italiano desde o início da década que se finda. Após a Vecchia Signora claudicar nos primeiros anos de volta à Serie A do Calcio, com direito a dois decepcionantes sétimos lugares nas temporadas 09/10 e 10/11, foi sob o comando de Conte que a gigante de Turim restaurou sua força. Agora, quase 10 anos após o ex-meio-campista ter guiado a Juve para trilhar o caminho das conquistas novamente, a Inter tenta repetir a receita de sucesso.

Antonio chega com respaldo e responsabilidades enormes a fim de colocar a Internazionale nos eixos. É uma grande aposta em resultados melhores. Falando em apostas, antes de prosseguir com a matéria, deixo um link sobre apostadores portugueses que pode ser do teu interesse.

 

Chacoalhada no elenco

O tricampeão italiano (11/12, 12/13 e 13/14) chegou com a difícil missão de ressuscitar um time que não conquista um grande troféu há oito anos. Para isso, recebeu plenos poderes para fazer uma limpa no elenco Nerazzurri. Segundo informações da Gazzetta dello Sport, o ex-treinador da seleção italiana só aceitou o cargo com uma condição: Icardi não estar no elenco.

Certamente Conte queria paz no vestiário para poder trabalhar e isso seria impraticável com o camisa 9 argentino e sua agente – e esposa – estampando manchetes de jornal com suas infindáveis polêmicas. Não quis Mauro Icardi de jeito algum, apesar do desejo que o ex-camisa 9 tinha de ficar. O argentino foi emprestado ao PSG, com direito de compra, e parece ter saído de vez pela porta dos fundos.

“[O ex-treinador Giovanni] Trapattoni sempre dizia que treinar a Inter era como entrar num liquidificador. O que o mestre disse eu não irei contradizer. Seguramente, dirigir a Inter não é simples. Temos que procurar extirpar alguns hábitos ruins. Não se vence apenas no campo, se vence também fora dele. Isso deve ficar muito claro.”

O treinador deu sua cara ao elenco, dispensando outros medalhões como Radja Nainggolan, Miranda e Ivan Perisic. De certo, essas saídas indicam gesto claro de Conte a seus jogadores: ou se enquadram, ou saem.

 

Caras novas

Segundo orientações do comandante, o time também investiu bastante dinheiro em reforços (155 milhões de euros em contratações e saldo negativo de 103 milhões na atual temporada, segundo o Transfermarkt):
  • Diego Godin chegou de graça para reforçar o miolo de zaga e agregar em espírito de luta.
  • Stefano Sensi  veio do Sassuolo, por empréstimo, e chegou rendendo muitíssimo bem: o meia participou diretamente em 05 gols (03 gols e 02 assistências) nos primeiros 06 jogos pela Serie A. Infelizmente saiu machucado contra a Juventus.
  • Nicolò Barella é um dos jovens mais promissores do Calcio e chegou para ser uma das peças-chave do meio-campo Nerazzurri pelos próximos anos (empréstimo com obrigação de compra por 25 milhões de euros em 2020).
  • Romelu Lukaku foi trazido por 65 milhões de euros para ser o principal atacante de Conte. Foi um pedido especial do treinador, pois, chegou para preencher a lacuna deixada por Icardi.
  • Alexis Sánchez veio por empréstimo de um ano.

Conte recorre à sua fórmula de sucesso: 3-5-2

Esquema base da Inter de Antonio Conte

 

O trio de zagueiros com Godin, De Vrij e Skriniar tem tudo para garantir solidez defensiva e também uma saída de bola com opções, seja através de passes seguros ao meias ou com os zagueiros dos lados carregando a bola até a linha do meio-campo. Handanovic, um dos melhores goleiros da Serie A, tem tudo para ficar protegido atrás desta trinca. Brozovic é o termômetro da saída de bola da Inter, é quem faz o jogo progredir. Asamoah e D’Ambrosio atacam dando amplitude máxima ao time, sempre buscando o 1×1 visando cruzamentos da linha de fundo. Defendendo, eles se alinham ao trio de zaga, formando uma linha de 05 defensores.

Sensi e Barella são a dupla criativa do meio-campo, em média criam 03 chances de gol por partida. O meia central posicionado à esquerda participa ativamente da construção das jogadas da Inter, recuando até encostar em Skriniar e receber a bola, depois progredindo com a jogada através de tabelas curtas. E ele não para por aí, já que além de auxiliar na progressão da jogada, Sensi também finaliza quando possível: costuma dar 3 chutes a gol por jogo, em média.

Lukaku e Lauraro Martínez são dois atacantes completos que abusam de suas fisicalidades, mas não se restrigem a elas. Pode-se esperar muitas tabelas, pivôs e passes em profundidade desta dupla.

O time defende melhor, é mais organizado e já encontra boas soluções; faz um bom começo de Série A (ao contrário da campanha na Champions League em que amarga a última colocação do grupo F com um ponto em duas partidas).

 

Derby mostrando que há muito o que melhorar

A Inter começou sua campanha de maneira excelente, vencendo 06 jogos seguidos, com direito a 2-0 no Derby de Milão. O clássico contra a Juventus era a chance de estender esta boa fase e, de quebra, ampliar a vantagem na tabela para 05 pontos. No entanto, como o próprio discurso de Conte na última coletiva antes do jogo já antecipava, não será fácil atingir o nível apresentado pelos principais rivais:

“Após uma derrota como a que tivemos contra o Barcelona (2-1 de virada), nos ajuda a entender o que fizemos bem e onde temos de melhorar. Ajuda a compreendermos que se queremos atingir certos níveis, precisamos melhorar e nos dar conta de que ainda temos um longo caminho. [O jogo contra a Juventus] é outro teste contra um time que foi construído ao decorrer do tempo e que ficou muito forte. Ainda estamos no início da jornada.”

Note que destaquei as palavras caminho, tempo e início. Realmente, não é do dia para a noite que se monta uma equipe dominante no futebol de alto nível. É esse o argumento de Antonio Conte e o jogo contra a Juve serviu para justamente exemplificar isso. Mesmo jogando em casa, a Inter pouco criou e viu seus rivais mandarem no jogo.

 

 

Isso aconteceu muito em função do resultado da entrega defensiva de Bernardeschi, que anulou Brozovic impedindo-o de iniciar as jogadas Nerazzuri com  tranquilidade na saída de bola. É verdade que também a perda de Sensi impactou demais no jogo coletivo dos donos da casa (substituído por lesão aos 34 minutos do primeiro tempo). Não é nada fácil ter de abrir mão de um dos melhores meio-campistas italianos logo num Derby importante e pegado, mas isso evidencia a falta de opções no banco para mitigar tal necessidade. Depois que Stefano saiu, a Inter pouco incomodou Szczęsny.

 

Agora é deixar Conte trabalhar

Apesar do sabor amargo da primeira derrota no Calcio, o saldo a ser encarado é positivo. Após 07 jogos disputados em 23 dias, o treinador terá 14 dias de pausa na partidas do clube, em decorrência de data FIFA. Um tempo que pode ser revigorante e servir para análise do que é necessário evoluir, principalmente quando a Inter entra nos jogos grandes.
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Diretor no DPF desde 2012 e criador da coluna "Olho Nele!".