Há um novo clube influente na seleção alemã – e ele vai te surpreender

O que a seleção tetracampeã do mundo pode aprender com o clube do quinto menor orçamento da Bundesliga? Aparentemente, muita coisa

Pense em um clube que seja a cara da seleção alemã. Resposta fácil: Bayern de Munique. As histórias até se confundem. Mas e se eu te disser que os bávaros perderam o protagonismo na Mannschaft para outro clube alemão? E o mais surpreendente: este “intruso” está completamente distante dos holofotes, com o quinto menor valor de mercado da Bundesliga. Não entendeu nada? Bom, acredite se quiser: quem está deixando a sua marca na seleção é o modesto SC Freiburg.

Foto: reprodução – Luca Waldschmidt

Isso parece não fazer o menor sentido, não é mesmo? Mas vamos tentar explicar. Para início de conversa, o Freiburg teve, pela primeira vez na história, dois jogadores convocados para a seleção em uma única lista.

Mas não é só isso. O assistente técnico da seleção alemã, Marcus Sorg, já foi treinador do Freiburg. O treinador, Joachim Löw, é o maior artilheiro da história do clube e mora em Freiburg – sendo frequente presença vip nos jogos locais. Como se não bastasse, o recém-eleito presidente da Federação Alemã de Futebol, Fritz Keller, ocupava o cargo de…presidente do Freiburg!

Foto: reprodução – Sorge e Low juntos

Entender este processo de “Freiburguização” da seleção alemã não é uma tarefa simples. Afinal, estamos falando de um clube que, em toda sua história, cedeu apenas dez jogadores para a Alemanha. Apesar da falta de tradição, há um recorte que ilustra essa mudança de patamar: sete desses 10 jogadores estrearam pela seleção de 2013 pra cá. Nenhum outro clube emplacou tantos debutantes desde então.

Isto significa que há um trabalho consistente sendo feito nos últimos anos – e que está sendo devidamente reconhecido. Nas últimas 11 temporadas, contando com a atual, o Freiburg se manteve na primeira divisão em dez. Classificou-se para a Europa duas vezes e, neste início de Bundesliga mais equilibrado do século, ocupa o 4º lugar após sete rodadas.

Parece pouco, mas é quase um milagre para um dos clubes que menos gastam na elite alemã. Para efeito ilustrativo, a contratação mais cara da história do clube, Vincenzo Grifo, foi trazido nesta temporada por “míseros” sete milhões de euros.

Desafiando a perversidade do mercado, o Freiburg se vale de um trabalho contínuo, com Christian Streich ocupando o cargo de treinador há oito anos. Além disso, o time da Brisgóvia mantém semanalmente um time titular com pelo menos nove jogadores alemães, acreditando no trabalho feito em casa.

Foto: reprodução – Christian Streich é o atual treinador do clube

É justamente este trabalho que agora abastece a seleção em uma escala surpreendente. Matthias Ginter, campeão da Copa de 2014, é o principal fruto. Na última convocatória de Löw, o clube emplacou de uma só vez o zagueiro Robin Koch e o atacante Luca Waldschmidt.

Waldschmidt, em especial, é quem mais gera expectativas. Artilheiro do Europeu Sub-21 em junho, o avançado foi titular nos dois compromissos da Alemanha nesta Data Fifa, com direito a uma exibição destacada contra a Argentina. Sua maior contribuição não poderia ter sido mais “Freiburg”: uma roubada de bola que deu origem a um gol.

Foto: reprodução – Robin Koch

A consolidação de Freiburg como o centro das atenções no futebol alemão ocorreu com a eleição de Fritz Keller para a presidência da DFB. Afilhado do lendário Fritz Walter, Keller é outro arquiteto importante do modelo do Freiburg, mas sua missão agora é consideravelmente maior: promover uma mudança de cultura na federação, tomada por escândalos e uma péssima gestão de crise nos últimos anos.

Se todos os caminhos levam a Freiburg, é melhor que a seleção alemã aproveite esta rota para incorporar valores pertencentes ao clube e à própria cidade. Em primeiro lugar, organização, de forma que o modelo de gestão do futebol nacional volte a ser referência; em segundo, humildade, para recomeçar o processo com os pés no chão; e, não menos importante, solidariedade, para que os egos sejam colocados de lado e todos se unam em torno de um bem comum.

A diferença é que, enquanto a Alemanha sonha em reconquistar o mundo, o Freiburg não quer deixar de ser Freiburg. A imagem do pequeno clube solidário faz parte da sua identidade. E não é este protagonismo que os farão esquecer de suas raízes.

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Jornalista e autêntico doente por futebol, de olho até nos campeonatos mais obscuros. Cresceu vendo times como Werder Bremen, Stuttgart e Wolfsburg conquistarem a Bundesliga. Inspirado em Grafite contra o Bayern, vou dar a letra no que acontece no campeonato de melhor média de público do planeta.