O tempo de Neuer não passou

Em um Bayern à beira do caos, Manuel Neuer é um oásis. Ele continua sendo um dos melhores no que faz

A sociedade – e por tabela o futebol – está cada vez mais imediatista e impaciente. Quantas vezes ouvimos ou repetimos que o “tempo do fulano já passou”? Clubes são tratados praticamente como gôndolas de supermercado com produtos fora da validade. Mesmo aqueles que já gravaram seu nome no futebol para a eternidade precisam se provar constantemente. Um dos que desafiam este “tempo de prateleira” sorrateiramente convencionado é Manuel Neuer.

Sim, estamos falando de um jogador nem tão “velho” assim (33 anos), que atua na função que propicia a maior longevidade no futebol e que, até um dia desses, era unanimemente o melhor goleiro do mundo. De repente, Neuer não apenas deixou de ser o melhor, como também passou a ser um simples estorvo para a progressão de Marc-André ter Stegen na seleção alemã.

Mas o que para muitos era o fim da linha de Neuer tornou-se um combustível para uma das melhores versões de Manu nos últimos anos.

A frieza dos números pode até te enganar. Neuer sofreu cinco gols nos últimos três jogos, e seu último clean sheet pelo Bayern foi há mais de um mês. Mas acredite: o goleiro vive um momento totalmente alheio ao caos do sistema defensivo do time bávaro.

Se não fosse Neuer, o Bayern certamente teria perdido muito mais do que nove pontos em nove rodadas de Bundesliga. E mesmo na noite mais iluminada do Bayern na temporada, os 7 a 2 sobre o Tottenham, Neuer foi um dos protagonistas. Não à toa, o número de finalizações na direção do gol contou uma história bem diferente do resultado final: 10 a 8 para o Bayern.

O jogo do último fim de semana, contra o Union Berlin, marcou outra das atuações mais especiais de Neuer na temporada. O arqueiro fez pelo menos três intervenções cruciais, incluindo a defesa de um pênalti – até que, minutos depois, o caótico Bayern concedeu outro pênalti, desta vez vencendo Neuer.

A propósito, tão impactante quanto as defesas de Neuer foi a postura do goleiro. Manu foi um capitão como há muito tempo não se via. Sempre educado fora de campo, Neuer esqueceu a diplomacia para esbravejar sem filtros com todos os companheiros de defesa. As veias inchadas eram o símbolo de um competidor feroz – e de um personagem que Neuer julgou necessário incorporar para contagiar o restante do time.

Por essas e outras, quando Joachim Löw decidiu rejuvenescer a seleção alemã, afastando Hummels, Boateng e Müller dos planos, Neuer jamais foi desconsiderado. Ele é um líder nato, uma influência positiva para os jovens que estão chegando e, acima de tudo, um grande goleiro. Marc-André ter Stegen terá o seu tempo, mas o melhor goleiro alemão ainda atende por Manuel Neuer.

 

A bem da verdade, até o Bayern já se planeja para a vida sem Neuer. Ao que tudo indica, o clube contratará Alexander Nübel, o melhor goleiro jovem da Alemanha e que, assim como Manu, apareceu para o mundo no Schalke 04. Porém, dada a forma de Neuer, a mudança de dono da camisa 1 é um mero exercício imaginário.

O futebol não é um estoque. Definitivamente, o tempo de Neuer não passou. Aliás, nem nunca passará. Alguém que revolucionou o que se entendia sobre ser goleiro será sempre atemporal.

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Jornalista e autêntico doente por futebol, de olho até nos campeonatos mais obscuros. Cresceu vendo times como Werder Bremen, Stuttgart e Wolfsburg conquistarem a Bundesliga. Inspirado em Grafite contra o Bayern, vou dar a letra no que acontece no campeonato de melhor média de público do planeta.