O teu futuro é duvidoso

  • por Daniel dos Santos Leite
  • 29 Dias atrás

Quando a Premier League retornar, no próximo fim de semana, três técnicos vão trabalhar também pela manutenção de seus cargos: Marco Silva, Ole Gunnar Solskjaer e Mauricio Pochettino. Nesta ordem, as casas de apostas indicam os três como favoritos ao indesejado posto de “próximo demitido na Premier League”. O Everton de Silva, o Tottenham de Pochettino e o United de Solskjaer receberão, respectivamente, West Ham, Watford e Liverpool.

Na verdade, nenhum dos três tinha uma posição confortável já no fim da última rodada. A parada para jogos das seleções, associada a resultados e um início de campanha desastrosos para os três times (Tottenham em 9º, United em 12º e Everton em 18º), poderia ter sido interpretada pelos clubes como uma oportunidade para a troca no comando técnico. Não foi o caso, mas todos os três precisam de respostas rápidas para evitar a demissão. Pensando no futuro imediato, investigamos essas necessidades:

Silva: um meio-campo mais competitivo

O Everton perdeu possivelmente seu melhor jogador, Idrissa Gueye, para o PSG. Gueye foi o maior ladrão de bolas da última temporada da Premier League, e sua ausência, num meio-campo com Schneiderlin e Delph (e que agora terá André Gomes de volta), pesa demais  na competitividade da equipe. O time piorou significativamente em interceptações e roubos de bola e acaba fazendo muitas faltas (11.8 por jogo, o terceiro mais faltoso da liga).

Foto: reprodução

A resposta óbvia para esse problema seria a presença de Jean-Pierre Gbamin, contratado junto ao Mainz 05 como substituto direto de Gueye, mas ele tende a ficar disponível apenas na outra rodada (foram apenas dois jogos na temporada do marfinense, que se lesionou antes de conseguir se adaptar ao novo time). O problema para Silva é que uma possível derrota em casa para o West Ham – que tem jogado bem mais do que o Everton – manteria o time na zona de rebaixamento e talvez deixe insustentável sua situação. Uma alternativa seria tirar Sigurdsson da equipe no próximo jogo e contar com um trio de meio-campistas que ofereça mais solidez.

Solskjaer: contra-atacar

Não é a solução mais brilhante em médio ou longo prazo, mas o Manchester United tem uma sequência de jogos que indica uma abordagem mais retraída, com saídas em velocidade, como o melhor caminho para voltar a vencer jogos. Com a expectativa de contar com o quarteto Wan-Bissaka, Shaw, Pogba e Martial de volta já contra o Liverpool em Old Trafford, o time titular estará teoricamente mais preparado para se defender bem e acionar o trio de ataque em transições rápidas. Não ameniza muito o momento difícil, mas é fato que o time estava bastante desfigurado nas rodadas anteriores.

Foto: REUTERS/Andrew Yates

Depois do Liverpool, o United visitará Norwich e Bournemouth, duas equipes extremamente ofensivas, mas que deixam muitos espaços na defesa. Se Pogba calibrar os lançamentos e Rashford usar o golaço que marcou pela seleção inglesa para retomar a confiança, os contra-ataques serão uma arma interessante, como sempre foram nos melhores momentos de Solskjaer em Old Trafford (sim, eles existiram). É o que este time oferece de mais interessante.

Pochettino: resgatar o bom ambiente

É muito especulativo afirmar que este é o principal problema, mas parece claro que o ambiente no Tottenham, sob o comando de Mauricio Pochettino, já esteve melhor. Não é que o grupo não se relacione bem, mas aquele sentido de unidade, de todo mundo na mesma direção, que tanto caracterizava os Spurs em campo e fora dele, parece ter se perdido.

Foto: reprodução

O maior símbolo individual desse momento é Eriksen, que pediu para sair, chegou a ficar no banco em várias partidas e ainda não joga em seu melhor nível. Com contrato apenas até o meio do ano que vem, o meia dinamarquês pode inclusive ser vendido por um preço mais baixo em janeiro. Coletivamente, o que representa a fase dos Spurs é a forma descoordenada e às vezes até desinteressada com que o time tenta “pressionar” o oponente, o que costumava fazer tão bem. Na derrota por 3 a 0 para o Brighton, foi constrangedor. O Tottenham tem pela frente Watford em casa e Liverpool e Everton fora. A essa altura, até independentemente dos adversários, Pochettino precisa identificar e confiar em quem realmente quer estar no clube.

O futuro e o caráter da nova seleção inglesa

Os resultados da seleção treinada por Gareth Southgate ainda não são os mais consistentes. A goleada por 6 a 0 sobre a Bulgária em Sofia foi precedida por uma derrota por 2 a 1 para a Tchéquia em Praga. Mesmo a vitória por 5 a 3 sobre Kosovo em Southampton, em uma parada anterior, havia levantado pontos importantes sobre a defesa. Nada que deva tirar a Inglaterra da fase final da Euro 2020.

Foto: twitter oficial

A falta de regularidade ainda é sintoma de um time em transição. A Inglaterra tem vários jovens pedindo passagem por seu desempenho nos clubes (e eles têm sido efetivamente incorporados aos poucos), mas Southgate ainda conta com jogadores que quase sempre lhe deram retorno na seleção, como Trippier e Barkley. Entre dar chances às promessas e preservar a “hierarquia”, a Inglaterra não tem um time titular definido. De qualquer forma, as ausências de Dele Alli, Walker e Lingard na última convocação mostram que o técnico está atento ao que acontece na temporada.

No entanto, muito além do desempenho em campo, o grande assunto da última “data FIFA” foram as criminosas ofensas de alguns torcedores da Bulgária contra jogadores da Inglaterra por conta da cor de sua pele. A postura de toda a seleção inglesa diante das manifestações racistas e nazistas teve indignação, bom futebol e um engajamento que se estendeu até horas depois da partida, com diversos jogadores do grupo se posicionando de forma enfática e precisa sobre o repugnante episódio.

Raheem Sterling já é há muito uma liderança na luta contra o racismo no futebol e na sociedade, que eventualmente se manifesta também fora de campo, em capas de jornais e comentários na televisão. Vários outros jogadores ingleses se juntam de vez à luta mais nobre que pode existir no esporte e mostram que a força do grupo desta seleção  vai muito além de um time bastante promissor em campo.

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Jornalista, acompanha a Premier League desde o auge da rivalidade entre Arsenal e Manchester United. Viu o número de grandes equipes aumentar e o campeonato se globalizar por meio da qualidade de um espetáculo que é ótimo até quando o jogo é ruim. Escreve aqui para registrar algumas das ideias que aparecem durante as rodadas.