Podemos esperar mais da Seleção Brasileira?

  • por Victor Gandra Quintas
  • 2 Meses atrás

Brasil mostra futebol pobre mais uma vez em amistoso e não dá sinais de evolução

A seleção Brasileira aumentou para três o número de jogos sem vitória em Amistosos. Mas não é isso que preocupa, e sim o futebol pobre apresentado pelos comandados de Tite. O Brasil sempre dependeu de individualidades em sua história. Mesmo quando tinha times bem formados, havia craques que se destacavam e eram protagonistas. Foi assim desde a Era Pelé, passando pelas seleções de Zico, Romário e Ronaldo. Além disso sempre houve lideranças que mantinham a concentração dentro de campo. Hoje parece que nada disso existe!

A falta de protagonistas

O principal nome deste conjunto é Neymar, mas ele merece um tópico só seu. Por isso, falaremos de outros jogadores que teriam qualidade para ser destaque da seleção de Tite.

Dizer que a atual geração de jogadores brasileiros é ruim seria mentira. Temos atletas que, mesmo que não sejam protagonistas em seus clubes, fazem parte do primeiro escalão mundial. Temos, por exemplo, os goleiros Alisson e Ederson, defensores como Alex Sandro e Marquinhos, meias do nível de Casemiro e Fabinho e atacantes de classe mundial como Firmino e Gabriel Jesus. Mas nenhum deles consegue se fazer protagonista desta seleção.

Foto: reprodução

Por mais que vários destes jogadores se destaquem em seus clubes europeus, não conseguem transferir o desempenho nos times para a seleção. Claro, isso é comum, uma vez que mudam os companheiros, o esquema de jogo, o treinador. Acontece que alguns jogadores conseguem ficar muito abaixo do que poderiam apresentar.

No último título mundial do Brasil, em 2002, por exemplo, tínhamos três protagonistas, os “3 erres”: Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. Mas, cercando-os, um grupo de coadjuvantes que mantinham sintonia para que os três brilhassem lá na frente. Em 1994 havia Romário e Bebeto, com um time que muita gente poderia classificar como um futebol feio, mas eficiente, pois no ataque ninguém fraquejava. A seleção comandada por Telê Santana, de Zico e cia, em 1982, não venceu o Mundial, mas ficou eternizada pela qualidade com que jogava. Para muitos, a melhor Seleção Brasileira de sempre, talvez perdendo para a de 1970, com Pelé no auge.

A ideia aqui não é comparar a atual formação da Seleção com estas épocas, mas mostrar que em cada ano tivemos jogadores capazes de assumir o protagonismo e chamar a responsabilidade sem desculpas, seja jogando feio e ganhando, ou dando show, mesmo sem ser campeã, mas mantendo intacto o orgulho do torcedor.

O não reconhecimento das falhas

Outro problema da atual Seleção Brasileira é a falta de capacidade de reconhecer os próprios erros. A soberba impera entre vários dos jogadores, o que podemos notar nas entrevistas de alguns atletas. Podem culpar o gramado, o calor, o desgaste da viagem, fuso horário, retranca do adversário, mas nunca, nunca o futebol pobre que jogam.

Existem sim fatores externos que interferem no desempenho, mas reconhecer as falhas e erros nas jogadas também é essencial para evoluir. Quando na partida vemos falta de repertório de jogadas, repetição de erros de passes ou de marcação, os jogadores não assumem que precisam melhorar nesses quesitos, mas preferem argumentar que o problema está em outro lugar.

Foto: Lucas Figueredo/CBF

Como foram apresentados exemplos em outras épocas no tópico anterior, aqui cabe muito bem a Seleção da Copa de 2006, quando o Brasil apresentava um excelente time, com alguns dos protagonistas da Copa anterior, mas a soberba, o “já ganhou!” e a falta de controle na concentração impediram o bom desempenho dentro de campo. Lembram do quadrado mágico? Que não venceu nada? Pois é!

A falta de variação de estilo

A formação mais usada por Tite é o 4.2.3.1. Há uma breve variação deste esquema, passando para 4.1.2.2.1, mudando principalmente o posicionamento do primeiro volante. A espinha dorsal da Seleção é Alisson, Daniel Alves, Marquinhos, Casemiro, Coutinho, Neymar e Firmino. O resto do time pode variar, mas com Thiago Silva, Alex Sandro e Arthur sendo titulares habitualmente. A última posição tem sido ocupada mais frequentemente por Richarlison, mas que teve Gabriel Jesus contra Senegal. E só!

Foto: Lucas Figueredo/CBF

Quanto ao repertório de jogadas, o principal erro da Seleção é a centralização destas. E não é a verticalização, termo adorado pelos analistas táticos, mas é vicio de jogada mesmo. Todo ataque do Brasil tende a buscar a faixa central do ataque, com toques curtos. Sim, tenta-se muita infiltração, mas é só. Contra times fechados (ou seja, quase todos), isso facilita a marcação. Não há jogada de linha de fundo, tabelas para envolver o adversário, nada. Dificilmente se vê uma jogada ensaiada, algo para ludibriar a defesa rival. Daí, acaba esperando que a qualidade individual dos jogadores resolva o jogo.

Ao se repetir a formação, busca-se o entrosamento. Mas a cada jogo que passa, parece mais que os jogadores brasileiros pouco se conhecem. Cometem erros bobos que prejudicam o ataque e o domínio de bola. O Brasil sempre foi a Seleção a ditar o ritmo de jogo em suas partidas, ainda mais porque quase sempre era “a Seleção a ser batida”, mas de tempos para cá, essa mística caiu por terra e a posse de bola tem passado muito mais tempo com o adversário que com o Brasil.

Podemos, então, descrever a atuação do Brasil, nos dias de hoje, assim: muita intensidade nos primeiros 15 a 20 minutos, depois equilíbrio com domínio das ações por parte do adversário. Volta do intervalo sem modificações, o time ensaia atacar mais, mas não consegue. O Adversário manda no jogo, até que faltando 20 minutos, em média, Tite faz modificações e os jogadores passam a buscar suas capacidades individuais para mudar o placar.

As convocações “viciadas”

Tite sempre convoca 23 jogadores, com estes atletas citados no tópico anterior sempre entre eles, salvo motivos de lesão ou suspensão. Na lateral esquerda é onde há maior rotatividade, com Filipe Luís revezando com Alex Sandro. Este é o time que mais joga com Tite atualmente, e pouca mudança vemos nisso. Até quando são feitas substituições, são praticamente os mesmos jogadores, Gabriel Jesus, Everton “Cebolinha”, Lucas Paquetá, Fabinho.

Ora, não são jogadores ruins, mas para que, então, convocar 23 jogadores, se estes não forem testados? Aliás, convocar jogadores que atuam no Brasil, em um campeonato mal datado pela mesma CBF que cuida da Seleção, acaba prejudicando os clubes que brigam por títulos. Jogadores que muitas vezes nem chegam a entrar em campo e fazem uma viagem absurda como a atual para Singapura, do outro lado do globo.

Foto: Lucas Figueredo/CBF

Alguns argumentam que Tite os observa durante o treinamento. Sério, este é um argumento fraco demais, pois qualquer jogador pode fazer um bom treinamento, se dar bem com o grupo e cumprir os pedidos do treinador. Mas, quando entra em campo, pode acabar perdido no calor do momento e não jogar nada. Não dá para avaliar um jogador só pelo treinamento. Ainda mais em uma Seleção do nível eu esperamos do Brasil.

Uma convocação, pelo que acreditamos, deve priorizar um time principal sim, mas com jogadores em boa fase ganhando chances e com outros jogadores que podem trazer algo diferente para o grupo principal. Ao se utilizar sempre os mesmos atletas, você não consegue ver o que um novato pode agregar ao grupo.

Além de tudo isso, Tite insiste em jogadores em baixa em seus clubes. Caso principal é de Coutinho, que teve uma péssima temporada no Barcelona. Agora, no Bayern de Munique, o jogador tem recuperado, aos poucos, o bom futebol, mas ainda longe da época em que era top 3 dos jogadores brasileiros em atividade. Alex Sandro é outro que merece atenção. Titular absoluto na Juventus, onde raramente faz jogo ruim, no Brasil tem tido desempenho risível. Mesmo assim se mantém titular. Gabriel Jesus não é nem sombra do jogador que é no Manchester City. Arthur é reserva do Barcelona (apesar que merece sim estar no grupo, mas não como titular absoluto).

É preciso ter opções e saber utilizá-las, promover a diversificação de atletas com diferentes atributos e habilidades. Um grupo de qualidade se constrói desta forma.

Um time sem criatividade

Uma posição em extinção no futebol é o camisa 10 clássico. Aquele meia criativo, que dita as jogadas e controla o meio de campo. Quando não se tem este jogador, contamos com outros criativos que podem ajudar na promoção do ataque. Não temos mais esse camisa 10. Não temos jogadores com capacidade de pensar as jogadas. Os dois principais criadores da Seleção hoje são Arthur e Coutinho. Nenhum deles o faz muito bem.

Foto : Pedro Martins

Coutinho, como dito, ainda está recuperando seu futebol no campeonato alemão, enquanto Arthur não se firma no Barcelona. Arthur ainda é um jogador que é melhor ao jogar mais recuado no meio campo, não sendo o articulador principal. Além destes o principal jogador construtor de jogadas é Lucas Paquetá. Lucas joga no Milan, que hoje briga contra o rebaixamento no campeonato Italiano.

Os laterais, que podem auxiliar nesta função, pouco contribuem, ficando engessados do meio para trás. Eventualmente sobem ao ataque, mas sempre buscam o meio campo, como já argumentado, centralizando as jogadas. Fica, então, a esperança dos atacantes. Neymar, que tem qualidade suficiente para isso, ou Firmino, que desempenha essa função, em parceria com seus colegas no Liverpool. Ou seja, cabem às individualidades resolver.

A ausência de liderança

Não existem líderes no grupo da Seleção como houvera em épocas anteriores. Por muito tempo Tite fugiu da responsabilidade de nomear um capitão. Até mesmo na Copa do Mundo houve um rodízio. Segundo ele, seu capitão seria Daniel Alves, mas este teve que ser cortado do torneio. Deveria ter escolhido outro então. Dentro de campo, a ausência de um líder claro, por prejudicar o desempenho, como em qualquer atividade.

Tempos depois, quando decidira acabar com o rodízio, erroneamente, escolheu Neymar. Queria refletir o que outras seleções com grandes talentos fizeram, como Argentina e Portugal com Messi e Cristiano Ronaldo, por exemplo. Só que estes dois sabem desempenhar o papel de um capitão, sabem motivar o seu grupo, principalmente o segundo, que venceu duas competições com a Seleção Portuguesa.

foto: Lucas Figueredo/CBF

Depois dos problemas extracampo de Neymar, Tite foi pressionado a retirar a braçadeira do jogador e, no fim das contas, hoje esta pertence a Daniel Alves, corretamente empregada. Outros líderes evidentes que temos são Thiago Silva e Casemiro. O que se passa entre eles é que são líderes conformados, que parecem ter medo de cobrar de seus colegas em campo a garra e a vontade necessária para se vencer. Daniel Alves é reconhecido por falar o que tem vontade, mas grande parte das vezes é arrumar desculpa para o mal desempenho ou criticar quem se queixa da Seleção.

Aliás, outros jogadores já reclamaram de vaias e da falta de carinho da torcida. Mas é claro! Esta Seleção pouco tem identificação com o torcedor brasileiro. A “casa” da Seleção Brasileira é Londres, e não o Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador ou outra cidade brasileira. A Copa América poderia ter mudado um pouco isso, mas foi só vencer a competição que voltou a fazer amistosos insignificantes mundo afora, chegando ao absurdo de jogar contra Senegal em Singapura para não mais que 20 mil espectadores locais.

O fator Neymar

E chegamos em um dos principais pontos desta Seleção: Neymar!

O craque, que é sim, craque, tem tido seu nome mais envolvido em problemas extracampo, seja de cunho policial, quando esportivo. Sendo sua culpa diretamente ou não, fato é que Neymar é muito mal assessorado e tratado como uma criança. Fez de tudo para sair do Paris Saint-Germain, querendo retornar para a Espanha, atrasando sua volta aos gramados. Ainda esteve suspenso no início da temporada por conta de uma agressão a um torcedor e a xingamentos ao árbitro quando da eliminação e seu time da Liga do Campeões passada, para além de uma lesão contraída pouco tempo antes da disputa da Copa América, afastando-o da competição que o Brasil viria a vencer. Soma-se a isso o caso de abuso sexual que já foi provado sua inocência. Ou seja, Neymar viveu um turbilhão de emoções em poucos meses.

Foto: reprodução

No entanto, invés de tratarem o jogador com a responsabilidade que ele deve assumir, sua “trupe” o cerca de tal forma que parece que tudo que ele faz é perdoável. É difícil de se imaginar que Tite, comandante maior da Seleção, tenha alguma conversa franca com o atacante, já que é permitida a presença do pai do jogador na concentração da Seleção.

É fato que o Brasil venceu a Copa América sem Neymar, mas convenhamos que não foi um torneio complicado, já que a maior rival, a Argentina, passa por crise pior. O Brasil não pode se dar ao luxo de não ter Neymar, pois este é o único jogador diferenciado que temos, mas ele precisa entender o seu lugar no time, a responsabilidade que tem. E mais, Tite deve tratá-lo como homem, não como um jovem desamparado.

Como todo conjunto, a Seleção Brasileira contém peças individuais que precisam atuar em sintonia para funcionar. Parece clichê, mas é verdade.

A vaidade da CBF

Por fim, devemos comentar o ego da federação que rege o nosso futebol. A CBF pouco se importa com os atletas, com os torcedores ou com os clubes. A sua preocupação é a seleção Brasileira e o investimento que ela atrai. A Seleção é um produto de exportação.

Além de mandar todos os jogos fora do Brasil, sua casa, a CBF não se esforça para dar qualidade ao produto local, o Campeonato Brasileiro ou a Copa do Brasil. Ao entregar o calendário do ano de 2020, nota-se que não haverá pausa durante a Copa América (mais uma!!!), ou seja, jogadores que atuam em clubes brasileiros, além de quase não terem férias, desfalcarão seus clubes por diversas rodadas.

foto: reprodução

A CBF consegue afastar a Seleção de seus torcedores e ainda provocar a antipatia destes ao prejudicar seus times de futebol. Mas não podemos livrar de culpa os dirigentes dos clubes também que são, em grande parte, passivos e coniventes com as ações da CBF, o que prejudica ainda mais o futebol brasileiro como um todo. Junta-se a isso a obscuridade com que trata as negociações, os diversos diretores da entidade que são indiciados ou estão presos, além do vergonhoso processo de nomeação da diretoria. Não há sinais de melhora, pelo contrário, a CBF abusa cada vez mais do amor do torcedor pelo seu clube e pela sua seleção.

Mas esse amor, principalmente pela Seleção, está se esgotando. E, como podemos ver, são diversos os fatores que prejudicam o desempenho geral, seja dentro ou fora dos gramados. Se algo não mudar, veremos a Seleção fracassando cada vez mais e vivendo somente da história da grandeza que um dia teve.

Comentários

Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).