A solução que o Leicester City encontrou em Söyüncü

A última janela do futebol europeu sugeriu a possibilidade de enfraquecimento do Leicester City. Perder um zagueiro como Harry Maguire, titular da Seleção Inglesa, para o Manchester United, não era um bom sinal — mesmo que aquele negócio representasse o maior valor pago por um defensor na história do futebol. O curioso é que, mesmo com €87 milhões nos cofres, os Foxes não foram ao mercado em busca de reposição. Aquilo parecia uma loucura. Quem seria o parceiro de Jonny Evans? O veterano Wes Morgan? O croata Filip Benkovic, que retornara de empréstimo junto ao Celtic? Não, o turco Çağlar Söyüncü, de pouquíssimo tempo de jogo na campanha anterior.

Agindo com o cérebro, não o coração

O caso do beque ex-Freiburg é uma demonstração do que o Leicester tem buscado desde o fantástico título inglês da temporada 2015-16. Como apontou em uma de suas colunas mais recentes o jornalista Rory Smith, do NY Times, o clube não se prendeu à conquista. Aos poucos, as peças daquele ano foram saindo: ou para o banco (até seus contratos expirarem), ou, no caso dos maiores destaques, para equipes mais poderosas do ponto de vista econômico. E isso não foi um choque, porque foi traçado um plano. A propósito, as despedidas dos ícones do título foram feitas como se deve, com honrarias.

Com diversos olheiros espalhados pelo mundo — mesmo tendo perdido alguns para clubes como Arsenal e Everton —, o clube segue à procura de jovens por alcançar seu melhor nível e em busca de mais holofotes. Foi assim que descobriu Wilfred Ndidi, no futebol belga. Desse modo, apostou também no lateral direito português Ricardo Pereira, e resgatou o jovem Youri Tielemans, que se encontrava estagnado em um Monaco cambaleante. Assim, venceu a concorrência pela contratação de James Maddison, então destaque absoluto do Norwich na segunda divisão inglesa. Foi também dessa maneira que encontrou Söyüncü na Floresta Negra alemã.

Soyuncu Leicester

Foto: LCFC.com

A questão é que o futebol exige, imperativamente, resultados de curto prazo. E a soma da venda de Maguire com a nona posição da Premier League 2018-19 não sugeria outra coisa senão a estagnação dos Foxes no segundo bloco do futebol inglês, distante do famigerado Big Six. Porém, como intitulado pelo mencionado Rory Smith, em Leicester, o renascimento que indica ao clube a hipótese real de luta por vaga em competições europeias (favorecido, também, pela má fase de alguns dos gigantes) tem se dado baseado em bom senso, não em sentimentos. Em cérebro, não coração.

Erro de avaliação ou falta de paciência?

As performances recentes de Söyüncü são prova disso. Para muitos, o zagueiro de 23 anos já podia ser considerado um erro de avaliação do departamento de olheiros do Leicester. Isso porque, tendo custado €21 milhões, teria tido que entregar ao clube muito mais do que as escassas oito aparições em sua temporada de estreia (2018-19). Para quem demanda resultados imediatos, pouco importa o fato de o turco ter estado lesionado em boa parte da campanha.

A questão é que quem não pode pensar apenas no futuro imediato agiu com precisão. Não, o Leicester não tem capacidade de evitar o êxodo de seus destaques. Por isso, tem tentado se preparar para diminuir os efeitos das perdas. E, convenhamos, no caso de um jovem como Söyüncü, o estranho seria vê-lo abandonar um clube de meio de tabela na Bundesliga e chegar à Premier League com estatuto de titular e jogando no melhor de suas capacidades. 

Soyuncu Freiburg

Foto: SCFreiburg.com

“As duas ligas são grandes e de alta qualidade, mas a Inglaterra é mais rápida para mim. A bola não sai do campo. Ou você está atacando ou defendendo ataques. E o tempo na Inglaterra é um pouco pior, com muitas chuvas ”, disse o zagueiro à BeIn Sport, durante a última pré-temporada.

Adaptação e crescimento

Sim, o ritmo do jogo praticado na elite inglesa é diferente do praticado no mais alto escalão alemão. Por isso, aliado à juventude e às dificuldades a partir de lesões, o inicial insucesso de Söyüncü não foi visto pelo clube como cenário de terra arrasada. Em hora alguma foi indicada a saída do beque — diferente do que se vê hoje, um momento em que, sofrendo com os problemas físicos de seus zagueiros, o Manchester City vira seus olhos para o turco.

E os motivos para o interesse de Pep Guardiola são bastante óbvios. Confortável com a bola em seus pés, frio e seguro, Söyüncü é um dos melhores zagueiros do início de temporada inglês. Evidentemente, a amostragem de 12 jogos é pequena para que se teça conclusões mais profundas, o que não invalida seu sucesso recente. 

Brendan Rodgers, Leicester City

Foto: LCFC.com

“Para ser honesto, olhando de fora, ele me parecia alguém que se arriscaria ao defender e cometeria alguns erros. Quando cheguei e o vi nos treinos, ficou claro que ele era um ótimo jogador […] O que me impressionou sobre ele foi o fato de que o clube tinha dois ótimos zagueiros na sua frente, Harry Maguire e Jonny Evans. Em algum momento, ele era a quarta alternativa, porque tínhamos Wes Morgan entrando também. Mas isso não o afetou”, relatou o treinador dos Foxes, Brendan Rodgers, ao Sky Sports.

Números a favor de Söyüncü

Hoje, no Leicester, apenas Ndidi e Ricardo Pereira, dois nomes que já se destacavam no fundamento no último ano, desarmam mais que Söyüncü. E é claro que a informação não se presta a qualquer comparação, na medida em que os desafios de um lateral, um volante e um zagueiro são muito diferentes. 

Foto: Reprodução/Twitter @syncaglar

Se for desejada uma comparação mais realista, basta dizer que, dentre os zagueiros da PL, apenas o polaco Jan Bednarek, do Southampton, desarmou mais vezes. No contexto dos Foxes, ele também é o terceiro que mais intercepta bolas, atrás da mesma dupla supracitada. Já no cenário da competição, dentre os beques, é o sétimo. Embora seja um dos defensores mais faltosos da liga, é preciso notar que o Leicester, como um todo, também é um dos clubes com mais infrações, ocupando, até o momento, a quinta colocação no ranking de faltas cometidas.

Na comparação direta entre Söyüncü e Maguire, tendo os dois atuado em todos os minutos da Premier League até a 11ª rodada, fica evidente como o Leicester lidou bem com a mudança em sua defesa. O comparativo fornecido pelo site Whoscored é esclarecedor — ainda que uma avaliação criteriosa tenha de ter em mente a completude dos jogos de Manchester United e Leicester City, para que se note os tipos de situação a que ambos têm sido expostos.

Whoscored Maguire Soyuncu

Compartivo: Whoscored.com

Plante e colha os frutos

O que não dá para desconsiderar é o fato de que o Leicester encontrou solução interna para um problema. Não dá para encarar a perda de Maguire de forma indiferente. Um zagueiro que custa o que custou e representa uma nação como a Inglaterra no nível internacional tem importância em qualquer plantel. Mas os Foxes estavam preparados. Sem se prender ao passado, o treinador Brendan Rodgers manteve o capitão Wes Morgan na reserva. 

Do time campeão, restam o goleiro Kasper Schmeichel e o centroavante Jaime Vardy como pilares. E, claro, nem sempre será possível encontrar reposição do mesmo nível do destaque perdido, como o clube mostrou em sua procura por um novo N’Golo Kanté. Contudo, os Foxes não lutam contra o inevitável. Não se debatem ante o envelhecimento de jogadores importantes e nem choram a perda de destaques. Não há tempo para isso. Em uma liga tão acirrada quanto a Premier League é preciso estar preparado. Como indicou Rory Smith, é necessário agir imbuído de bom senso. Como o Leicester City fez para suprimir os efeitos da venda de Maguire, confiando em Çağlar Söyüncü.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.