Ernesto Valverde e o teto de evolução de um Barcelona hesitante individual, coletiva e mentalmente

  • por Victor Mendes Xavier
  • 1 month atrás

E aconteceu de novo. Por mais uma vez no Campeonato Espanhol 2019/2020, o Barcelona jogou mal fora de casa e saiu derrotado. Dessa vez, foi vítima do Levante, no Ciutat de Valencia, por 3 a 1. Um triunfo merecido e implacável, que nem mesmo Lionel Messi foi capaz de evitar. Não perca a conta: é o quatro tropeço catalão atuando fora do Camp Nou em La Liga, o quinto na temporada no geral (empate por 0 a 0 na estreia na Liga dos Campeões da UEFA contra o Borussia Dortmund). Diante desse retrospecto, é impossível não questionar: Ernesto Valverde ainda é capaz de fazer esse time evoluir? Não é uma pergunta retórica. O objetivo do texto desta semana é abrir um debate junto ao leitor.

É preciso deixar claro que o Barça de Valverde tem problemas (alguns graves), mas sequer tudo é culpa somente do treinador, que tem, sim, méritos neste trabalho. Falar de Barcelona exige doses de realismos que, aparentemente, boa parte da torcida (o que é até normal, diga-se de passagem) e da opinião pública parecem não ter. Pudera. O fato do clube ter se tornado um dos mais vitoriosos do mundo nos últimos anos, com o incrível esquadrão comandado por Josep Guardiola e o excelente período com Luis Enrique, levou a exigência esportiva dos Blaugranas a um patamar imensurável. Até por isso, temporadas como a de 2018/2019, com o título espanhol, ou mesmo a de 2017/2018, quando abocanhou Liga e Copa do Rei, dão a noção de fracasso numa observação rasa, pelo fato de, em ambas, a taça da Liga dos Campeões não ter sido conquistada.

Evidente o anti-clímax pelas indecentes eliminações para Roma e Liverpool (e o adendo da perda da Copa para o Valencia no fim de maio deste ano), mas também nem tudo tem que ser pura e simplesmente apagado. Ou alguém considera que 2004/2005, com queda nas oitavas da Champions para o Chelsea, foi uma campanha negativa? À época, o Barça não vencia um título nacional há seis anos e a sensação era de ser um gigante adormecido. Caiu na Europa pro Chelsea de uma forma decepcionante, mas nada que tirasse o brilho ao término do ano. Sim, a realidade do Barcelona é outra, inclusive institucionalmente, assim como os tempos no futebol europeu mudaram, com o abismo financeiro entre grandes e pequenos cada vez maior ano após anos que permite a formação de esquadrões dominantes em seus países. No entanto, é preciso sempre analisar com ponderação.

Ernesto Valverde chegou ao Barcelona em junho de 2017 sob turbulência. Primeiro, porque a temporada anterior dos culés havia sido um fiasco retumbante na Liga e na UCL. E, principalmente, porque durante a pré-temporada o assunto Neymar protagonizou toda e qualquer coletiva dos jogadores e do próprio treinador. No mercado, Ney se transferiu para o Paris Saint-Germain. O projeto debutou sem aquele que seria um de seus protagonistas. Ao mesmo tempo, o Real Madrid parecia imbatível. Acabara de ser bi-campeão europeu e levantado o troféu nacional. Na Supercopa, o duelo entre os rivais não deu nem pro cheiro para o Barça: 3 a 1 no Camp Nou e 2 a 0 no Bernabéu pro Real.

Foto: Reprodução Instagram do Barcelona | O Barça campeão espanhol em 2017/2018 teve dedo de Valverde.

A solução foi tentar criar um esquema que, inicialmente, privilegiasse o máximo possível a capacidade de finalização de Messi a fim de efeitos práticos a curto prazo. Somado a um começo lento do Real, deu certo: o Barcelona só foi perder pontos na 8ª rodada, em empate contra o Atlético de Madrid, no Wanda Metropolitano, por 0 a 0, abriu boa vantagem pro arquirrival e Messi marcou 11 gols em oito jogos. O passo seguinte foi evoluir uma estrutura sólida na defesa e que permitisse ao time ter agressividade na marcação. O eterno 4-3-3 deu vez a um 4-4-2 por vezes “conservador”. Rakitic e Busquets formavam a dupla de volantes que tinha o auxílio de Paulinho (sem a bola), escalado pelo lado direito; Iniesta era o teórico ponta esquerda, mas ganhava liberdade para circular por dentro e caminhar sempre próximo da bola, liberando o flanco para as múltiplas subidas de Jordi Alba; Messi e Suárez atuavam como atacantes.

O Barcelona colocou o Espanhol no bolso com uma regularidade de impressionar e teve picos de ótimo futebol. Porém, quando a parte física das peças-chaves caiu, a equipe foi junta. Valverde utilizava o banco durante o jogo (não à toa, no primeiro semestre da temporada, reservas como Alcácer e Denis Suárez tiveram seus momentos de importância), mas rodava pouco o elenco desde o início. A três dias de enfrentar a Roma pela volta da eliminatória de quartas de final de UCL, o Barça encarou o Leganés no Camp Nou tendo sete pontos de diferença para o Atlético de Madrid. Todos os titulares foram a campo. Resultado: no Olímpico de Roma, o time mal parecia ter pernas para correr.

O declínio coletivo ficou mais transparente em 2018/2019. Ernesto Valverde perdeu Iniesta, recebeu Arthur, consolidou uma ideia com Coutinho e Dembélé como alternativas ao Neymar que não teve, voltou ao 4-3-3 “made in La Masia” e teve a melhor versão individual de Messi desde 2015. Mas o Barcelona só mostrou segurança em lampejos (como no 5 a 1 no Real Madrid, no 4 a 2 contra o Sevilla, no 4 a 0 fora de casa contra o Espanyol ou no 2 a 0 contra o Atlético de Madrid). Ganhou La Liga com 76% de aproveitamento, contra 81% do ano de estreia, mais porque era o melhor time e tinha os melhores jogadores do que necessariamente por alguma novidade tática do natural de Viandar de la Vera.

O que acontece com o Barça que não emplaca em 2019/2020? Uma série de fatores. Piqué, por exemplo, que costuma sustentar o sistema defensivo, não vive o melhor momento, muito menos um Sergio Busquets a cada dia mais lento e longe do vigor de Arthur e De Jong. Contra o Levante, o zagueiro completou atuação para se esquecer, com erros impróprios para um jogador de sua qualidade. Griezmann continua irregular, preso a uma ponta esquerda e um sistema que visivelmente lhe custará adaptação. Já a lateral-direita é obstáculo, ao que parece, difícil de ser contornado. Sergi Roberto parou de ser improvisado e Semedo ganhou a disputa definitivamente; contudo, é um fragmento de confusa compreensão. Percebe-se que o português tem qualidades, que paradoxalmente vão sendo apagadas dia após dia.

Para Alejandro Moreno, comentarista da ESPN UK, o encaixe de Griezmann no Barcelona de Valverde é uma tarefa para lá de difícil. Ex-jogador venezuelano também alerta para jogo barcelonista deveras “concentrado” pelo meio. Com Alba passando por consecutivos problemas físicos e a propensão de Griezmann e Messi a se deslocarem ao meio, o Barça fica inutilizado pelas pontas

Ernesto Valverde não se ajuda. A dificuldade em “ousar” quando o cenário de um determinado encontro pede prejudica e/ou subutiliza a qualidade técnica do Barcelona. As substituições são sempre previsíveis e “batidas”. Todo mundo sabe que Vidal vai entrar no lugar de Busquets (ou vice-versa), que Griezmann vai ser trocado por Dembélé ou Carles Perez, e Sergi Roberto jogará minutos na vaga de Arthur. E isso independe do Barça estar ganhando ou perdendo. No sábado, foi Vidal quem começou entre os titulares. Quando o Levante empatou, ele saiu para a entrada de Busquets. Um “seis por meia dúzia” que estava na cara que em nada alteraria o rumo da peleja. O porquê de Junior Firpo ser pouco utilizado é um mistério.

Em suma, o atual Barcelona está saturado, também psicologicamente. O acúmulo de baques na Europa influencia negativamente na confiança do plantel. Ter Stegen admitiu, há duas semanas, que “não é só a parte tática que explica o que aconteceu em Roma e Liverpool” e salientou que “pode vir acontecer novamente”. É grave. Quando o Barça se sente acuado, pressionado pelo adversário, é impossível não pensar nos confrontos. A partir daí, tudo é consequência desse bloqueio mental. Os “apagões” fazem parte de um time que perdeu competência para adversidade nas grandes noites, que à frente desse panorama joga duvidando de si mesmo.

Que o técnico vai precisar trabalhar em dobro para fazer o Barcelona caminhar numa direção correta, todos sabem. Mas é uma batalha conjunta, que inclui uma diretoria hoje mais interessada em contratos e acordos do que impreterivelmente na gestão esportiva. A relação entre o presidente Josep Maria Bartomeu e os senadores do elenco está desgastada. Messi e Piqué criticaram a bagunçada pré-temporada, com deslocamentos desgastantes por ambição financeira. Por que raios o Barcelona foi para os Estados Unidos disputar dois (!) jogos contra o Napoli uma semana depois de voltar à Catalunha depois de 20 dias na Ásia? Não faz sentido.

Foto: Site Oficial do Barcelona | Josep Maria Bartomeu, presidente do Barcelona. Digamos que o cargo já foi ocupado por nomes cujo a torcida tinha mais “simpatia” e admiração…

Embora a temporada esteja em seu início, é o terceiro ano de Ernesto Valverde. A impressão que fica é que o time já chegou ao teto do que poderia evoluir nas mãos do profissional, e isso vem de meses. Ou seja: não há nada mais a tirar. Ainda assim, cravar tal afirmação com 100% de certeza não seria o justo. Há talentos que possam fazer o Barcelona caminhar numa direção diferente da atual. Todavia, o futuro barcelonista é, no mínimo, duvidoso.

Comentários

Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.