Hansi Flick e o resgate da essência do Bayern

O Bayern demitiu Niko Kovac para iniciar um projeto de longo prazo, mas a transição com Hansi Flick está saindo melhor que a encomenda

O treinador interino é uma das instituições mais peculiares do futebol. É aquele sujeito que praticamente nem o próprio torcedor do clube conhece, pega o time em crise e, milagrosamente, faz a equipe empilhar vitórias. O enredo é antigo, mas o que vamos contar aqui não é exatamente mais do mesmo: nem mesmo o interino mais iluminado ostenta um retrospecto tão impecável quanto o de Hansi Flick, do Bayern de Munique.

Desde que assumiu provisoriamente o cargo de treinador após a demissão de Niko Kovac, Flick conduziu o Bayern a quatro vitórias em quatro jogos. Mas não apenas isso: são 16 gols marcados e NENHUM sofrido. E é especialmente essa a razão pela qual os bávaros ainda não foram ao mercado para buscar um novo comandante.

Foto: reprodução – Niko Kovac não conseguiu engrenar no Bayern

Antes de mais nada, é preciso entender como Flick mudou a cara do Bayern. A chave, em primeiro lugar, está na empatia. O ex-auxiliar técnico de Joachim Löw tem um quê de Jupp Heynckes no trato com o grupo: é acolhedor, “paizão” e mantém uma comunicação clara e aberta com as estrelas – inclusive aquelas que não estão ganhando minutos. Manter a confiança e a felicidade do grupo é essencial para o trabalho fluir.

Obviamente, o que se reflete dentro de campo também tem o dedo de Flick. A equipe já carrega os princípios de jogo do interino – marcação alta, linhas compactas e transição ofensiva com muita rapidez. Um Bayern voltando a jogar como Bayern, como até Karl-Heinz Rummenigge fez questão de reconhecer com todas as letras.

Outro mérito de Flick foi identificar a combinação perfeita de jogadores em tão pouco tempo. Com Lucas Hernández e Nikas Süle lesionados, o interino apostou em Alaba no centro da zaga e viu a mudança surtir efeito, especialmente na qualidade da saída de bola.

Além disso, Flick tirou Kimmich definitivamente da lateral e o inseriu no centro do campo, acompanhando uma tendência de Löw na seleção. Também com Flick, jogadores como Leon Goretzka, que estava desapercebido no elenco, passaram a ganhar minutos regulares. O interino conseguiu até mesmo acomodar Philippe Coutinho e Thomas Müller no mesmo onze, algo que Kovac nunca demonstrou afeição.

Foto: Sven Hoppe/dpa – Hansi Flick é a esperança de sucesso do Bayern nesta temporada

Aliás, um dos primeiros atos de Flick como treinador foi devolver o protagonismo de Müller. O brasileiro foi deslocado para o flanco esquerdo, enquanto Müller foi acomodado na faixa central, ganhando liberdade para encontrar espaço entrelinhas e pisar na área. O esforço está sendo recompensado: são quatro assistências do alemão nos últimos dois jogos como titular.

Todos os sinais apontam para a efetivação de Hansi até o fim da temporada. É a decisão mais lógica a se tomar, já que torcida e jogadores estão felizes com o trabalho desenvolvido. Porém, algo fora dos planos colocou o martelo em xeque: Mauricio Pochettino, o treinador mais desejado pela cúpula bávara, foi demitido do Tottenham.

Porém, até que ponto vale interromper a química construída por Flick e criar uma pressão desnecessária em um novo projeto? Claro que há o risco de perder Pochettino, especialmente se Manchester United e Real Madrid decidirem mudar o comando técnico, mas há outras alternativas de longo prazo animadoras. Erik ten Hag, por exemplo, parece disposto a sair do Ajax ao final da temporada e assumir um novo desafio – e trata-se de alguém que conhece a rotina do Bayern.

Foto: reprodução – Pochettino, recém demitido do Totthenham, pode chegar no clube Bávaro

Neste momento, entretanto, o Bayern precisa de um treinador de transição – um conceito que o próprio Bayern ajudou a popularizar com Jupp Heynckes. Assim, os bávaros conseguirão manter a competitividade ao longo da temporada e entregam melhores condições para que o treinador escolhido, seja Pochettino, ten Hag ou qualquer outro, arquitete um projeto duradouro e bem sucedido.

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Jornalista e autêntico doente por futebol, de olho até nos campeonatos mais obscuros. Cresceu vendo times como Werder Bremen, Stuttgart e Wolfsburg conquistarem a Bundesliga. Inspirado em Grafite contra o Bayern, vou dar a letra no que acontece no campeonato de melhor média de público do planeta.