La Liga Nostalgia: a emocionante penúltima rodada do Campeonato Espanhol 2006/2007

  • por Victor Mendes Xavier
  • 25 Dias atrás

Estamos em período de Data FIFA e, naturalmente, os campeonatos nacionais na Europa param, certo? Não no Doentes por Futebol! Que tal uma volta ao tempo para relembrar um dos momentos mais emocionantes do Campeonato Espanhol no século – e talvez em toda a sua história? Agora estamos num sábado, dia 9 de junho de 2007. É a 37ª rodada de uma edição marcada pelo equilíbrio total entre três equipes. O Real Madrid liderava com 72 pontos, mesma pontuação do Barça, que levava desvantagem devido ao critério de desempate, o confronto direto. Nos superclássicos, o Real levou a melhor, no geral, vencendo por 2 a 0 no primeiro turno no Santiago Bernabéu e empatando por 3 a 3 no Camp Nou no returno. O Sevilla também tinha chances de título e era o terceiro colocado com 70 pontos. Seria difícil buscar a taça (mesmo com a vantagem pequena) pela disputa com os gigantes, mas não dava pra descartar a hipótese. Até porque o Sevilla de Juande Ramos tinha acabado de conquistar sua segunda Copa da Uefa consecutiva e se preparava para a final da Copa do Rei. Ou seja: era um time verdadeiramente competitivo e acostumado, naquele momento, às decisões.

 

O pensamento comum lembra da disputa pelo título pegando fogo, mas, na parte debaixo da tabela, a situação era igualmente tensa. A duas rodadas para o fim, o Gimnástic de Tarragona era o único já sentenciado à segundona. Faltavam dois, e quatro times estavam ameaçados: Celta de Vigo, Real Sociedad, Athletic Bilbao e Real Bétis. A situação dos dois primeiros era mais complicada, pois ambos tinham 33 pontos e os outros tinham 37. Como se vê, um lado do País Basco choraria. E foi o de San Sebastián, da Real Sociedad. A dor, porém, foi prolongada por mais um final de semana. Na penúltima rodada, o Athletic Bilbao perdeu para o Villarreal no El Madrigal por 3 a 1, mas a Real não passou de um agonizante empate em casa com o Racing Santander por 0 a 0. Com o detalhe que o brasileiro Sávio desperdiçou um pênalti no segundo tempo que daria três pontos para lá de valiosos aos Donostiarras, que teriam que buscar o milagre na jornada final contra o Valencia no Mestalla. Logicamente, não deu e o certame terminou 3 a 3. Real Sociedad na Série B.

Quem a acompanhou foi o Celta Vigo, mesmo com o Bétis fazendo um esforço enorme para sair da elite. Na 37ª rodada o verde e branco da Andaluzia recebeu o Osasuna. Bastava uma simples vitória para o pesadelo acabar. Mas quando a fase é ruim ela demora a ir embora. O Bétis perdeu de forma vergonhosa por 5 a 0, deixando para definir a situação no último jogo, fora de casa contra o Racing Santander. O Celta fez a sua parte e conseguiu um triunfo comemorado contra o Atlético de Madrid por 3 a 2 no Vicente Calderón. No entanto, mesmo assim não dependia de mais de si. A vitória final veio, 2 a 1 contra o Getafe, mas o Bétis venceu o Racing na Cantábria por 2 a 0 e conseguiu se salvar.

 

Enquanto isso, Real Madrid, Barcelona e Sevilla brigavam pela taça. O Barça defendia o título (era o atual bicampeão, aliás), enquanto o Real estava cada vez mais pressionado pelos anos em branco. O último troféu havia sido a Supercopa nacional em 2003, contra o Mallorca. Meses antes, os Blancos ganharam o título espanhol, na primeira temporada de Ronaldo Fenômeno no país. Em suma, os Galáticos (que não eram mais Galáticos) não conquistaram nada relevante nos quatro anos anteriores. 2006/2007 foi uma espécie de fim definitivo do super e midiático Real Madrid do início do século. Zidane se aposentou no fim da temporada anterior, marcada pela despedida de Figo à Internazionale, enquanto que Ronaldo foi embora em janeiro para o Milan. Restou Beckham, que teve uma importância fundamental na reta final da campanha, marcada, também, pela “ressurreição” do eterno Raúl González, que formou uma dupla de ataque brilhante com Van Nistelrooy, principal contratação no mercado.

 

O Real Madrid visitou La Romareda para encarar o Zaragoza. Era um jogo de risco, visto que o adversário foi uma pedra no sapato do Real nos anos anteriores, com direito a vitória em final de Copa do Rei e goleada por 6 a 1 no estádio onde fariam a partida. Ao Barcelona, a mesma dificuldade foi prevista. Afinal de contas, mesmo jogando em casa, o confronto seria contra o Espanyol, rival regional que tinha seu melhor time em anos. Em 2005/2006, os Péricos foram campeões da Copa do Rei; em 2006/2007, vices da Copa da Uefa. A qualidade dos azuis e brancos eram ratificadas nos dérbis, não à toa o do primeiro turno foi uma vitória por 3 a 1. Em outras palavras, a garantia de três pontos para os rivais não estava certo e o Sevilla poderia até pintar como líder, a uma rodada do fim. No entanto, os andaluzes não passaram de um pobre empate com o Mallorca, fora de casa, por 0 a 0, o que deixou as atenções em cima de Barça e Madrid.

Tanto em Aragão, como em Barcelona, os roteiros tiveram cenas semelhantes. As partidas começaram juntas. O Espanyol surpreendeu com um gol de Tamudo aos 30 minutos abrindo o placar no Camp Nou. A cerca de 330 kms dali, Helguera cometeu pênalti em Diego Milito, que deslocou Casillas na cobrança. Um pouco antes do intervalo, Messi, que, aos 19 anos, começava a virar estrela do Barcelona naquele fim de temporada, empatou com um gol de mão, emulando Maradona meses depois do gol driblando meio Getafe. À época camisa 19, foi no argentino que os culés depositavam esperança, já que Ronaldinho, ainda craque do time, cumpria suspensão por expulsão na rodada anterior, contra o Getafe.

 

O Barcelona foi para o intervalo líder: 73 pontos contra 72 do maior rival. Disposto a fazer história, Messi voltou para a etapa final com tudo. Aos 12, ele recebeu de Deco, penetrou na área pela direita e tocou no contrapé de Kameni com a perna direita para enlouquecer o Camp Nou. Era o segundo gol do Barça, que se isolava na liderança. De volta à Romareda, Capello revigorou o ataque colocando um jovem Higuaín (19 anos) na vaga de Raúl logo no retorno do vestiário. O Real Madrid passou a dominar as ações e chegou ao gol de empate com van Nistelrooy aos 13. Não por muito tempo. Aos 17, apareceu Diego Milito novamente. O argentino avançou pela linha de fundo, deu um corte seco em Cannavarro e chutou com força para vencer Casillas. O Zaragoza volta a ficar à frente do marcador e o Real atrás na classificação.

A campanha do Real Madrid ficou conhecida como “Liga das Remontadas”, ou “Liga das viradas”, em português. Ao todo, foram sete jogos que o Real saiu atrás e teve que buscar os três pontos na marra. A maioria nos dez minutos finais. E voltou a acontecer. Aos 44 minutos, Higuaín recebeu passe de Roberto Carlos e concluiu em cima de César, que não conseguiu segurar a bola. van Nistelrooy antecipou-se a Chus Herrero e tocou para as redes vazias. O 2 a 2 não servia, mas, ao mesmo tempo, em Barcelona, Tamudo recebeu um passe milimétrico de Luis García, infiltrou-se na defesa blaugrana e tocou na saída de Víctor Valdés empatando o dérbi catalão. O Camp Nou não acreditava.

Foto: Reprodução Youtube | Torcedores no Camp Nou incrédulos após gol de Tamudo que tirou time da liderança a uma rodada do fim do Campeonato Espanhol 2006/2007.

O épico momento ficou conhecido como “Tamudazo”. “Eu deveria cobrar cada vez que usassem essa palavra (Tamudazo), vão desgastá-la”, brincou, em entrevista ao AS, em 2017. “É uma história bonita, que vou sempre contar para os meus filhos. Foi um momento único, como o Maracanazo”. Tamudo já era um ícone no Espanyol, mas eternizou seu nome definitivamente com os gols que tiraram o título do primo rico. O pequeno, marrento e excelente ex-atacante é o jogador que mais marcou gols (129) e entrou em campo (340) pelo clube périco.

O Real Madrid foi campeão em casa, no Santiago Bernabéu, na última rodada. O triunfo final (imagina) veio em nova virada: o Mallorca abriu o placar, segurou até os 15 do segundo tempo, mas não aguentou o ímpeto do Real, destinado a ganhar a trigésima (e muito comemorada) taça. Os gols foram de Diarra e Reyes. O Barcelona venceu o Gimnástic por 5 a 1, mas de nada adiantou. Com o fim da temporada, o presidente Ramón Calderón demitiu Fabio Capello e trouxe Bernd Schuster, de ótimo trabalho no Getafe, para comandar os Merengues em 2007/2008. O bicampeonato veio com mais facilidade, numa campanha consistente, diante de um instável Barcelona, agonizando no fim da era Rijkaard e Ronaldinho. Mas isso é história para outra hora.

 

FICHA TÉCNICA – 37ª RODADA DO CAMPEONATO ESPANHOL 2006/2007

ZARAGOZA 2X2 REAL MADRID

ZARAGOZA: César Sánchez; Sergio, Piqué, Gabriel Milito, Chus Herrero; Celades (Lafita), Zapater, Aimar, D’Alessandro; Ewerthon (Movilla), Diego Milito (Óscar González). Técnico: Víctor Fernández.
Real Madrid: Casillas; Sergio Ramos, Helguera, Cannavaro, Roberto Carlos; Diarra, Emerson (Guti), Beckham, Robinho (Reyes); Raúl (Higuaín), van Nistelrooy. Técnico: Fabio Capello.
Estádio: La Romareda.
Data e horário: 9 de junho de 2007, às 21h local (16h, Brasília)
Gols: Diego Milito (32′ e 64); van Nistelrooy (57′ e 89).
Cartões Amarelos: Piqué, Sergio, Aimar; Sergio Ramos, Helguera, Diarra

BARCELONA 2X2 ESPANYOL

Barcelona: Víctor Valdés; Zambrotta, Puyol, Thuram, van Bronckhorst (Oleguer); Xavi, Iniesta, Deco; Messi, Eto’o, Gudjohnsen (Thiago Motta). Técnico: Frank Rikjaard.
ESPANYOL: Kameni; Lacruz, Torrejón, Dani Jarque, Chica; Moisés (Ángel), Coro (Jonatas), Riera (Rufete); De La Peña; Luis García, Tamudo. Técnico: Ernesto Valverde.
Estádio: Camp Nou.
Data e horário: 9 de junho de 2007, às 21h local (16h, Brasília)
Gols: Messi (43′, 57′); Tamudo (30′, 90′)
Cartões Amarelos: van Bronckhorst, Deco; De La Peña, Moisés, Luis García, Tamudo.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.