O ultimo dia só poderia terminar histórico

  • por Marcela Natra
  • 26 Dias atrás

Casa cheia. Para esquerda ou para a direita, milhares. No setor leste, norte, sul ou oeste. Podia ser qualquer rodada do Campeonato Brasileiro Masculino, mas era a final do Campeonato Paulista Feminino. Homens, mulheres, crianças, alguns com a família, outros com amigos. Um jogo de futebol como qualquer outro, sem a menor diferença se ali estavam homens ou mulheres correndo por uma bola.

Nas arquibancadas a torcida que não se cala, canta e canta sem parar. Incentivos ao time, as vezes provocações as rivais. Bola no pé do São Paulo e se pode escutar algumas dezenas de “sai, sai, sai” até a zaga ou o meio recuperarem a posse e então serem recompensadas com aplausos. Chama a minha atenção um grupo de crianças de uma escolinha de futebol. Meninas de no máximo seus 14 anos, pedem insistentemente pela presença da volante Ingryd e quando o Corinthians coloca suas atletas para aquecer na frente delas, cinco ou seis vão até a beira da grade então conseguir o tal aceno. “Ela deu oi pra mim” comemora uma delas.

 

O tempo passa, os gols vêm, mesmo com 2 a 0 no placar e o agregado marcando 3, são poucos os gritos de campeão que se ensaiam antes do terceiro gol no jogo. Quando Milene finalmente balança as redes e sai eufórica comemorar com a arquibancada (inclusive jogando a própria camiseta para a torcida que depois devolve para a atleta), o nó na garganta se desfaz e sem medo de parecer cedo demais, a Arena Corinthians explode num “É CAMPEÃO” de arrepiar.

Depois de cinco minutos de acréscimos a festa acontece. Enquanto a equipe caminhava para dar uma volta Olímpica para comemorar, um menino de seus máximos 12 anos se colocou na minha frente na arquibancada (foto  abaixo). No olhar do garoto que filma suas campeãs, o futuro. Não se trata da paixão por elas ou por eles, pouco importa ali, é pelo amor ao futebol. Amor esse que faz com que elas enfrentem obstáculos que vão além do campo, para poder fazer dessa paixão por jogar bola um sentimento que chega até a arquibancada e atinge esse garoto. Ele concentrado em gravar aquelas imagens, desse dia em que ele possivelmente não vai esquecer.

Após o pódio, a parte Oeste da torcida do Corinthians pediu pela presença de Cristine, atacante São Paulina. Ela então atendeu o pedido e caminhou até as dezenas de camisas preta e branca que esperavam por ela. Nos braços da fiel, pouco importou que a camisa que ela usava era tricolor, o jogo já tinha acabado e ali estava a mulher, filha, ídola, que também contribuiu (e muito) para o amor que sentimos por esse esporte. Uma das cenas mais bonitas daquela manhã e uma das que perdurarão para sempre na minha memória.

O ano de 2019 não poderia terminar de uma forma melhor. Mais do que um dia inesquecível para o Corinthians, foi um dia de ver a confirmação de que o Futebol Feminino está agora em outro patamar. A emoção estampada no rosto de todas as jogadoras, da comissão técnica, dos profissionais de comunicação ali presentes, é a certeza de que essas lembranças percorrerão anos e anos na nossa mais afetiva memória do que foi este ano. Incrível. Inesquecível.  Histórico.

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Jornalista, apaixonada pela camisa blanca merengue, começou escrevendo sobre cinema até fundar o MeuMadrid e descobrir que as histórias que queria contar eram as do campo da bola.