Um relógio suíço em Anfield

  • por Daniel dos Santos Leite
  • 30 Dias atrás

Na primeira temporada completa de Jürgen Klopp no Liverpool, Philippe Coutinho era a grande referência técnica do time, ainda que o recém-contratado Mané tenha sido eleito o jogador do ano em Anfield. O brasileiro passou o bastão a Salah, que fez um 2017-18 extraordinário e centralizava as atenções de adversários, torcida e comentaristas. No ano passado, quando o time mudou um pouco seu perfil (muito também porque Pep Ljinders substituiu Zeljko Buvac como principal assistente de Klopp), van Dijk passou a ser apontado como o grande destaque. Hoje, esta posição não tem dono, ao menos não de forma unânime como em outros tempos. A principal força está nos mecanismos do time, que potencializam ao máximo as qualidades de cada peça.

O Liverpool abriu oito pontos para Leicester e Chelsea e nove para o Manchester City na liderança da Premier League. Após perder por 3 a 1 em Anfield, no último domingo, Pep Guardiola descreveu em entrevista coletiva as dificuldades de enfrentar a equipe de Klopp. “Eles são fortes em bolas paradas. Quando você fica atrás e tenta defender na área, eles abrem o jogo com Robertson e Alexander-Arnold nos cruzamentos. Tem a chegada do Wijnaldum, a segunda bola: é praticamente impossível lidar com a segunda bola. Quando ataca, (a partir de) qualquer erro que você cometa, as transições, que são a principal qualidade da carreira de Jürgen”, detalhou o técnico do City, que depois do jogo preferiu não falar sobre suas frustrações com a arbitragem.

Atuando como comentarista na Sky Sports, José Mourinho citou o “quebra-cabeça completo” do Liverpool como a razão que o faz acreditar no título dos Reds nesta temporada. Uma equipe toda moldada por e para Klopp, com funções claramente designadas e desempenhadas pelos 11 titulares e por aqueles que vão a campo quando necessário. É claro que o título da Champions League pesa bastante, mas o fato de haver sete jogadores dos Reds entre os 30 indicados pela revista France Football para a Bola de Ouro é uma boa demonstração da “coletivização” de um  time que se acostumou a ter um ponto focal nas últimas décadas, de Gerrard, passando por Suárez, a van Dijk.

Essa evolução do time nos oferece a chance de analisar alguns aspectos que ajudam a explicar por que o time conseguiu 34 pontos de 36 possíveis, mesmo já tendo enfrentado todos os seis adversários teoricamente mais fortes da liga.

Criação de jogadas

Em uma daquelas frases que se transformam em mantras, Klopp certa vez disse que “nosso melhor criador de jogadas é a pressão para recuperar a bola”. Mas o Liverpool é um pouco menos heavy metal desde a temporada passada, ainda que continue sendo um time de transições rápidas muito bem executadas, como a que gerou o segundo gol contra o Manchester City. Hoje, há mais controle no jogo dos Reds e opções para criar chances de muitas maneiras e em velocidades diferentes.

No lance desse gol de Salah, o passe que clareia a jogada é uma diagonal com o pé esquerdo de Alexander-Arnold, que incrivelmente se tornou o principal criador do time (com 3.5 passes-chave por jogo, só perde para De Bruyne no campeonato) a partir da lateral direita, com uma facilidade impressionante para acionar quem estiver passando livre a 30, 40 metros. Ele e Robertson têm uma batalha particular de número de assistências e neste momento são as maiores ameaças às defesas adversárias na construção de jogadas. Outro movimento importante para tornar a equipe mais perigosa contra oponentes bem posicionados é a já conhecida flutuação de Firmino entre os meio-campistas, deixando Mané e Salah como os jogadores mais adiantados. Vale registrar também a evolução de Fabinho em passes verticais.

Trabalho incansável dos meio-campistas

Muita gente reclama da “burocracia” da formação habitualmente titular do meio-campo do Liverpool, com Fabinho, Henderson e Wijnaldum. Não pelo brasileiro, que é unanimidade como primeiro volante, mas porque o capitão e o ex-jogador do Newcastle supostamente não oferecem a criatividade que se espera de jogadores que ocupam sua posição numa equipe candidata ao título. Os números de ambos em gols e assistências de fato não saltam aos olhos (apesar de o holandês ter uma ótima produção ofensiva pela seleção), mas eles têm outros papéis igualmente importantes para o time.

No fim das contas, o último passe é mais responsabilidade do trio ofensivo e especialmente dos laterais. É essencial o trabalho que os dois meias fazem ao cobrir espaços e permitir que o Liverpool atue com pontas que são na verdade mais atacantes do que o próprio centroavante do time e laterais que atacam o tempo todo. A energia e a liderança que Henderson oferece à equipe e a habilidade de Wijnaldum de controlar e manter a posse de bola em pequenos espaços mais do que justificam a titularidade deles nos jogos mais importantes. Mesmo que Oxlade-Chamberlain, aparentemente de volta a seu melhor nível, e Naby Keita ofereçam qualidades diferentes e tenham boas chances de ganhar espaço daqui a algum tempo.

Distribuição dos gols

Já está claro que o Liverpool depende muito menos de uma figura, individualmente. Mas e de um setor? E o trio especial de ataque? De certa forma, isso também tem melhorado. Mané, Salah e Firmino ainda marcam 57.1% dos gols da equipe na Premier League em 2019-20, mas é um índice que vem caindo desde que o egípcio foi contratado. Foram 67.8% dos gols do time em 2017-18 e 62.9% em 2018-19.

Cinco meio-campistas e toda a linha de defesa titular já marcaram na liga, após 12 rodadas. Ainda é possível distribuir melhor os gols, se Origi tiver mais sorte no campeonato, Chamberlain começar a marcar na Premier League os gols que tem feito nas outras competições e Shaqiri (autor de seis gols na liga em 2018-19) contribuir de alguma forma na temporada. Mas não deixa de ser outro sinal da evolução dos mecanismos de jogo coletivo: os laterais, que já eram supereficientes nas assistências, por exemplo, agora têm aparecido com frequência em boas situações para marcar. Tem mais gente atacando a área.

Mentalidade

Muito se fala sobre um eventual “bloqueio mental”, causado pelas três décadas sem um título da liga nacional, que pode aparecer no momento de o Liverpool partir para a conquista do título. Mas é difícil encontrar, na prática, algo parecido com isso, já que mesmo o que aconteceu na temporada passada teve muito mais relação com uma sequência espetacular do Manchester City do que com uma “amarelada” do Liverpool (que, bem, encerrou a liga com nove vitórias consecutivas).

Antes de vencer o time de Pep Guardiola, haviam sido oito pontos conquistados com gols na reta final de quatro jogos consecutivos – dois pontos contra o Leicester, um em Old Trafford, dois diante do Tottenham e três no Villa Park. É exatamente a diferença para o segundo colocado, o que indica também, por outro lado, que as margens são mais apertadas do que parecem. O Liverpool está totalmente preparado para o desafio e um pouco menos vulnerável por não depender tanto de um só jogador, mas evidentemente uma liga tão competitiva jamais acaba em novembro.

Comentários

Jornalista, acompanha a Premier League desde o auge da rivalidade entre Arsenal e Manchester United. Viu o número de grandes equipes aumentar e o campeonato se globalizar por meio da qualidade de um espetáculo que é ótimo até quando o jogo é ruim. Escreve aqui para registrar algumas das ideias que aparecem durante as rodadas.