Igualdade e equilíbrio: o Superclássico no Camp Nou

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Meses atrás

Barcelona e Real Madrid chegam para o Superclássico desta quarta-feira, no Camp Nou, no maior nível de equilíbrio do confronto nos últimos anos. Se, na temporada passada, o Real sequer competiu e foi presa fácil para um Barça que chegou a nem ter Messi na goleada por 5 a 1 em casa, a gradativa recuperação do “madridismo”, essa aura única que só o clube da capital parece ter, norteia a campanha do time de Zinedine Zidane. Com 35 pontos, os rivais dividem a liderança, num simbolismo que traduz o jogaço que terá transmissão da ESPN Brasil, às 16h (horário de Brasília).

É impossível não associar a igualdade citada à subida de produção dos Blancos. Em 2018/2019, o cenário que antecedeu os duelos deixava nítido o favoritismo barcelonista. No primeiro turno, o Real Madrid, sem rumo ainda assimilando a saída de Cristiano Ronaldo, visitou o Camp Nou vindo de irreais quatro tropeços consecutivos (três derrotas e um empate) no Campeonato Espanhol. No returno, já com Solari e sem Lopetegui no comando técnico, uma evolução foi ensaiada com as entradas de Vinicius Júnior e Reguilón no onze inicial em janeiro, mas ela foi interrompida no fim do mês seguinte com as derrotas para Girona, pela Liga, e para o próprio Barcelona pela Copa do Rei, três dias antes da partida pelo torneio de pontos corridos, ambas no Santiago Bernabéu. O gol de Rakitic decretou a vitória por 1 a 0 e sacramentou as chances (pequenas, é verdade) do Real conquistar a taça.

A ascensão madridista passa pelo bom nível de peças-chaves que davam a impressão de decadência, em especial no meio-campo. Casemiro e Kroos, principalmente, voltaram a garantir estabilidade e segurança com e sem a bola, enquanto Modric tem tido atuações de destaques, seja iniciando ou saindo do banco de reservas. O croata, aliás, faz parte de um dos muitos questionamentos em cima da escalação que Zidane irá levar a campo: esquema com quatro meias ou com três atacantes? Valverde será deslocado à ponta direita para Luka atuar na sua posição de origem? Rodrygo ou Bale? Qual será o papel de Isco? E defensivamente: Nacho para reforçar o embate a Messi ou Mendy para não perder em chegada ao ataque? São muitas perguntas. Zizou indicou, por mais de uma vez, que pretender dar prosseguimento àquele que é seu esquema preferido para os jogos decisivos: o 4-3-1-2, que nasceu na reta final de 2016/2017, com Isco auxiliando Ronaldo e Benzema. O sistema foi desenhado para tirar o melhor do espanhol, que, até por isso, reapareceu (de forma surpreendente, inclusive) quando o francês utilizou pela primeira vez no ano, no empate por 2 a 2 contra o PSG, na Liga dos Campeões.

Há um ano, traçando um paralelo com as 17 primeiras rodadas do Campeonato Espanhol, o Real Madrid tinha sofrido 21 gols e agonizava por todos os setores, com a nona pior defesa. Courtois era um dos mais criticados e setores da torcida pediam Keylor Navas titular. Atualmente com 12 gols contra, apenas o Atlético de Madrid sofreu menos. O belga, fundamental no ataque (!) cabeceando a bola que resultou num rebote para Benzema empatar o difícil duelo contra o Valencia por 1 a 1 no domingo, exibe o (ou algo próximo do) nível que o transformou em um dos melhores da posição e que a Espanha acostumou-se em seu período no Atlético. Os bons momentos de Éder Militão asseguram alternativas à dupla de zaga Varane e Sergio Ramos, outro argumento que explica o crescimento do Real.

Ao Marca, Messi foi claro: “jogar no Camp Nou contra o Real Madrid é, para o Barcelona, pior do que visitar o Santiago Bernabéu”. Para o argentino, o fato de atuar fora de casa tira a responsabilidade do Real de tomar a iniciativa do jogo. De fato, o clássico vem se desenvolvendo de formas diferentes, a depender do estádio onde foi disputado: o Madrid que recua as linhas e explora os contra-ataques na Catalunha avança para pressionar em casa. Como não lembrar a kamikaze tentativa de abafar a marcação barcelonista com 90 minutos, em 2017, que gerou espaços para Sergi Roberto conduzir e Messi concluir uma jogada que terminou em gol da vitória e a icônica celebração mostrando a parte de trás da camisa ao Bernabéu?

Se o Real costuma ter posturas diferentes, a do Barcelona todos sabem qual será. As dúvidas no lado culé são mais em relação às apresentações. Em quatro dias, um time com somente Griezmann de titular incontestável teve uma exibição notável em Milão contra a Inter de Milão. Venceu por 2 a 1. Depois, já completo, agonizou contra a Real Sociedad no Anoeta e empatou por 2 a 2. Resultado que, aliás, poderia até ser celebrado, já que uma derrota não seria anormal. Nada afeito às mudanças, Valverde faz poucas rotações no geral e demonstra não ser simpatizante de planos B ou C. Rodrygo e Valverde, por exemplo, grandes “descobertas” de Zidane no semestre, provavelmente não teriam espaços com o técnico espanhol. Ansu Fati e Carles Pérez, novas pérolas de La Masia, surgiram ocasionalmente, devido as lesões no sistema ofensivo, e não por insistência do comandante, tal qual o bom Wagué, que demorou a ganhar ao menos oportunidades no banco de reservas.

Nem tudo é negativo, é claro. Griezmann, principal contratação no mercado, começa a ser importante. A ponta esquerda continua sendo o seu lado (e não mudará), mas a adaptação está sendo tirada de letra. O entendimento com Messi e Suárez, que parecia uma adversidade, aparece até fora de campo. O francês se move com frequência para a direita quando o argentino se desloca ao centro da área adversário. Mas é a capacidade de finalização do camisa 17 que o faz ser confiável para as grandes noites. Que o diga seu histórico, no Atlético de Madrid e na França.

Outro que chegou em julho, De Jong passa a sensação de estar em Barcelona há anos. Além da facilidade para se encaixar na proposta de jogo, o holandês é uma peça peculiar no elenco, sobretudo na atual fase de Arthur, cheio de problemas físicos. De Jong tira o Barça da pressão como nenhum outro jogador faz e tem facilidade para jogar com espaços reduzidos. Por mais que Busquets tenha gerado desconfiança pelo acúmulo de erros pouco comuns na carreira, ele serve como escudo para que o jovem holandês atue com saliência.

Quem vencer o superclássico abrirá três pontos de vantagem na tabela de classificação faltando mais de um turno para o término da competição. Ou seja: nada seguirá definido. Mais que isso, porém, está em jogo a vantagem psicológica que o vencedor teria, especialmente pelas incógnitas que são Barcelona e Real Madrid para as fases agudas da Liga dos Campeões da UEFA. Vem mais um jogaço pela frente.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.