Os desfalques podem realmente atrapalhar o Liverpool no Mundial?

  • por Daniel dos Santos Leite
  • 2 Meses atrás

A imprensa brasileira tem dedicado especial atenção ao Liverpool nas últimas semanas. O motivo é óbvio: além da campanha quase perfeita na Premier League (96% de aproveitamento), o clube inglês é teoricamente o maior obstáculo entre o Flamengo e o título mundial de clubes, que será decidido neste sábado. Um dos aspectos que mais chamam atenção no noticiário são as recorrentes lesões que reduzem o elenco no momento mais atribulado da temporada.

A equipe de Jürgen Klopp embarcou para o Catar no último domingo com 20 jogadores. Provavelmente, outros três jovens se juntarão ao grupo depois da partida que o time alternativo do Liverpool fará contra o Aston Villa, pela Carabao Cup, na terça-feira. Para os dois jogos no Oriente Médio, é garantida a ausência de três peças importantes do primeiro time.

A participação dos Reds no Mundial pode até ser tratada como “inconveniente”, mas essa percepção tem mais a ver com o fato de o torneio acontecer em dezembro – mês em que o clube completará nove jogos – do que com a ideia, equivocada, de que “não vale nada”. O Liverpool evidentemente quer levantar esse troféu e o priorizou em detrimento da Carabao Cup, a Copa da Liga. O que não se pode esperar é um tratamento especial ao torneio.

Explica-se: os dois jogos do Catar fazem parte de uma longa sequência com duas ou mais partidas por semana e estão sujeitos ao rodízio. Como amplamente divulgado, cinco dias após a final (ou decisão do terceiro lugar), o Liverpool visitará o vice-líder Leicester pelo campeonato nacional. Ninguém pode afirmar que Klopp não se importa com a Premier League ou com a rivalidade da cidade de Liverpool, mas, em 4 de dezembro, ele poupou vários titulares – entre os quais Firmino e Salah – no dérbi contra o Everton e venceu por 5 a 2. Assim tem sido e, por enquanto, tem funcionado.

É quase certo que ele não utilizará as mesmas formações na semifinal, diante do Monterrey, e no confronto de sábado, a final ou a decisão do terceiro lugar. Seja como for, vamos avaliar quais são as implicações dos problemas por que passa o elenco do Liverpool, pensando especialmente na competição da FIFA, e como a equipe pode atuar no Catar.

Quem está lesionado?

Estão fora do Mundial Matip, Lovren e Fabinho. O zagueiro camaronês ganhou a posição na temporada passada e se tornou titular absoluto até se machucar. Com a instabilidade física e técnica de Joe Gomez, Lovren foi o escolhido para substituí-lo, mas também se lesionou. Quando a coluna foi fechada, ainda era incerta a participação de Wijnaldum no torneio. O meio-campista holandês precisou deixar a partida contra o Watford, no sábado, mas viajou ao Catar.

O Liverpool tem quantos zagueiros disponíveis?

Teoricamente, apenas dois do primeiro time. Van Dijk não treinou na segunda-feira, mas a apuração do jornal Liverpool Echo não indica que ele tenha se lesionado. O holandês, segundo colocado no prêmio Bola de Ouro da France Football, tem a companhia de Gomez, que, com participações mais frequentes, vem recuperando o bom nível e o ritmo que mostrou no início da temporada passada.

Se outro zagueiro se lesionar, o que Klopp poderia fazer?

A primeira opção seria recuar Fabinho para a defesa, como em partida contra o Bayern na última Liga dos Campeões, mas ele está fora. Wijnaldum, outro meio-campista que Klopp já escalou como zagueiro (duas temporadas atrás, contra o Brighton, em uma linha com ele, Lovren e Emre Can), também pode não jogar o Mundial. Ele teria ainda a alternativa de testar Henderson – pela boa estatura e velocidade de recuperação – na função antes de considerar uma mudança de sistema, possivelmente utilizando dois meio-campistas (Milner é o outro nome que vem à cabeça) em um trio com van Dijk ou Gomez. Para sábado, a tendência é que os holandeses Van den Berg e Ki-Jana Hoever, muito promissores, mas ainda bastante jovens, também estejam à disposição após enfrentarem o Aston Villa na Carabao Cup.

E como está o meio-campo?

Pelo nível que ele apresentava até se lesionar, a ausência de Fabinho era muito temida pelos torcedores do Liverpool. Realmente o time perde bastante sem o primeiro volante brasileiro, cuja principal virtude são as interceptações que ajudam a sufocar o time adversário: o Liverpool perde a bola, e lá está Fabinho, chamado de “Dyson” (um aspirador popular no Reino Unido) por Klopp, para recuperá-la e manter a equipe no ataque.

Mesmo assim, o Liverpool se vira bem, seja com Henderson ou Wijnaldum exercendo a função (o experimento com Lallana pode até acontecer de novo, mas não foi tão bem-sucedido) ou mesmo com uma mudança para um sistema que era muito frequente na temporada passada: o 4-2-3-1, geralmente com a entrada de Shaqiri no trio de meias. Vale lembrar que Fabinho foi muito pouco utilizado na primeira metade da temporada passada, e os resultados também eram excepcionais.

É verdade que a possível ausência de Wijnaldum agrava um pouco o cenário, tanto porque o holandês faz ótima temporada quanto pela restrição das opções para rodar o elenco. Mas, novamente, Klopp sempre encontra uma saída. Os problemas no meio-campo foram a deixa perfeita para o retorno ao time de Naby Keita, que ainda não havia sido 20% do que se esperava dele.

O guineense teve ótimas participações nas últimas semanas, oferecendo uma criatividade que nenhum meio-campista do elenco pode dar à equipe. Oxlade-Chamberlain é outro que aparece com mais frequência, com intensidade e as arrancadas que surpreendem sistemas defensivos adversários.

Basicamente, as lesões nesse setor tiram Klopp da zona de conforto por não poder utilizar sua formação mais confiável (Fabinho-Henderson-Wijnaldum) e limitam o rodízio, mas não há exatamente uma perda de qualidade. É, muito mais, uma mudança de características que pode até ser interessante no Mundial, pela capacidade que têm Keita e Ox de produzir algo diferente a partir do meio-campo. Até porque os jogadores mais criativos do time-base não estão nesse setor: Alexander-Arnold, Robertson e Firmino.

Escalações possíveis

Aqui é mera especulação, mas, considerando a grande probabilidade de rodízio nos jogos do Mundial e de certa preferência à partida de sábado (que pode ser a final), ficam duas sugestões de escalação para a jornada do Liverpool no Catar.

Contra o Monterrey: Alisson; Milner, Gomez, van Dijk, Robertson; Henderson, Oxlade-Chamberlain, Lallana; Shaqiri, Origi, Mané.

No sábado: Alisson; Alexander-Arnold, Gomez, van Dijk, Robertson; Henderson, Milner, Keita; Salah, Firmino, Oxlade-Chamberlain.

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Jornalista, acompanha a Premier League desde o auge da rivalidade entre Arsenal e Manchester United. Viu o número de grandes equipes aumentar e o campeonato se globalizar por meio da qualidade de um espetáculo que é ótimo até quando o jogo é ruim. Escreve aqui para registrar algumas das ideias que aparecem durante as rodadas.