Um 2020 que começa diferente na Cidade do Galo

Treino Atlético Mineiro

A temporada do Atlético em 2019 foi a pior do clube desde 2011. O escasso número de pontos conquistados no Brasileirão, o desempenho pálido, a falta de organização do time e de convicção da diretoria ditaram os rumos de um ano de marasmo. Uma vaga na Copa Libertadores chegou a se anunciar para o Galo, mas foi oportunamente suplantada pelo alívio sentido quando, ao final do nacional, o time deixou a disputa contra o descenso, salvo. Para o torcedor, um sorriso só veio ao rosto mediante o rebaixamento do grande rival. Pouco. Insuficiente. No entanto, a virada do ano tem trazido consigo motivos para otimismo, sem deslumbre, mas com confiança.

Contrariando sua própria tendência e buscando não repetir erros do passado recente, o projeto atleticano para o ano ganhou cara com a escolha do treinador, ainda que contratações já estivessem em pauta. E apesar de o acerto com o venezuelano Rafael Dudamel (o 12º estrangeiro a comandar o clube) indicar um novo e adequado caminho a percorrer também permitiu a feitura de uma crítica que não deve ser desconsiderada. Antes do acerto com o ex-comandante da Vinotinto, a equipe viveu dias de intensas tratativas com o argentino Jorge Sampaoli. Aqui, o problema não é a insuspeita qualidade do ex-chefe do Santos, mas a falta de pré-definição quanto às ideias que se pretende implantar em 2020.

Em uma simplificação tosca, mas pertinente neste contexto, o clube saiu para comprar água e acabou levando óleo. Dudamel e Sampaoli não chegam a representar extremos opostos e podem até ter posturas profissionais semelhantes, mas suas ideias de jogo são substancialmente diferentes. Ou seja: é preciso esperar de Dudamel o que ele pode oferecer. Feito o adendo, segue a boa notícia: os trabalhos recentes do contratado venezuelano sugerem adequabilidade ao que o momento alvinegro pede.

Antes de tudo o coletivo

“Todos os jogadores vão ser importantes. Sempre para mim, todos são importantes. Todos que queiram ficar no Atlético, porque em conjunto com o Rui [Costa, diretor de futebol], queremos que fiquem […] Ele [o jogador] tem que ser inteligente e pensar na equipe, não individualmente. Se o jogador não está feliz porque não joga, ele não é um jogador correto. Ele tem que pensar ‘o que tenho que fazer para contribuir para o meu clube?’”, falou Rafael Dudamel em sua entrevista coletiva de apresentação ao Galo

Compromisso com o coletivo foi uma das principais mensagens ofertadas pelo treinador em seu primeiro contato com a imprensa mineira. Em que pese o fato de que o Atlético tem em seu elenco algumas individualidades importantes, como são os casos de Juan Cazares ou do jovem Marquinhos, uma das notas cruciais de 2019 foi a sensação de que, se os jogadores de maior talento do clube tivessem tido por trás de si um coletivo sólido, teriam alcançado rendimento superior. Daí a importância do que indicou Dudamel.

Rafael Dudamel Rui Costa Atlético Mineiro

Foto: Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Aliás, essa questão deve mesmo ter vital importância no 2020 do Galo, sugerindo-se como algo inegociável para o comandante. Em 2019, o venezuelano se envolveu em polêmica com o talentoso atacante Josef Martínez. Este acabou pedindo para não ser mais convocado à Vinotinto, alegando ter sofrido abusos psicológicos. Enfático e direto, Dudamel afastou a crítica de pronto: “O que chamamos de abusos psicológicos? Se não jogar sempre é abuso psicológico, então todos os treinadores abusam […] Falar em abuso psicológico por não jogar é faltar com respeito aos companheiros”, explicou em entrevista veiculada pelo portal El Nacional.

No rescaldo da questão, o capitão da seleção venezuelana, Tomás Rincón, tomou as dores de seu comandante, relatando que não estava de acordo com a decisão de Josef, pois “a seleção nacional deve estar por cima de tudo”. Outro que já se manifestou pró-Dudamel foi o atacante Adalberto Peñaranda: “Dudamel foi como um pai para mim, desde que o conheci aos 15 anos […] Ele está em permanente contato comigo para ver como estou me sentindo”, disse o atacante ao diário AS. Os relatos indicam que, sim, o novo treinador atleticano aposta fortemente na disciplina, mas também sugere que o tratamento dispensado aos jogadores não costuma ser problemático, apesar da controvérsia envolvendo Martínez.

Do ponto de vista pessoal, Dudamel também transpareceu em sua coletiva estar encarando o desafio no Atlético como algo importante para o desenvolvimento de sua carreira, sendo recebido em um novo mercado e ampliando seus horizontes profissionais. 

De olho no bolso

O venezuelano se apresenta como um técnico cujo custo cabe no esvaziado bolso do clube (segundo o jornal O Tempo, sua comissão técnica custará aproximadamente R$ 250 mil mensais). Ele vê no alvinegro uma oportunidade importante em sua carreira; traz consigo um ideal de coletivo que não se viu no clube em 2019; e entendeu a realidade de seu contratante (algo que Sampaoli em momento algum se mostrou disposto a aceitar). O contrato de dois anos também indica uma mudança de visão da parte da diretoria. Suscita a ideia de que Dudamel terá tempo para trabalhar.

Yimmi Chará Portland Timbers

Foto: Reprodução/MLS

Bem, não é só o comando técnico que traz a impressão de que erros do passado carregaram ensinamentos. Antes de buscar contratações, o Galo tratou de enxugar sua folha salarial, escancarando a porta de saída para uma série de nomes importantes. O ídolo Léo Silva não teve seu vínculo renovado, mesma situação de Elias, Geuvânio, Uilson e Wilson. Vinícius Góes foi liberado e acertou com o Ceará. As vendas de Luan, Yimmi Chará e Alerrandro ofereceram fôlego financeiro à equipe, em que pese a existência de alguma contestação com relação à reposição. Por empréstimo, o clube ainda tenta resolver a situação de David Terans, segundo relatos, pretendido pelo Peñarol, e de Maicon Bolt, supostamente um desejo do CSA.

Para já, desembarcaram na Cidade do Galo o lateral direito Mailton, destaque do Operário na Série B (quatro gols, duas assistências, 13º jogador com mais desarmes completados e 9º com mais dribles completados), o volante Allan, ex-Fluminense (negócio feito com o auxílio de investidores), o jovem meia colombiano Dylan Borrero, de 18 anos, e o ex-palmeirense Hyoran. Exceção feita ao último, que chega por empréstimo, todos se apresentam apostas certeiras em dois sentidos: tanto do ponto de vista do futebol quanto pelo potencial de venda em caso de sucesso. Mailton e Allan são jovens e vêm de temporada excelente por suas equipes. Já Borrero é visto como um talento da seleção colombiana sub-17, que apenas começara a ser utilizado dentre os profissionais do Independiente Santa Fé antes de ser contratado. 

Allan Atlético Mineiro Rui Costa

Foto: Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Outras novidades são os retornos de empréstimo do zagueiro Gabriel e do meia Edinho, após boa temporada em Botafogo e Fortaleza, respectivamente. Sobre o que ainda falta, tem havido consenso entre setoristas do clube. 

Saber o que falta é uma virtude

Apesar das especulações a respeito do nome de Vanderlei, do Santos, para o gol, a chegada de um novo arqueiro parece condicionada à saída do jovem Cleiton, improvável neste momento, após investida do Red Bull Bragantino. A lateral direita que já contava com Guga — outro que teve saída ventilada, mas viu as especulações esfriarem — recebeu Mailton e conta com o contestado Patric. É setor fechado.

 

Por sua vez, a zaga perdeu Léo Silva e ganhou Gabriel. Em que pese o fato de nenhum dos beques disponíveis — Igor Rabello, Réver e Iago Maidana — ter passado imune às críticas nos últimos tempos, a retaguarda também não passará por reformulação. Há lógica nesse sentido: o clube planeja, gradativamente, promover os jovens Vitor Mendes, Léo Griggio e Isaque aos profissionais, todos tidos em boa conta nas categorias de base do clube. Aliás, trabalhar com jovens é outra especialidade de Dudamel, que conduziu a equipe sub-20 da Venezuela ao vice-campeonato mundial da categoria em 2017. Esse predicado vai ao encontro do caminho que o clube passou a procurar após a chegada de seu diretor de categorias de base, Júnior Chávare.

Já a lateral esquerda… Contestado, Fábio Santos ainda não vê a titularidade ameaçada. O Atlético tenta emprestar o uruguaio Lucas Hernández, de desempenho péssimo em seus primeiros seis meses em Belo Horizonte, e está próximo de anunciar o empréstimo do jovem Hulk, ao Paraná Clube. Houve conversas pela contratação de Victor Luís, do Palmeiras, e, apesar de, conforme relatos, ter havido avanços iniciais, a negociação entrou em compasso de espera. Certa é a intenção do clube de reforçar o setor.

No meio-campo residem as maiores esperanças do torcedor. Além da celebrada chegada de Allan, o jogador com mais passes completados no último Brasileirão, as performances recentes de Jair e a expectativa de retorno de Gustavo Blanco após quase dois anos de afastamento dos campos geram bons prognósticos. Além disso, é esperada a adaptação do paraguaio Ramón Martínez e o clube conseguiu a renovação do empréstimo de Nathan, junto ao Chelsea. O clube conta ainda com Zé Welison. Neste momento, trata-se, potencialmente, do setor mais forte da equipe. Como deve ser, aliás.

E o setor ofensivo?

Adiante, na criação e finalização das jogadas, é que moram as principais dúvidas. Borrero é tratado como aposta de longo prazo. Hyoran não chegou com status de titular, assim como o retornado Edinho. O talentoso Cazares vive cercado de expectativas: terá o vínculo renovado? Será negociado? Para já, nada existe de concreto. Há ainda esperanças nos nomes de Marquinhos e Bruninho e alguma projeção de que, após um retorno em baixa do futebol árabe, Rómulo Otero (ex-comandado de Dudamel na Vinotinto) cresça na equipe. Apesar disso, há aqui outro consenso na imprensa: o clube está atrás de um jogador para atuar pelos flancos e de um meia. 

Juan Cazares Atlético Mineiro

Foto: Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Também é esperada a contratação de um novo camisa 9, diante dos desempenhos insuficientes de Franco Di Santo e do veteraníssimo Ricardo Oliveira (que ainda pode sair). Deyverson, do Palmeiras, chegou a ser especulado. Ademais, os jovens Bruno Michel e Bruno Silva também devem fazer parte do elenco profissional.

O diretor de futebol do Galo, Rui Costa, já deixou claro que o elenco está quase fechado. Porém, pequenas mudanças ainda vão acontecer. Há (poucos) jogadores por chegar e sair. E existe a possibilidade de que garotos que hoje integram a equipe de transição do Atlético recebam oportunidades junto aos profissionais, como é o caso do meio-campista Guilherme Castilho. 

 

Pela primeira vez em certo tempo, o clube parece traçar um caminho — apesar da vacilação no momento de definir o perfil do treinador. Vai apostar em jovens, conta com a ajuda de investidores para contratações pontuais que cheguem com status de titular, e vê em seu treinador alguém com fome de trabalho e credenciais para fazer esse projeto andar. 

Dar certo ou não é circunstancial, como tudo no futebol. Como jogará? A forma como a seleção venezuelana atuava dá alguma ideia, mas a verdade é que ainda é impossível saber ao certo — Dudamel ainda não deu pistas. Caso não haja êxito haverá pressão? Claro. No entanto, todo trabalho deve ser pautado em convicção e não no aleatório. Parece haver lógica no caminho que vem sendo traçado. Ela não é motivo para empolgação, mas deve, sim, sugerir esperança de dias melhores para o torcedor.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.