Santa Cruz 2×3 Cruzeiro – Semifinal do Brasileirão de 1975

  • por Rogério Bibiano
  • 4 Meses atrás

Pela primeira vez no Campeonato Brasileiro da primeira divisão, um clube do Nordeste chegava entre os quatro melhores times do país

Abril de 2020 e em tempos de quarentena e de futebol escasso, em quase todo o Mundo (com exceção da Nicarágua, Bielorrússia e Burundi), Doentes por Futebol recorda um dos grandes jogos da história do Campeonato Brasileiro, quando o Santa Cruz foi o responsável por colocar um clube do Nordeste pela primeira vez, numa semifinal do Brasileirão, ante a mística equipe do Cruzeiro da metade dos anos 70.

O contexto do Campeonato Brasileiro de 1975

O Brasileirão de 1975 contou com a participação de 42 clubes, divididos em dois grupos de 10 e dois grupos com 11 equipes cada. Clubes do grupo A enfrentaram os do B e do C os do grupo D; passando os cinco primeiros colocados para a segunda fase. Ainda houve uma Repescagem, com quem não havia conquistado a classificação e que, ofertaria duas vagas para a terceira fase.

A segunda fase da competição contava com 20 times classificados diretamente da primeira fase, divididos em duas chaves com 10 clubes, classificando-se os seis primeiros colocados para a terceira fase. A terceira fase por sua vez, tinha 16 clubes; além dos 12 classificados da segunda fase, juntavam-se mais quatro times oriundos da Repescagem. As equipes foram reorganizadas em dois grupos, com oito times cada, passando os dois primeiros colocados para a semifinal, que seria disputada em jogo único. De um lado, passaram Fluminense e Cruzeiro; na outra chave, avançaram Santa Cruz e Internacional.

O jornal O Estado de São Paulo destacava os semifinalistas de 75

De um lado, o Cruzeiro, finalista do Brasileirão de 1974, com uma geração espetacular, que naquele ano de 1975, novamente iria bater na trave (perdendo a decisão para o Internacional), mas que viria no ano seguinte, conquistar a Taça Libertadores da América de 1976, num time que tinha Raul Plassmann, Nelinho, Wilson Piazza, Zé Carlos e Joãozinho.

O Esquadrão Azul de 1975

Do outro lado, a principal surpresa daquele Brasileirão, o Santa Cruz de futebol ofensivo e objetivo, com uma geração que marcou época na história do futebol nordestino e que tinha no tridente Givanildo Oliveira, Ramón e Luiz Fumanchu, os principais destaques do “Esquadrão Tricolor”.

O Santa Cruz de 1975, que encantou o Brasil

Santa Cruz 2-3 Cruzeiro: um jogaço!

Classificando em primeiro lugar no grupo B, o Tricolor do Recife, vivendo a sua melhor fase da história, teria a oportunidade de decidir em casa, no Arruda, a classificação para uma inédita final. O Cruzeiro, segundo colocado no grupo A, buscava a sua segunda final consecutiva, na então condição de atual vice-campeão brasileiro.

Naquele domingo, 7 de dezembro de 1975, os 38.118 torcedores, que se fizeram presentes no Arruda presenciaram um emocionante jogo. O Santa Cruz, com moral elevada e jogando em casa, empurrado pelo seu fanático torcedor, tomou a iniciativa do jogo; do outro lado, a equipe cruzeirense, muito experiente, controlava o ímpeto dos donos da casa.

Aos 32 minutos do primeiro tempo, o Santa abriu o placar com Luiz Fumanchu, um dos destaques daquele time, cobrando penalidade, rasteira no canto direito do goleiro Raul Plassmann, que chegou a tocar na bola, antes dessa “morrer” no fundo das redes. No forte calor do Recife, o Cruzeiro cadenciava o jogo e aos 43 minutos, Zé Carlos, em posição duvidosa, recebeu lançamento de Nelinho e tocou na saída do goleiro Jair, empatando o jogo. Este lance, até hoje é bastante contestado e lamentado pelos tricolores.

Detalhe do primeiro penal de Fumanchu, quase defendido por Raul

No segundo tempo, Palhinha, logo aos dois minutos de jogo, aproveitando erro de posicionamento do clube pernambucano, recebeu lançamento (de Piazza) em profundidade, ganhando na corrida do zagueiro Lula Pereira e chutando com força, sem chances para o goleiro Jair, colocando o clube mineiro em vantagem. O gol não abateu os donos da casa, que mantiveram o toque de bola. Aos 28 minutos, Fumanchu, novamente cobrando pênalti, dessa vez, deslocando Raul, igualou o placar, levando o Arruda ao delírio.

O jogo seguiu equilibrado, com as defesas se sobressaindo e o Cruzeiro cadenciando a partida, segurando o ímpeto do Santa. Quando tudo parecia definido, no tempo regulamentar, Palhinha recebeu belíssimo passe nas costas da defesa tricolor, que tentou, sem êxito, fazer a linha de impedimento; o camisa 7 mineiro dominou no peito, ajeitando a bola em velocidade e chutou sem chances para Jair, decretando o placar final, de um jogo cercado de polêmica e que teve o trio de arbitragem, comandados por Romualdo Arppi Filho, saindo do Arruda escoltados pela polícia.

Adiante, o Cruzeiro viria a ser derrotado pelo Internacional, em Porto Alegre (1×0), ficando novamente com o vice-campeonato nacional. Já o Santa Cruz, ficou marcado na memória dos seus torcedores e de muitos amantes do futebol, como uma equipe humilde, que jogava um futebol ofensivo e que proporcionou ótimas surpresas naquela edição do Campeonato Brasileiro, ficando com aquele sentimento que poderia ter ido mais longe ainda.

 

Diário de Pernambuco do dia seguinte ao jogo semifinal, lamentando o revés do Santa Cruz

Ficha do Jogo

Santa Cruz 2 x 3 Cruzeiro – 07/12/1975

Local: Estádio do Arruda (Recife). Árbitro: Romualdo Arppi Filho (SP) Público: 38.118 torcedores.

Gols: Fumanchu (pênalti) aos 32 e Zé Carlos aos 43 do 1º; Palhinha aos 2, Fumanchu (pênalti) aos 28 e Palhinha aos 45 minutos do 2º tempo. Cartões Amarelos: Pedrinho e Carlos Alberto Rodrigues; Vanderlei e Palhinha.

Santa Cruz: Jair; Carlos Alberto Barbosa, Lula, Levir Culpi e Pedrinho; Givanildo, Carlos Alberto e Alfredo (Volnei); Fumanchu, Ramón e Pio. Técnico: Paulo Emílio

Cruzeiro: Raul; Nelinho, Morais, Darci Menezes e Vanderlei; Piazza, Zé Carlos e Eduardo Amorim (Isidoro); Roberto Batata, Palhinha e Joãozinho. Técnico: Zezé Moreira

Comentários

Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.