J.League: do “rei” Kazu a Iniesta e vice-versa, uma história!

  • por Rogério Bibiano
  • 1 month atrás

De Kazu a Zico, Lineker, Wenger, Stojkovic, Postecoglou, Iniesta e … de volta a Kazu

Kazuyoshi Miura, aos 53 anos de idade é um exemplo raro na história do futebol moderno, quiçá único, uma unanimidade no Japão. Quando a J-League começou em 1993, ele era a estrela japonesa incontestável da recém criada liga, que o futuro mostrou, tornou-se uma das principais da Ásia.

Lenda viva em campos nipônicos, Kazu, aos 53 anos, segue jogando (Foto: Masashi Hara)

Vinte e sete anos após o início a J-League, com todos os percalços e dúvidas que se esperava no Japão dos anos 90 seguem uma trajetória de sucesso. Do primeiro título da J-League, com o Verdy Kawasaki (atual Tokyo Verdy), onde Kazu literalmente conquistou todos os títulos na terra do sol nascente escrevendo seu nome na história do clube; até o Yokohama FC, onde joga desde 2005 (após passagem por empréstimo no Sydney F.C.) um clube que não existia quando a J-League começou, o lendário camisa 11 permanece na ativa.

Após “peregrinar” pelo Brasil, Kazu retornou para se tornar um dos grandes nomes da J-League (Foto: Asahi Shimbun)

Como a J-League foi criada!

A J-League foi uma criação do secretário-geral da JFA, Saburo Kawabuchi, que ficou encantado com a organização do futebol na Europa, principalmente na Alemanha, depois de visitar um campo de treinamento antes das Olimpíadas de 1964.

Até Kawabuchi aparecer com sua ideia revolucionária para a J-League, o futebol japonês era como o resto do esporte japonês, formado por times corporativos. A Liga de Futebol do Japão era composta por equipes representando algumas das maiores empresas do Japão – Hitachi, Mitsubishi, Nissan, Yamaha, Furukawa Electric (que Kawabuchi jogou) e assim por diante.

Inspirado na Bundesliga, Saburo Kawabuchi pode ser considerado o pai da J-League (Foto: Asahi Shimbun)

Kawabuchi, no entanto, imaginou um futuro diferente para o jogo no Japão, baseado no modelo comunitário que ele testemunhou em primeira mão na Alemanha. Ele queria que as equipes representassem suas comunidades, não as corporações.

“A J-League é uma revolução social, é diferente de apenas tornar o Japão bom no futebol” – Saburo Kawabuchi a Sebastian Moffett para o Japanese Rules (livro que detalha a história do futebol no Japão)

“Os japoneses não haviam experimentado esse tipo de clube esportivo comunitário, porque as pessoas não sabiam sobre eles. As principais pessoas do governo e da indústria estavam no exterior e sabiam como eram bons os clubes esportivos, mas não pensavam em instalá-los no Japão”.

Mas o que Kawabuchi encontrou foi um apetite por esse outro mundo, onde os fãs japoneses, viciados em trabalho, podiam entrar no estádio e ser transportados para outro mundo. Foi uma fuga das realidades da vida cotidiana.

Mais de 300.000 pessoas solicitaram ingressos para o jogo de abertura entre Verdy Kawasaki e Yokohama Marinos. Pouco menos de 60.000 deles tiveram a sorte de estar dentro do Estádio Nacional de Tóquio, em 15 de maio de 1993, quando a J-League começou, numa festa memorável.

As empresas ainda eram donas das equipes e ainda são, mas desapareceram os nomes corporativos. Mitsubishi Motors se tornou o Urawa Red Diamonds, a Nissan Motors se tornou o Yokohama Marinos, a Mazda SC se tornou o Sanfrecce Hiroshima, enquanto a Sumitomo Metal Industries se tornou o Kashima Antlers.

A primeira fase dos grandes nomes da J-League

Com o advento do profissionalismo, veio uma série de grandes estrelas, na reta final de suas carreiras, tentadas sem dúvida, pelo dinheiro, exemplar organização e a qualidade de vida existente no Japão. A estratégia era clara:  sempre ter um grande nome da história do futebol, visando claro, chamar os torcedores aos estádios.

Zico (Kashima Antlers), Dragan Stojkovic e Gary Lineker (ambos Nagoya Grampus), Pierre Litbarski (JEF United), César Sampaio (Yokohama Flügels, Kashiwa Reysol e Sanfrecce Hiroshima), Daniele Massaro (Shimizu S-Pulse), além de Dunga e Salvatore Schillaci (ambos Jubilo Iwata), incluindo também, um até então desconhecido Arsene Wenger, que passou 14 meses entre julho de 1995 a setembro de 1996, no Nagoya Grampus, antes de rumar para a Inglaterra e fazer história no Arsenal.

Até hoje, Zico permanece reverenciado em Kashima por ingressar no clube de uma cidade tão pequena, que quase não tinha o direito de competir com os times das grandes cidades e transformá-lo em uma potência japonesa e no clube profissional mais bem-sucedido com oito títulos da J-League. Um jogo do Antlers, no Kashima Soccer Stadium é sempre cercado de inúmeras homenagens a Zico (atualmente diretor técnico do clube), com inúmeras faixas em respeito a lenda brasileira.

A passagem de Zico pelo Kashima Antlers é o exemplo de um “casamento” bem sucedido (Foto: Masashi Hara)

Stojkovic, um dos melhores jogadores da Iugoslávia (Sérvia), passou sete anos em Nagoya entre 1994 e 2001, escrevendo seu nome na história da competição, antes de voltar para comandar o clube em 2008, guiando o Nagoya Grampus ao seu único título da J-League em 2010.

Depois de brilhar em campo, Dragan Stojkovic comandou o Nagoya Grampus ao seu único título japonês (Foto: Kaz Photography)

Do êxtase inicial a fase de contração

Como todas as ligas iniciantes, houve um cenário de expansão e contração que pode ser atribuído ao agravamento da situação econômica no Japão, à medida que a década de 1990 avançava. Dos dez clubes de 1993, a liga cresceu rapidamente e em 1998 incorporou 18 equipes. Mas a popularidade estava diminuindo e a média de público caiu de mais de 19.000 em 1994 para pouco mais de 10.000 em 1997.

Em 1997, a média de público caiu, surgindo “clarões” nos estádios, como nesse Yokohama Marinos x Cerezo Osaka (Foto: Asahi Shimbun)

A J-League se preparou para essa queda de público, incentivando a criação de clubes profissionais, oferecendo aporte administrativo, criando um ecossistema de futebol adequado, visto em grandes ligas de sucesso no Mundo.

Além de incentivar os clubes a se envolverem mais em suas comunidades locais para obter apoio necessário a enfrentar futuras crises. A liga deu um passo aparentemente drástico de introduzir uma segunda divisão de dez equipes, percebendo que a estrutura precisava crescer se quisesse fazer jus ao seu potencial.

A expansão da J-League

Enquanto a J1 (primeira divisão) permaneceu estável em 16 equipes, até crescer novamente para 18 em 2005, a J2 (segunda divisão) continuou expandindo, chegando a 22 equipes em 2013, o que provocou a próxima fase do crescimento da liga, com a introdução da J3 (terceira divisão) de 12 equipes em 2014.

No espaço de 15 anos, a liga cresceu de 18 clubes e uma divisão, para três divisões e 51 clubes (um time na J3 era a Seleção do Japão Sub-22 projetada para preparar os jogadores para as Olimpíadas de 2016).

Tradicional clube, o Kashiwa Reysol conquistou a temporada 2019 da J2 e em 2020 disputa a J1 (Foto: Masashi Hara)

Porém, houve baixas ao longo do caminho, mas elas criaram oportunidades para dar vida à visão de Kawabuchi para o futebol no Japão.

No final de 1998, o Yokohama Flügels foi forçado a se fundir com a Yokohama Marinos, depois que um de seus principais patrocinadores desligou-se, levando à criação do Yokohama F. Marinos, com o ‘F’ sendo uma referência aos Flügels e seu papel na entidade resultante da fusão.

Os torcedores do Flügels viram isso de maneira diferente, como mais aquisição do que fusão e se uniram para criar um novo clube: Yokohama FC; destacando o quão longe o futebol japonês chegou em poucos anos. A visão de Kawabuchi de equipes pertencentes a comunidades e não a empresas realmente ganhou vida com o Yokohama FC.

O Yokohama FC nasceu fruto do descontentamento dos torcedores com o fim do Flügels (Foto: Hiroki Watanabe)

A segunda fase dos grandes nomes da J-League

Um aporte de investimentos nas últimas temporadas viu outra onda de estrelas internacionais olharem para o Japão como um destino de escolha. Diego Forlán (Cerezo Osaka) foi o primeiro em 2014, enquanto Fernando Torres também se juntou a Sagan Tosu em 2018, mas mais recentemente foi Vissel Kobe que esteve na vanguarda do movimento.

O astro uruguaio Diego Forlán, na ocasião da sua apresentação no Cerezo Osaka (Foto: Koji Watanabe)

Longe de ser um gigante da J-League (o melhor lugar do Kobe na liga foi o sétimo lugar em 2016), mas nos últimos dois anos, apoiado pelo fundador e CEO do bilionário grupo Rakuten (Hiroshi Mikitani), o Vissel Kobe se tornou a versão japonesa dos Galácticos. Andrés Iniesta, Lukas Podolski, David Villa e Thomas Vermaelen chegaram ao clube, que também contratou os japoneses Hotaru Yamaguchi e Gōtoku Sakai.

Podolski, Villa e Iniesta, o Vissel Kobe agora têm os “Galáticos” do Japão (Foto: Masashi Hara)

Vencedor das duas últimas edições da Copa do Imperador, o Vissel Kobe bateu o recorde de lucros na liga japonesa, graças a um aumento de patrocínios e venda de ingressos. No ano fiscal de 2019 (que terminou em 31 de março), o Kobe registrou lucros de cerca de 96 milhões de Euros, tornando-se o primeiro clube da J-League a passar a barreira dos 85 milhões de Euros, segundo um estudo da liga.

Hiroshi Mikitani, com o troféu da Copa do Imperador e seus “pupilos” do Vissel Kobe (Foto: Masashi Hara)

O ótimo balanço financeiro de 2019 superou os cerca de 81 milhões de Euros que o Vissel Kobe, já recordista de lucros, alcançará em 2018. Os números do chamado “efeito Iniesta refletem muito bem, a visão dos investidores da J-League em relação à estratégia de contratações.

Andrés Iniesta mantém a tradição de grandes e carismáticas contratações (Foto: Masashi Hara)

O afluxo recente de estrelas internacionais viu o campeonato crescer novamente, com a média de público crescendo todos os anos desde 2013, de 17.226 para o recorde de 20.751 da última temporada, o maior da história da liga e a primeira vez que alcançou a marca de 20.000 torcedores.

Na temporada de 2019, a J-League viu um novo recorde de média de público em seus estádios (Foto: Junko Kimura)

A J-League não está apenas firmemente enraizada na sociedade e cultura japonesa, mas é amplamente considerada como a liga mais destacada na Ásia, e com uma popularidade crescente em todo o continente, especialmente no Sudeste Asiático, graças a estrelas como o trio tailandês Chanathip Songkrasin, Theerathon Bunmathan e Teerasil Dangda, numa outra “jogada de mestre” da J-League.

Songkrasin (8), Bunmathan (18) e Dangda (10); tailandeses ajudam na popularização da J-League (Foto: Zhizhao Wu)

“Agora há uma segunda divisão e 40 clubes profissionais e no próximo ano haverá uma J3. Eu não esperava isso há 20 anos. Eu nem tinha certeza se alguma vez haveria uma segunda divisão ” –  Saburo Kawabuchi ao Japan Times em 2013, refletindo os primeiros 20 anos da liga.

Kawabuchi, agora com 83 anos, pode sentar-se, sorrir e admirar o quão longe a J-League chegou. Mas, apesar de tudo, das inúmeras mudanças, uma coisa permanece a mesma: Kazu ainda está jogando!

Exemplo de organização e competência, a J-League é modelo a ser seguido (Foto: Etsuo Hara)

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.