
O pai foi goleiro nas companhias em que trabalhou, assim como o bisavô. A mãe defendia as traves de equipes de handebol na época da adolescência. O irmão mais velho, Muriel, foi o primeiro da família a virar profissional e ter passagens por grandes clubes brasileiros.
Com esse histórico, seria praticamente impossível Alisson Becker escolher outro caminho a seguir. Como uma herança familiar, o gaúcho nascido em Novo Hamburgo foi parar dentro dos campos não apenas por influência do irmão, mas por ser o mais novo nas peladas disputadas com ele e os amigos.
– Era uma cama para o Muriel em cima, e outra para mim, embaixo. Nosso apartamento era muito pequeno, então usávamos a cama como gol e ficávamos chutando, cruzando e fazendo brincadeiras. Vinham muitas reclamações dos vizinhos. Até derrubamos um lustre da vizinha de baixo. Por ter as amizades do meu irmão, eu era o menorzinho, sempre ficava no gol. Foi aí que começou.
Ele contou essa história em novembro de 2014, em entrevista ao GLOBO ESPORTE, quando havia acabado de assumir a titularidade no gol do Internacional. Bem antes de ganhar a vaga, porém, o goleiro precisou enfrentar outros adversários. Um deles em especial, que não dava trégua: a balança.
Até os 15 anos Alisson travou uma batalha contra o peso, culpa da genética (porque não crescia) e da compulsão por comida, fase que foi difícil para o jogador.
– Ele chorava direto por causa do problema com a balança. Algumas vezes ele voltava dos treinos chorando, contou o tio Leandro.
A avó, Antônia, precisou esconder chocolates dele nas férias que passava na casa dela.
– Eu demorei para dar esse “estirão”. Aos 15 anos, começou a equilibrar, aí cresci 17 centímetros em um ano, fiquei mais magro e hoje não tenho esse problema. Dá para comer qualquer coisa tranquilo – contou na época dessa entrevista ao GLOBO ESPORTE.
Sombra do irmão e disputa com o Dida
Alisson chegou ao time principal do Internacional em 2013 como reserva do próprio Muriel. Em 2014, o obstáculo era ainda maior: o Internacional tinha contratado Dida, um dos maiores goleiros da história do Brasil, com três Copas do Mundo e uma Champions League no currículo.
Mas no fim daquele ano, com o experiente goleiro Colorado sofrendo com críticas pelo desempenho abaixo do esperado, Abel Braga colocou o garoto de 21 anos no gol. Alisson não saiu mais. Conquistou quatro Campeonatos Gaúchos seguidos antes de partir para a Europa, em 2016. O destino seria a capital italiana.
Roma: reserva a semifinalista da Champions em dois anos
A Roma pagou 7,5 milhões de euros pelo goleiro. No primeiro ano de clube, foi reserva do polonês Wojciech Szczęsny. Quando o titular saiu para a Juventus, Alisson assumiu o gol e fez uma temporada que mudou para sempre o curso da sua carreira: 22 jogos sem sofrer gols, sendo 17 pela Série A.
Naquela temporada, os Lobos chegaram às semifinais da Champions League, quando foram eliminados pelo Liverpool numa série que terminou com placar agregado de 7-6 para os ingleses.
Apesar da eliminação, Alisson foi destaque nos dois confrontos, especialmente em Roma, e chamou atenção do técnico dos Reds, Jurgen Klopp, que foi à loucura com as defesas do brasileiro. Meses depois, o alemão foi ao mercado e contratou o goleiro brasileiro.
Liverpool: recorde, títulos e idolatria
Em julho de 2018, o Liverpool pagou 62,5 milhões de euros e fez dele o goleiro mais caro da história naquele momento. O número causou estranheza em parte da imprensa, mas Alisson respondeu dentro de campo, e bem rapidamente.
Na primeira temporada, foi eleito o melhor goleiro da Premier League, com 21 jogos sem sofrer gols. Também conquistou a Champions League em Madrid, com 8 defesas cruciais na final contra o Tottenham.
No ano seguinte, fez história novamente ao vencer a Premier League, que o Liverpool não ganhava há 30 anos. Mas o momento mais lembrado de toda a passagem por Anfield talvez não tenha sido nenhuma das defesas ou títulos. Foi um gol.
Em 16 de maio de 2021, com o Liverpool precisava vencer o West Bromwich para manter chances de vaga na Champions. Com o placar em 1 a 1 aos 95 minutos de jogo, o goleiro foi até a área adversária para uma cobrança de escanteio. Na batida de Arnold, Alisson subiu na primeira trave e cabeceou para o fundo da rede.
Era o primeiro gol de um goleiro em 129 anos de história do Liverpool. Depois da partida, muito emocionado, ele falou sobre o que havia pensado naquele momento:
– O gol é algo fantástico, uma sensação indescritível. Naquele momento, só consegui pensar no meu pai, que nos deixou neste ano. Sei que ele está extremamente feliz e orgulhoso. Infelizmente, ele não está aqui com a gente para celebrar este momento, mas sem ele nas nossas vidas, nada do que aconteceu comigo seria possível. É para você, pai.
José Agostinho Becker morreu afogado em 24 de fevereiro de 2021, numa barragem na propriedade da família em Lavras do Sul, no Rio Grande do Sul. Tinha 57 anos. Alisson foi liberado pelo Liverpool para estar com a família e voltou a jogar semanas depois.
Na Seleção: de reserva de Cássio a titular absoluto
Na Copa de 2018, Alisson e Cássio brigaram pela titularidade, que ficou com o goleiro do Liverpool. Titular nas cinco partidas até a eliminação para a Bélgica nas quartas. Em 2019, foi peça fundamental na conquista da Copa América em casa: disputou seis jogos, sofreu apenas um gol em toda a competição e foi eleito o melhor goleiro do torneio.
Na Copa de 2022 no Qatar, foi titular nas cinco partidas que o Brasil jogou, com exceção do jogo contra Camarões, em que a Seleção já estava classificada e rodou o time. Nas quartas-de-final, a polêmica. Houve muitos debates sobre o gol croata marcado no fim da prorrogação, que levaria aos pênaltis e a consequente eliminação da Seleção.
Para muitos analistas e torcedores, Alisson falhou, mesmo com o desvio do chute em Marquinhos. Embora esteja sempre em grande nível no Liverpool, o camisa 1 nunca caiu totalmente nas graças do torcedor brasileiro.
A Copa de 2026
Em contrato com o Liverpool até 2027, Alisson chega à sua terceira Copa com 33 anos e titular absoluto. Embora esteja sem jogar desde março por uma lesão muscular, o momento dos concorrentes à meta da Amarelinha não dá margem para questionar a presença do goleiro na estreia.
A grande questão é a forma física. Na primeira partida da Copa, Alisson estará 3 meses sem atuar. Para um jogador dessa posição, o ritmo de jogo pode pesar mais do que para os atletas de linha. O tempo de preparação e o nível dos adversários na fase de grupos vão ser aliados nesse recomeço.
Se no início da trajetória a luta foi contra a balança e depois contra renomados goleiros para conquistar espaço, agora Alisson vai ter que encarar pouco tempo de recuperação e os melhores atacantes do mundo para garantir seu lugar na história do Brasil, como já garantiu com a torcida dos Reds.