
O primeiro jogo da Seleção Brasileira depois da Copa do Mundo de 2026 terminou com um resultado que expôs alguns dos problemas que Carlo Ancelotti terá de enfrentar no início do novo ciclo. O Brasil empatou por 1 a 1 com a Austrália nesta sexta-feira, em Townsville, depois de sair atrás no segundo tempo e encontrar o gol de empate apenas aos 49 minutos, com Rayan. O amistoso marcou a estreia de uma equipe bastante renovada, mas também mostrou dificuldades semelhantes às que acompanharam a Seleção nos últimos anos, principalmente na criação pelo meio-campo.
Ancelotti começou com Hugo Souza; Matheuzinho, Marquinhos, Vitor Reis e Douglas Santos; Danilo Santos e Bruno Guimarães; Estêvão, Raphinha, Vinicius Júnior e Endrick. A escalação tinha quatro jogadores de características ofensivas e, no papel, oferecia muitas possibilidades de velocidade e movimentação. Na prática, porém, o Brasil passou boa parte do primeiro tempo com dificuldades para aproximar os setores e construir jogadas de maneira organizada.
A Austrália começou melhor, pressionou a saída de bola brasileira e conseguiu permanecer no campo de ataque durante os minutos iniciais. O Brasil só passou a encontrar algum espaço depois que Raphinha recuou para participar mais da criação e Estêvão conseguiu receber com maior frequência pelo lado direito. Mesmo assim, a equipe terminou a partida com apenas sete finalizações, contra seis dos australianos, apesar de ter 56% da posse de bola.
Quatro atacantes não resolveram a falta de criação
A escalação com Vinicius Júnior, Estêvão, Raphinha e Endrick naturalmente aumentou a expectativa em torno do ataque. O problema foi que a presença de mais jogadores ofensivos não significou, necessariamente, uma equipe capaz de criar mais oportunidades.
Com Bruno Guimarães e Danilo Santos praticamente sozinhos na faixa central, o Brasil teve dificuldade para estabelecer uma sequência de passes que aproximasse defesa, meio e ataque. Muitas jogadas começaram com lançamentos mais longos ou tentativas de acelerar diretamente pelos lados. Quando isso não funcionou, Endrick ficou isolado entre os defensores australianos e Vini e Estêvão precisaram receber a bola longe da área.
O problema ajuda a explicar uma preocupação que o próprio Ancelotti já havia manifestado antes do início deste ciclo. Depois da eliminação na Copa, o treinador afirmou que uma das prioridades seria encontrar novos meio-campistas capazes de elevar a qualidade da posse e da construção brasileira. O amistoso em Townsville reforçou essa necessidade, porque o Brasil mostrou novamente dificuldade para controlar uma partida quando não encontra espaços para atacar rapidamente.
Raphinha tentou reduzir esse problema ao se movimentar para regiões mais centrais. Foi justamente quando o jogador do Barcelona passou a recuar que o Brasil conseguiu trocar passes com mais naturalidade e criar algumas de suas melhores situações. A atuação também mostrou que sua utilização por dentro pode ser uma alternativa importante para Ancelotti, mas depender constantemente desse movimento significa retirar um atacante de uma zona mais próxima do gol para corrigir uma carência estrutural do meio.
Estêvão deixa uma das melhores impressões entre os titulares
Estêvão foi um dos jogadores que mais conseguiu gerar perigo. Depois de um início difícil, passou a participar mais pelo lado direito e chegou a marcar no fim do primeiro tempo. O gol foi anulado pelo VAR por uma falta de Bruno Guimarães em Harry Souttar no começo da jogada.
No segundo tempo, o atacante voltou a aparecer em boas situações, cortando para o meio e participando de combinações com Raphinha. Foi uma atuação que não resolveu os problemas coletivos da Seleção, mas mostrou por que Ancelotti pretende dar oportunidades ao jovem mesmo em um momento no qual ele ainda busca maior sequência no Chelsea.
O desempenho de Estêvão também ganha importância pelo contexto deste novo ciclo. A convocação para os amistosos contra Austrália e Índia teve apenas nove jogadores que participaram da última Copa e foi montada justamente para ampliar as opções pensando em 2030. O atacante é um dos nomes que podem atravessar todo esse processo de renovação e chegar ao próximo Mundial em idade de protagonismo.
Endrick participou pouco e sofreu com o isolamento
Endrick teve uma partida discreta, mas sua atuação não pode ser analisada apenas pelo número de ações individuais. Durante boa parte do jogo, o centroavante recebeu poucas bolas em condições favoráveis e precisou disputar lançamentos contra uma defesa fisicamente forte.
Harry Souttar, de 1,98 metro, conseguiu controlar boa parte das bolas aéreas e dos duelos diretos. Sem um meio-campo capaz de colocar o atacante de frente para o gol com frequência, o Brasil pouco aproveitou a mobilidade de Endrick e acabou facilitando o trabalho da defesa australiana.
A situação ajuda a levantar uma questão importante para Ancelotti. Endrick é um jogador que pode atacar profundidade, finalizar rapidamente e pressionar a saída adversária, mas precisa receber a bola em condições que favoreçam essas características. Se o Brasil continuar recorrendo a ligações diretas quando encontra dificuldades na construção, o centroavante corre o risco de aparecer pouco independentemente de quem ocupe a posição.
Vini Jr. voltou a ter uma atuação abaixo do esperado
Vinicius Júnior também foi um dos jogadores mais criticados após o amistoso. O atacante tentou algumas arrancadas e jogadas individuais pela esquerda, mas errou boa parte das decisões e teve pouca participação nas melhores oportunidades brasileiras. Foi substituído por Samuel Lino durante o segundo tempo. UOL
A atuação chama atenção porque Ancelotti considera Vini uma das referências do grupo que permanece para o próximo ciclo. Ao contrário de vários jogadores mais jovens que ainda estão buscando espaço, o atacante do Real Madrid chega a esta etapa da Seleção com experiência de duas Copas e condição de protagonista.
Isso não significa que um amistoso deva servir para definir seu papel nos próximos anos. O próprio contexto do jogo foi desfavorável, com pouca construção pelo meio e um gramado que dificultou conduções e mudanças rápidas de direção. Ainda assim, o desempenho aumenta a expectativa para o segundo confronto contra os australianos, quando Ancelotti poderá testar diferentes companhias ou uma estrutura ofensiva menos carregada.
O gol da Austrália abriu debate sobre Hugo Souza
A Austrália abriu o placar aos 22 minutos do segundo tempo com Nestory Irankunda. O jovem atacante cobrou falta por cima da barreira e colocou a bola no canto de Hugo Souza, que praticamente acompanhou a trajetória sem conseguir reagir.
O lance provocou discussão sobre o posicionamento do goleiro brasileiro, especialmente por se tratar de uma das primeiras oportunidades de Hugo como titular neste processo de renovação. Ao mesmo tempo, a cobrança foi executada com muita qualidade e fez uma trajetória difícil de alcançar.
Por isso, o gol não parece suficiente para transformar Hugo em um dos principais problemas da partida. O goleiro havia feito boas intervenções no primeiro tempo, inclusive em uma finalização do próprio Irankunda, quando a Austrália começou pressionando. O mais importante para a comissão técnica será avaliar a atuação completa e observar como os goleiros convocados respondem durante os próximos jogos.
E ai, dava pra pegar? pic.twitter.com/nrgRLowmln
— Doentes por Futebol ⚽ (@DoentesPFutebol) September 25, 2026
Rayan aproveitou a oportunidade e evitou a derrota
Quando o Brasil já parecia caminhar para uma derrota, Rayan apareceu no último lance. Raphinha cobrou escanteio, o atacante ganhou pelo alto e cabeceou. A bola ainda tocou no goleiro Patrick Beach e no travessão antes de entrar.
O gol não transforma a atuação brasileira em positiva, mas oferece a Ancelotti outra informação importante dentro da proposta destes amistosos: os jogadores que entram também estão sendo avaliados. Rayan substituiu Estêvão e conseguiu aproveitar uma das poucas oportunidades claras que teve.
Para um técnico que declarou estar interessado em ampliar o grupo e acompanhar jogadores jovens, esse tipo de resposta tem valor. O Brasil ainda tem mais dois compromissos nesta Data Fifa, e a tendência é de muitas mudanças na escalação para que outros convocados também recebam minutos.
OI
BOA NOITETEVE GOL DO RAYAN HOJE!#SeleçãoBrasileira #FutebolNaGlobo #SeleçãoBrasileiraNaGlobo #AUSxBRA pic.twitter.com/6WRhSQxnvw
— TV Globo (@tvglobo) September 25, 2026
A Austrália não foi apenas um adversário esperando o Brasil errar
O empate também precisa ser analisado pelo desempenho australiano. A equipe de Tony Popovic entrou em campo disposta a pressionar, dificultou a saída brasileira e demonstrou uma organização defensiva capaz de limitar o quarteto ofensivo de Ancelotti.
Harry Souttar foi importante nos duelos pelo alto e na marcação de Endrick, enquanto Irankunda ofereceu velocidade e capacidade de finalização. A seleção australiana também soube alternar momentos de pressão com períodos em bloco mais baixo, esperando oportunidades para acelerar depois das recuperações.
O resultado é relevante para uma Austrália que também vive renovação. Popovic aproveita os amistosos contra o Brasil para observar jogadores mais jovens e ampliar o elenco antes da Copa da Ásia de 2027. O fato de ter ficado a poucos segundos de vencer o Brasil reforça a avaliação positiva da atuação dos donos da casa, mesmo que o empate tenha provocado frustração pelo momento em que aconteceu.
Gramado ruim e preparação curta contribuem, mas não podem ser desculpa
O estado do gramado do Queensland Country Bank Stadium foi um problema durante toda a partida. Placas de grama se soltavam com frequência e as áreas apresentavam condições ainda piores, dificultando conduções, passes rápidos e mudanças de direção.
A preparação brasileira também teve limitações. Os jogadores chegaram à Austrália depois de viagens longas partindo de diferentes continentes, e a comissão técnica teve pouco tempo para trabalhar o time completo. Para uma equipe com dois estreantes entre os titulares e uma estrutura ofensiva que praticamente não havia jogado junta, seria pouco realista esperar movimentos totalmente ajustados.
Essas circunstâncias ajudam a contextualizar a atuação, mas não eliminam as questões que apareceram. Mesmo em condições ruins, o Brasil teve dificuldade para produzir contra uma seleção que não possui a mesma qualidade individual e terminou a partida dependendo de uma bola parada no último lance para evitar a derrota.
O segundo jogo já oferece a primeira oportunidade de resposta
Brasil e Austrália voltarão a se enfrentar na terça-feira, desta vez em Brisbane. A proximidade entre as partidas permite a Ancelotti trabalhar diretamente sobre os problemas vistos em Townsville, sem precisar esperar outra Data Fifa.
Será interessante observar principalmente o meio-campo. A entrada de um terceiro jogador no setor poderia dar mais controle e aproximar os atacantes, enquanto a manutenção do 4-2-4 mostraria que o treinador ainda quer testar esse desenho com ajustes de movimentação.
Também haverá expectativa por mudanças individuais. Endrick e Estêvão estão sendo avaliados dentro de um processo de longo prazo, Vini precisa aumentar sua participação, e jogadores como Rayan, Pedro, Samuel Lino, Douglas Luiz e outros reservas podem receber mais tempo desde o início.
O empate por 1 a 1 não permite conclusões definitivas sobre uma Seleção que está apenas começando um ciclo de quatro anos. Ele, porém, apresentou questões bastante claras para Ancelotti. A renovação trouxe novos nomes e aumentou as opções ofensivas, mas o Brasil ainda precisa encontrar uma maneira de conectar essas peças, controlar melhor o meio-campo e transformar posse de bola em oportunidades mais frequentes. O segundo encontro com a Austrália será o primeiro teste para saber quais ajustes o treinador pretende fazer a partir dessas dificuldades.