
Cristiano Ronaldo anunciou nesta quinta-feira (5) que encerrará sua trajetória pela seleção portuguesa após a Data Fifa de novembro. Aos 41 anos, o atacante decidiu colocar fim a uma relação de 23 anos com a equipe nacional, iniciada em agosto de 2003, quando ainda era um jovem jogador do Manchester United. A despedida acontecerá depois dos próximos compromissos de Portugal pela Liga das Nações, encerrando uma das carreiras internacionais mais longas e vitoriosas da história do futebol.
O anúncio foi feito por meio de uma publicação nas redes sociais, acompanhada de uma mensagem de agradecimento aos torcedores, companheiros, treinadores e profissionais que participaram de sua trajetória. Cristiano afirmou que chegou o momento de entregar a camisa 7 às próximas gerações, reconhecendo a dificuldade de tomar uma decisão que envolve grande parte de sua vida profissional. O atacante também destacou o orgulho de representar Portugal e a importância da relação construída com o país durante mais de duas décadas.
A despedida acontece com números que dificilmente serão igualados em pouco tempo. Cristiano soma 234 partidas e 146 gols pela seleção portuguesa, sendo o recordista de jogos e gols no futebol masculino internacional. Além das marcas individuais, participou diretamente das três maiores conquistas da história de Portugal: a Eurocopa de 2016 e as Ligas das Nações de 2019 e 2025. O atacante também disputou seis Copas do Mundo, feito alcançado por um grupo extremamente restrito de jogadores.
O comunicado encerra uma discussão que ganhou força após a Copa do Mundo de 2026. Eliminado pela Espanha nas oitavas de final, Portugal deixou a competição sem alcançar o título que Cristiano perseguia desde sua primeira participação, em 2006. Na ocasião, o jogador confirmou que aquele havia sido seu último Mundial, mas preferiu não decidir imediatamente sobre sua continuidade na seleção. Quatro meses depois, estabeleceu o encerramento definitivo de sua passagem pela equipe nacional.
De promessa portuguesa a maior artilheiro da história das seleções
A história de Cristiano Ronaldo com Portugal começou em 20 de agosto de 2003, quando estreou aos 18 anos em um amistoso contra o Cazaquistão. Naquele momento, a seleção portuguesa ainda contava com nomes importantes da geração anterior, como Luís Figo e Rui Costa, enquanto o jovem atacante começava a construir uma carreira que o levaria aos principais clubes da Europa.
Sua primeira grande competição internacional aconteceu no ano seguinte, na Eurocopa de 2004, disputada em Portugal. Cristiano marcou seu primeiro gol pela seleção na derrota por 2 a 1 para a Grécia, na partida de abertura, e voltou a balançar as redes na semifinal contra os Países Baixos. A campanha terminou com o vice-campeonato, depois de outra derrota diante dos gregos, desta vez na decisão, em Lisboa.
Aquela final representou uma das primeiras grandes frustrações de sua carreira internacional. Portugal havia chegado à decisão diante de sua torcida, mas não conseguiu conquistar o primeiro título importante de sua história. Cristiano ainda estava no início da trajetória, embora já demonstrasse características que seriam desenvolvidas nos anos seguintes, especialmente a velocidade, a capacidade de atuar pelos lados do campo e a participação nas jogadas ofensivas.
Na Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, o atacante integrou uma seleção que chegou às semifinais, sua melhor campanha mundialista até então desde 1966. Portugal terminou na quarta colocação, depois de ser eliminado pela França e perder a disputa do terceiro lugar para a Alemanha. O torneio representou a consolidação de Cristiano entre os principais jogadores da equipe, que passou a ter nele uma de suas referências nos anos seguintes.
A transformação esportiva acompanhou sua evolução nos clubes. Durante suas passagens por Manchester United, Real Madrid e Juventus, Cristiano desenvolveu um estilo de jogo cada vez mais direcionado à finalização. O jogador que havia começado como ponta, valorizando dribles e jogadas individuais, tornou-se um atacante capaz de atuar em diferentes regiões do campo e manter uma produção de gols extremamente elevada.
Essa evolução também apareceu na seleção portuguesa. Cristiano assumiu a braçadeira de capitão, passou a ser a principal referência ofensiva da equipe e acumulou marcas importantes em competições internacionais. Em 2013, por exemplo, marcou três gols contra a Suécia na partida decisiva da repescagem para a Copa do Mundo de 2014, conduzindo Portugal à classificação depois de um confronto que colocou frente a frente dois dos principais atacantes daquele período, Cristiano e Zlatan Ibrahimović.
Apesar dos números individuais, os títulos demoraram a chegar. Portugal disputava regularmente as principais competições, mas encontrava dificuldades para superar adversários nas fases finais. A seleção alcançou a semifinal da Eurocopa de 2012, quando foi eliminada pela Espanha nos pênaltis, e caiu ainda na fase de grupos da Copa do Mundo de 2014. Cristiano continuava acumulando gols e recordes, mas a conquista de um grande troféu pela seleção permanecia como uma das principais ausências de sua carreira.
A situação mudou em 2016, quando Portugal conquistou a Eurocopa na França. A campanha da equipe comandada por Fernando Santos foi marcada por partidas equilibradas e classificações difíceis, incluindo uma semifinal contra o País de Gales na qual Cristiano marcou um dos gols da vitória por 2 a 0. Na decisão, diante dos franceses, o atacante sofreu uma lesão no joelho ainda no primeiro tempo e precisou deixar o campo.
Mesmo sem conseguir permanecer em campo, Cristiano acompanhou o restante da partida próximo à área técnica, incentivando seus companheiros. Portugal venceu por 1 a 0 na prorrogação, com gol de Éder, e conquistou o primeiro grande título de sua história. A imagem do capitão levantando a taça tornou-se uma das mais importantes de sua trajetória pela seleção, encerrando uma espera que havia começado com a derrota na final da Eurocopa de 2004.
O título também modificou a maneira como a geração de Cristiano passou a ser avaliada. Portugal deixou de ser uma equipe reconhecida apenas pela qualidade de seus jogadores e pelas campanhas próximas às decisões, passando a ter uma conquista continental como referência. A importância daquele resultado ultrapassou a carreira do atacante, porque representou a concretização de uma ambição que diferentes gerações portuguesas haviam perseguido.
Três anos depois, Cristiano voltou a participar de uma conquista importante, desta vez na primeira edição da Liga das Nações da UEFA. Portugal venceu os Países Baixos por 1 a 0 na final, disputada no Estádio do Dragão, no Porto, depois de superar a Suíça na semifinal com três gols do capitão. O torneio ampliou a coleção de títulos da seleção e confirmou sua capacidade de disputar competições internacionais em alto nível.
A terceira conquista chegou em 2025, novamente pela Liga das Nações. Portugal enfrentou a Espanha na decisão e venceu nos pênaltis, depois de um empate por 2 a 2. Cristiano marcou um dos gols portugueses e conquistou mais um troféu aos 40 anos, mantendo sua participação em momentos importantes mesmo depois de ultrapassar uma idade na qual a maioria dos jogadores já encerrou a carreira.
A longevidade talvez seja uma das características mais impressionantes de sua trajetória internacional. Entre a estreia em 2003 e o anúncio de despedida em 2026, Cristiano atravessou diferentes gerações, mudanças de treinadores e transformações táticas. Atuou ao lado de jogadores como Figo e Rui Costa, posteriormente dividiu o campo com Pepe, João Moutinho e Bernardo Silva, e terminou sua passagem pela seleção integrado a uma equipe que conta com nomes como Vitinha, João Neves e Nuno Mendes.
A capacidade de permanecer competitivo durante tanto tempo permitiu que o atacante alcançasse marcas históricas. Em 2021, superou o iraniano Ali Daei e tornou-se o maior artilheiro do futebol masculino de seleções. Nos anos seguintes, ampliou o recorde e também passou a liderar a lista de jogadores com mais partidas internacionais. Os 146 gols e 234 jogos representam uma produção construída durante mais de duas décadas, em competições oficiais e amistosos, diante de adversários de diferentes continentes.
A última Copa do Mundo e o encerramento de uma trajetória
Apesar dos títulos conquistados, a Copa do Mundo permaneceu como um objetivo não realizado. Cristiano disputou as edições de 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026, participando de seis torneios e marcando gols em todos eles. A marca é inédita na história da competição e demonstra a extensão de sua carreira internacional, iniciada quando ainda tinha 21 anos e encerrada nos Mundiais aos 41.
Sua melhor campanha continuou sendo a semifinal de 2006. Nas edições seguintes, Portugal encontrou dificuldades para avançar além das fases eliminatórias, mesmo contando com jogadores de grande qualidade. Em 2018, Cristiano teve uma de suas atuações individuais mais marcantes ao fazer três gols no empate por 3 a 3 contra a Espanha, mas a seleção acabou eliminada pelo Uruguai nas oitavas de final. Em 2022, no Catar, perdeu espaço entre os titulares durante a competição, e Portugal foi eliminado por Marrocos nas quartas de final.
A Copa do Mundo de 2026 representou a última oportunidade de conquistar o torneio. Cristiano chegou à competição aos 41 anos, ainda exercendo uma função importante no elenco. Durante a campanha, tornou-se o primeiro jogador da história a marcar gols em seis edições diferentes do Mundial, ampliando um recorde que já havia construído ao longo das participações anteriores.
Portugal avançou à fase eliminatória, superou a Croácia por 2 a 1 e encontrou a Espanha nas oitavas de final, em 6 de julho. O confronto foi equilibrado durante boa parte da partida, mas um gol de Mikel Merino nos acréscimos do segundo tempo garantiu a vitória espanhola por 1 a 0 e encerrou a participação portuguesa. A eliminação também confirmou que Cristiano não teria outra oportunidade de disputar o título mundial.
Depois da partida, o atacante reconheceu a tristeza pela despedida e afirmou estar tranquilo em relação ao esforço realizado. Também destacou os três títulos conquistados pela seleção, lembrando que Portugal não havia vencido grandes competições antes daquela geração. Naquele momento, porém, evitou anunciar sua aposentadoria internacional, preferindo refletir antes de tomar uma decisão definitiva.
Os meses seguintes trouxeram dificuldades na relação com a comissão técnica. Em setembro, Cristiano deixou a concentração portuguesa antes de um compromisso pela Liga das Nações contra a Dinamarca, em meio a divergências com o treinador Jorge Jesus. O atacante posteriormente pediu desculpas, mas recebeu uma suspensão de 30 dias e uma multa aplicada pela Federação Portuguesa de Futebol.
O episódio acrescentou tensão ao período final de sua passagem pela seleção, especialmente porque a discussão sobre seu papel na equipe já havia se intensificado durante a Copa do Mundo. Aos 41 anos, Cristiano continuava sendo uma referência histórica, mas Portugal também precisava considerar a renovação de seu setor ofensivo e a participação de jogadores que vinham ganhando espaço nos principais clubes europeus.
A despedida, portanto, acontece em um contexto que reúne o reconhecimento por uma trajetória extraordinária e as dificuldades naturais de administrar o encerramento de um ciclo tão longo. Cristiano deixa a seleção como seu maior artilheiro, recordista de partidas e capitão das três conquistas mais importantes de sua história, embora o período final também tenha sido marcado por questionamentos sobre sua utilização e pela relação com o comando técnico.
No comunicado desta quinta-feira, o jogador evitou transformar a despedida em uma discussão sobre esses episódios. Sua mensagem concentrou-se na relação construída com os portugueses, no agradecimento às pessoas que participaram da carreira e no significado de ter representado o país desde a juventude.
A Federação Portuguesa de Futebol também divulgou uma manifestação de reconhecimento, destacando a dedicação do capitão e sua importância para a seleção. A entidade ressaltou que Cristiano se tornou uma referência esportiva e cultural de Portugal, participando de um período em que a equipe nacional conquistou seus primeiros grandes títulos e ampliou sua presença nas principais competições internacionais.
A despedida oficial está prevista para depois da Data Fifa de novembro. Portugal enfrentará a Dinamarca no dia 14, em Braga, e posteriormente visitará o País de Gales, em compromissos pela Liga das Nações. Serão as últimas oportunidades para Cristiano ampliar os números que construiu ao longo de 23 anos, embora sua decisão de encerrar a carreira internacional já esteja anunciada.
O fim desse ciclo também representa uma mudança importante para a seleção portuguesa. Durante mais de duas décadas, diferentes treinadores organizaram suas equipes considerando a presença de Cristiano, seja como atacante pelos lados do campo, referência central ou principal finalizador. Sua saída permitirá uma reorganização do setor ofensivo e uma distribuição diferente das responsabilidades dentro do elenco.
Portugal possui atualmente uma geração de jogadores com experiência internacional e participação importante nas principais ligas europeias. Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Vitinha, João Neves, Rafael Leão e outros atletas oferecem alternativas para a continuidade do trabalho, embora nenhum deles deva ser avaliado pela necessidade de reproduzir individualmente aquilo que Cristiano construiu durante tantos anos.
A trajetória do atacante também não pode ser reduzida à quantidade de gols ou aos troféus conquistados. Cristiano participou de uma mudança profunda nas expectativas em torno da seleção portuguesa, que passou a disputar competições com a experiência de uma equipe campeã. A conquista de 2016, especialmente, alterou a história do futebol do país e tornou-se uma referência para as gerações seguintes.
Aos 41 anos, Cristiano Ronaldo continuará sua carreira profissional no Al-Nassr, da Arábia Saudita, mas não voltará a disputar competições internacionais por Portugal depois dos compromissos de novembro. A seleção perde seu jogador com mais partidas, seu maior artilheiro e o capitão das conquistas que marcaram uma geração. Sua despedida encerra uma trajetória iniciada em 2003, quando Portugal ainda buscava seu primeiro grande título, e concluída depois de três conquistas, seis Copas do Mundo e uma transformação importante na história da equipe nacional.