FIFA acusa UEFA de fazer “campanha de difamação” contra Infantino

Guerra entre as duas maiores entidades do futebol chega à Justiça dos Estados Unidos enquanto cresce pressão política sobre presidente da FIFA antes da eleição de 2027

A crise entre FIFA e UEFA deixou definitivamente de ser apenas uma disputa política nos bastidores do futebol. Em documento apresentado à Justiça dos Estados Unidos, a FIFA acusou formalmente a entidade europeia de promover uma “campanha de difamação” contra Gianni Infantino e a própria organização.

A manifestação ocorre depois de a UEFA recorrer a um tribunal federal de Nova York para tentar obter documentos e depoimentos de entidades localizadas nos Estados Unidos. O material seria utilizado na análise de possíveis procedimentos criminais na Suíça relacionados ao fracassado projeto FIFA Forward Enterprise. Não existe, neste momento, uma ação criminal já aberta contra Infantino por esse caso.

A reação da FIFA foi dura. A entidade pediu ao tribunal americano que adie qualquer decisão sobre o pedido europeu ou permita que empresas ligadas à FIFA participem formalmente do processo para contestá-lo. No documento obtido pela Reuters, a FIFA argumenta que as iniciativas jurídicas da UEFA funcionam mais como instrumentos de uma ofensiva pública contra sua direção do que como uma investigação baseada em um processo criminal já existente na Suíça.

A disputa, portanto, entrou em um estágio novo. FIFA e UEFA não estão apenas trocando críticas públicas. Agora estão brigando sobre acesso a documentos, depoimentos e sobre a própria legitimidade da investigação que a entidade europeia tenta construir.

O que foi o FIFA Forward Enterprise

O centro da crise é o FIFA Forward Enterprise, ou FFE, projeto apresentado pela direção de Infantino para reorganizar parte dos ativos comerciais da entidade.

A proposta previa a criação de uma nova estrutura comercial que concentraria direitos vinculados a competições da FIFA, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina, com possibilidade de participação de investidores privados. A ideia provocou forte reação de confederações e federações nacionais, que questionaram principalmente a falta de consulta antes da elaboração do plano.

A UEFA sustenta que uma mudança dessa dimensão deveria ter passado por discussão mais ampla com os órgãos de governança da FIFA e suas 211 federações filiadas. O projeto acabou retirado em 31 de julho depois de sofrer oposição não apenas dos europeus, mas também de outras confederações.

A FIFA apresenta uma interpretação oposta. Em sua manifestação judicial, afirma que a UEFA tentou impedir o projeto desde o início e acusa os europeus de agirem para preservar a posição dominante do continente no futebol mundial.

O resultado é uma disputa em que cada lado passou a questionar não apenas as decisões do outro, mas também suas motivações.

UEFA avalia levar o caso à esfera criminal

A ofensiva europeia ganhou uma dimensão jurídica porque a UEFA informou que estuda possíveis procedimentos na Suíça contra Infantino e outros dirigentes ligados ao projeto.

Para reunir elementos, a entidade solicitou ao Tribunal Distrital do Sul de Nova York autorização para obter testemunhos e documentos de organizações americanas. Esse tipo de procedimento permite buscar nos Estados Unidos provas destinadas a processos estrangeiros.

A FIFA, por sua vez, contesta justamente a base desse pedido. Na avaliação apresentada ao tribunal, a UEFA estaria tentando obter informações para procedimentos criminais apenas cogitados e que ainda não existem formalmente.

É importante, portanto, separar os fatos: a UEFA avalia uma possível iniciativa criminal na Suíça; Infantino não foi condenado e a Reuters não informa que exista atualmente uma acusação criminal formal contra ele relacionada ao FFE.

O que já existe é uma disputa judicial nos Estados Unidos sobre o acesso ao material que poderia subsidiar os próximos passos.

Países nórdicos levam crise até a União Europeia

A pressão também ultrapassou os limites das próprias entidades esportivas.

As federações de Dinamarca, Finlândia e Suécia enviaram uma carta ao comissário europeu de Esportes, Glenn Micallef, pedindo uma reunião em Bruxelas para discutir problemas de governança na FIFA. A Comissão Europeia confirmou à Reuters que recebeu o documento, embora ainda não estivesse definido se o encontro seria realizado.

As três federações apontam preocupações com transparência, processos de consulta e tomada de decisões dentro da FIFA. O FIFA Forward Enterprise aparece como o principal exemplo utilizado para justificar a preocupação, mas a discussão é apresentada como mais ampla do que um projeto específico.

O movimento faz parte de uma reação nórdica maior. Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega, Suécia e Ilhas Faroe já haviam declarado perda de confiança em Infantino e pedido uma investigação independente sobre o FFE, além de uma revisão externa da governança da FIFA.

A entrada potencial de instituições da União Europeia muda novamente o tamanho da crise. O confronto que começou dentro da estrutura do futebol já envolve tribunais americanos, possibilidade de procedimentos na Suíça e autoridades políticas europeias.

Pressão sobre Infantino cresce antes da eleição de 2027

O momento também é especialmente sensível porque Infantino pretende disputar um quarto mandato na presidência da FIFA em março de 2027.

Segundo a Reuters, UEFA, Confederação Asiática e Concacaf estão entre as entidades que pressionam por sua saída, e representantes das confederações já discutiram inclusive a possibilidade de um voto de desconfiança. Ao mesmo tempo, Infantino continua contando com apoio importante na África e na América do Sul.

A UEFA afirmou que trabalhará com outras confederações para apresentar às federações nacionais uma alternativa comprometida com reformas caso Infantino seja novamente candidato. A entidade europeia também exige uma revisão externa verdadeiramente independente sobre o projeto comercial fracassado e sobre os limites do poder presidencial dentro da FIFA.

Isso transforma a discussão do FFE em algo potencialmente muito maior. O projeto foi abandonado, mas suas consequências podem definir as alianças e a disputa pelo comando do futebol mundial em 2027.

Mundial de Clubes chegou a entrar na guerra

O conflito já esteve próximo de produzir consequências diretamente nas competições.

A UEFA havia ameaçado utilizar diferentes instrumentos de pressão contra a FIFA e discutiu até medidas que poderiam afetar a participação de equipes em torneios organizados pela entidade mundial. Mais recentemente, os europeus suspenderam provisoriamente a ideia de boicote, garantindo que as seleções classificadas possam participar normalmente do Mundial Feminino Sub-20 que será disputado na Polônia.

Isso não significa que a crise tenha diminuído. A própria UEFA declarou ter recebido autorização unânime de seus membros para explorar todos os caminhos institucionais, políticos e jurídicos disponíveis na tentativa de reformar a governança da FIFA.

A resposta da FIFA mostra que Infantino também não pretende recuar.

Depois de semanas de críticas, ameaças de boicote e questionamentos sobre governança, a entidade agora acusa oficialmente a UEFA de tentar destruir publicamente sua reputação.

A guerra pelo comando do futebol mundial não está mais escondida nos corredores. Ela já chegou aos tribunais.

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