A classificação do Brasileirão apresenta uma situação curiosa na luta contra o rebaixamento. Grêmio, Vasco e Internacional têm exatamente 28 pontos, mas as perspectivas para as últimas rodadas estão longe de ser iguais. Depois da derrota gremista por 3 a 2 para o Botafogo, o modelo estatístico do Gato Mestre calcula apenas 34,76% de chance de permanência do Grêmio na Série A, enquanto Vasco e Internacional aparecem com 64,58% e 62,12%, respectivamente.
A diferença mostra por que a tabela, sozinha, não conta toda a história de uma disputa contra o rebaixamento. O Grêmio permanece na 16ª posição por ter saldo de gols superior ao Vasco, enquanto o Internacional aparece dentro do Z4 com uma vitória a menos. Mesmo assim, quando entram na conta desempenho recente, qualidade das oportunidades criadas e concedidas, mando de campo, adversários restantes e partidas ainda pendentes, o cenário gremista se torna mais preocupante.
A situação ficou ainda pior com a derrota no jogo atrasado contra o Botafogo. O Grêmio teve a oportunidade de abrir vantagem sobre os rivais diretos, mas voltou do Rio de Janeiro sem pontos e completou uma sequência em que venceu apenas a lanterna Chapecoense nas últimas seis partidas do Campeonato Brasileiro. Foram três pontos conquistados em 18 possíveis, desempenho que derrubou a probabilidade de permanência de 46,13% para 34,76%.
Por que o Vasco aparece tão acima do Grêmio?
A primeira diferença importante está no momento recente. O Vasco também tem 28 pontos, mas apresentou sinais de recuperação justamente nos confrontos que poderiam determinar sua situação na tabela. Nas últimas semanas, venceu o Cruzeiro e derrotou o próprio Grêmio por 2 a 1 dentro da Arena, resultado que permitiu ao clube carioca igualar a pontuação do adversário gaúcho.
Além disso, o Vasco possui um jogo a menos, o que oferece uma oportunidade adicional de pontuar em relação ao Grêmio. Isso não garante uma vantagem real, já que o ponto precisa ser conquistado dentro de campo, mas naturalmente influencia as simulações realizadas para o restante da competição.
O próximo compromisso também oferece ao Vasco uma situação teoricamente menos complicada. A equipe recebe o Coritiba, oitavo colocado, em São Januário, enquanto o Grêmio terá pela frente o vice-líder Palmeiras. O resultado de apenas uma rodada pode alterar bastante os percentuais, mas o cenário imediato ajuda a explicar por que os modelos enxergam perspectivas diferentes para clubes que hoje aparecem lado a lado na classificação.
O Vasco ainda terá compromissos difíceis na sequência, como a visita ao Botafogo, mas depois receberá o Remo. A equipe também precisa administrar a campanha na Sul-Americana, na qual alcançou a semifinal, o que adiciona desgaste ao calendário.
Internacional também reage, mesmo dentro do Z4
A situação do Internacional oferece outro exemplo de como a posição atual pode enganar. O Colorado aparece abaixo de Grêmio e Vasco porque possui uma vitória a menos, mas o modelo calcula 62,12% de possibilidade de permanência, quase o dobro do percentual gremista.
O principal motivo imediato é a diferença de desempenho. Enquanto o Grêmio somou apenas três pontos nas últimas seis partidas, o Internacional conquistou seis. Ainda é uma campanha ruim para um clube que precisa se afastar da zona de rebaixamento, mas representa uma produção maior no mesmo período. A vitória recente ocorreu contra a Chapecoense, adversário que também foi o único derrotado pelo Grêmio nessa sequência.
O Colorado terá um teste importante já na próxima rodada, quando visita o São Paulo no Morumbis. Depois, recebe o Corinthians e disputa o Gre-Nal na Arena do Grêmio. Isso significa que a reação ainda precisa ser confirmada contra adversários mais fortes, mas o desempenho apresentado pelo modelo ao longo da temporada oferece ao Inter uma projeção melhor do que sua posição na tabela sugere.
O grande problema do Grêmio é que a má fase não começou agora
A queda das probabilidades gremistas não pode ser explicada apenas pelas derrotas para Vasco e Botafogo. O campeonato inteiro apresenta sinais de instabilidade, especialmente quando a equipe precisa atuar longe de Porto Alegre.
Antes do jogo contra o Botafogo, o Grêmio havia disputado 13 partidas como visitante sem conseguir nenhuma vitória, somando apenas quatro pontos e apresentando aproveitamento de 10,2%. Dos 28 pontos conquistados até aquele momento, 24 vieram em casa.
Essa dependência da Arena seria menos problemática se o desempenho como mandante continuasse oferecendo segurança. A derrota para o Vasco, porém, atingiu justamente esse ponto forte. O Grêmio abriu o placar, permitiu a virada no segundo tempo e perdeu um confronto direto diante de mais de 34 mil torcedores.
A direção respondeu demitindo Luís Castro e trazendo Renato Portaluppi novamente para o comando. Renato já iniciou o novo trabalho, mas não existe tempo para uma adaptação longa. O Grêmio terá o Palmeiras na próxima rodada, depois visita o Remo e, na sequência, disputa um Gre-Nal que pode ganhar enorme importância dependendo dos resultados anteriores.
Como o Gato Mestre chega a números tão diferentes?
As probabilidades não são calculadas simplesmente observando os pontos atuais ou escolhendo qual calendário parece mais fácil. O modelo do Gato Mestre utiliza dados de gols esperados, o xG, construídos a partir de milhares de finalizações registradas no Brasileirão desde 2013.
Entre as variáveis analisadas estão posição e tipo das finalizações, presença do goleiro, origem da jogada, pé utilizado pelo jogador, situação do placar, características do atleta e até o valor de mercado das equipes como indicador de qualidade dos elencos. Com essas informações, o modelo estima a probabilidade de cada resultado nos jogos ainda não disputados.
A partir daí, cada partida restante é simulada dez mil vezes, usando um modelo estatístico baseado em distribuição de Poisson Bivariada e método de Monte Carlo. O percentual de permanência representa a frequência com que determinada equipe termina fora da zona de rebaixamento nessas simulações.
Isso explica por que duas equipes com a mesma pontuação podem aparecer tão distantes. O modelo considera não apenas onde elas estão hoje, mas também a maneira como chegaram até essa posição e o que tendem a enfrentar até a 38ª rodada.
Chapecoense já vive situação quase irreversível
Na parte mais crítica da tabela está a Chapecoense. O clube catarinense soma apenas 0,96% de chance de permanecer na Série A e ocupa a lanterna desde a 12ª rodada. A diferença para o Grêmio, primeiro time fora do Z4, já chegou a 11 pontos.
O número mostra também que, embora Grêmio, Vasco e Internacional estejam bastante ameaçados, a situação deles ainda permite mudanças importantes. Uma sequência de duas ou três vitórias pode alterar rapidamente as probabilidades, assim como novas derrotas podem derrubar um clube que hoje aparece com mais de 60% de possibilidade de permanência.
No caso do Grêmio, porém, o sinal de alerta é mais forte porque os resultados recentes confirmam problemas que já apareceram durante boa parte do campeonato. O time venceu apenas uma vez nas últimas seis rodadas, ainda não conseguiu construir uma campanha minimamente eficiente fora de casa e agora terá de reagir justamente diante do Palmeiras.
A classificação diz que Grêmio, Vasco e Internacional estão empatados com 28 pontos. Os modelos mostram outra coisa: neste momento, os três chegaram à mesma posição por caminhos diferentes, e o Grêmio é quem apresenta o cenário mais preocupante para as rodadas finais.
