Jhon Arias reencontra o Fluminense no Maracanã em clima de “traição”

Ídolo recente do Tricolor enfrenta o ex-clube neste sábado pela primeira vez no Maracanã desde que retornou ao Brasil para defender o Palmeiras; promessa feita na despedida e escolha pelo rival deixaram parte da torcida revoltada

Foto: Palmeiras

Jhon Arias voltará neste sábado (15) a um lugar onde viveu alguns dos maiores momentos da carreira, mas encontrará um ambiente muito diferente daquele de sua despedida. Fluminense e Palmeiras se enfrentam às 16h30, no Maracanã, pela 23ª rodada do Brasileirão, e o colombiano será um dos principais personagens da partida. É a primeira vez que ele enfrenta o antigo clube no estádio desde que deixou as Laranjeiras e retornou ao Brasil vestindo verde.

O reencontro acontece em clima de forte mágoa de parte dos tricolores. Arias saiu do Fluminense em julho de 2025 para realizar o sonho de atuar na Premier League e, durante a despedida, prometeu que voltaria ao clube. Sete meses depois, entretanto, deixou o Wolverhampton e acertou justamente com o Palmeiras, mesmo depois de o Fluminense tentar sua contratação. A decisão fez com que muitos torcedores passassem a tratar o antigo ídolo como “traidor”.

A promessa que a torcida não esqueceu

A origem da revolta está principalmente nas palavras utilizadas pelo próprio Arias quando deixou o Fluminense.

Durante a entrevista coletiva de despedida, em julho de 2025, o colombiano afirmou mais de uma vez que pretendia retornar ao clube. Em determinado momento, declarou: “Eu vou voltar ao Fluminense”. Depois, ao ser questionado diretamente sobre a promessa, voltou a dizer que um eventual retorno ao Brasil aconteceria por razões afetivas e encerrou reafirmando que voltaria ao Tricolor.

A fala ganhou ainda mais peso porque Arias construiu uma relação de enorme identificação com o clube. Contratado em 2021, terminou sua primeira passagem pelo Fluminense com 230 jogos, 47 gols e 55 assistências. Foi campeão da Libertadores de 2023 e protagonista da Recopa Sul-Americana de 2024, marcando os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre a LDU na decisão disputada justamente no Maracanã.

Por isso, quando ficou claro que sua passagem pelo Wolverhampton poderia terminar rapidamente, muitos tricolores passaram a imaginar o retorno.

Fluminense colocou R$ 123 milhões na mesa

E o clube realmente tentou.

No início de fevereiro, o Fluminense chegou a oferecer aproximadamente € 20 milhões, cerca de R$ 123 milhões na cotação daquele momento, para recomprar Arias. A diretoria interrompeu outras negociações e direcionou esforços para tentar repatriar o colombiano.

O Palmeiras, entretanto, apresentou uma proposta superior. O negócio com o Wolverhampton chegou a € 25 milhões, e o clube paulista também apresentou condições de parcelamento que o Fluminense precisaria igualar para exercer efetivamente sua preferência contratual.

Esse é um ponto importante na história: o Fluminense tinha preferência para tentar recomprar Arias, mas não possuía o direito de simplesmente impedir sua transferência para outro clube brasileiro. Para exercer a cláusula, teria de igualar não apenas o valor oferecido pelo Palmeiras, mas também as condições financeiras da operação. A diretoria considerou que fazer isso comprometeria o planejamento do clube.

O Tricolor ainda tentou utilizar a relação construída com Arias para convencê-lo a rejeitar a proposta palmeirense e lembrou ao jogador a promessa feita quando deixou o clube. Não funcionou.

Foto: Fluminense

Palmeiras venceu a disputa e revoltou os tricolores

Arias aceitou o projeto palmeirense e retornou ao futebol brasileiro.

Para parte da torcida do Fluminense, portanto, o problema não foi simplesmente o fato de o clube ter perdido uma disputa financeira. A decepção veio principalmente porque o próprio jogador havia transformado publicamente o retorno em uma questão de identificação e lealdade ao Tricolor meses antes.

Do ponto de vista do colombiano, outros fatores pesaram na escolha. Segundo pessoas próximas ao atleta ouvidas pelo ge durante a negociação, Arias temia perder espaço na seleção colombiana em ano de Copa do Mundo diante da situação do Wolverhampton. O rebaixamento do clube inglês também provocaria uma redução importante em seus vencimentos.

No Palmeiras, tornou-se rapidamente uma peça importante para Abel Ferreira. Até o duelo deste sábado, Arias soma 32 partidas, oito gols e quatro assistências pelo clube e tem sido presença constante no ataque alviverde.

Este não será o primeiro reencontro

Arias e Fluminense já ficaram frente a frente depois da transferência.

Em 25 de fevereiro, Palmeiras e Flu se enfrentaram em Barueri pelo primeiro turno do Brasileirão. O colombiano começou no banco e, quando entrou, recebeu vaias e ofensas vindas dos torcedores tricolores presentes no estádio. Até antigos companheiros demonstraram que o jogo teria tratamento diferente: Guga protagonizou uma entrada dura sobre Arias pouco depois de sua entrada.

Dentro de campo, o Palmeiras levou a melhor e venceu por 2 a 1.

O contexto deste sábado, porém, é muito diferente.

Agora será no Maracanã, diante de um público majoritariamente tricolor e em um estádio diretamente ligado à história de Arias no clube. A expectativa é de pelo menos 20 mil torcedores, e o próprio ge projeta um ambiente de pressão muito maior sobre o colombiano.

De herói da Libertadores a adversário no Maracanã

A transformação aconteceu em pouco mais de um ano.

Em julho de 2025, Arias deixou o Fluminense celebrado como um dos principais jogadores de uma das gerações mais vitoriosas da história recente do clube. O Wolverhampton desembolsou uma operação que poderia chegar a € 22 milhões para contratá-lo, e o Tricolor manteve 10% dos direitos sobre uma futura venda, além da cláusula de preferência em caso de retorno ao Brasil.

Meses depois, o jogador que havia prometido retornar apareceu com a camisa de um dos principais concorrentes esportivos do Fluminense.

Por isso, o termo “traição” que cerca o confronto representa o sentimento de parte da torcida, e não uma caracterização objetiva de quebra contratual por Arias. O Fluminense tentou contratá-lo, mas decidiu não igualar as condições oferecidas pelo Palmeiras. O que foi quebrado, na visão dos torcedores mais revoltados, foi principalmente uma promessa afetiva feita publicamente pelo próprio jogador.

Partida também vale muito para os dois clubes

O reencontro acontece em um momento importante do Brasileirão.

O Palmeiras é o líder, mas chega pressionado depois de três partidas sem vencer e viu o Flamengo reduzir a distância na disputa pelo título. Arias tem sido uma das peças mais utilizadas por Abel Ferreira e deve começar o confronto entre os titulares.

O Fluminense vive situação ainda mais delicada. São oito jogos consecutivos sem vitória, eliminação para o Vasco na Copa do Brasil e empate por 0 a 0 com o Independiente Rivadavia no primeiro jogo das oitavas da Libertadores. Luis Zubeldía foi demitido, e Marcão assume interinamente a equipe neste sábado.

O Tricolor ocupa a quarta colocação do Brasileiro e tenta usar justamente o Maracanã para iniciar uma reação. O Palmeiras, por outro lado, possui a melhor campanha como visitante da competição.

Mas, independentemente da tabela, parte das atenções estará inevitavelmente voltada para o camisa 11 palmeirense.

Arias já entrou no Maracanã como campeão da América, herói de título internacional e ídolo do Fluminense. Neste sábado, atravessará o mesmo gramado como adversário — e provavelmente sob algumas das vaias mais fortes que já ouviu no estádio.

Sair da versão mobile