Se o limite de cinco estrangeiros já valesse hoje, quem ficaria no seu time?

CBF aprovou redução gradual do número de estrangeiros relacionados por partida até 2030; levantamento dos elencos atuais mostra quais clubes teriam as decisões mais difíceis

A mudança aprovada pela CBF e pelos clubes das Séries A e B vai alterar aos poucos a forma como os times brasileiros montam seus elencos. Atualmente, cada equipe pode relacionar até nove jogadores estrangeiros em uma partida do Campeonato Brasileiro. O limite cairá para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e chegará a cinco estrangeiros por jogo em 2030.

A nova regra não impede que um clube tenha mais de cinco estrangeiros sob contrato. O que muda é a súmula: quando o limite chegar a cinco, qualquer equipe que tenha seis, oito ou dez jogadores de outros países precisará escolher quais deles poderão participar de cada partida. A redução será gradual justamente para permitir que os clubes adaptem contratos e estratégias de mercado sem precisar desmontar os elencos de uma temporada para outra.

Essa diferença é importante porque muitos times da Série A já trabalham com grupos bastante internacionalizados. Levantamentos feitos após a aprovação da mudança mostram cerca de 160 jogadores estrangeiros distribuídos pela primeira divisão, algo próximo de um quarto dos atletas dos elencos profissionais. Argentina, Uruguai e Colômbia são, com ampla vantagem, os países que mais fornecem jogadores ao futebol brasileiro.

A regra de 2030 ainda está distante, e praticamente todos os elencos terão mudado até lá. Mesmo assim, aplicar hoje o futuro limite de cinco ajuda a visualizar o tamanho do impacto. Em alguns clubes, a escolha seria relativamente simples. Em outros, seria necessário deixar fora da relação jogadores importantes, titulares ou atletas que custaram valores consideráveis.

Por isso, a proposta aqui é simples: se o limite de cinco estrangeiros por partida já estivesse valendo, quais cinco jogadores do seu time você escolheria?

Os clubes que teriam as escolhas mais difíceis

O Vasco é um dos casos mais evidentes. O elenco atual tem 12 estrangeiros no levantamento dos profissionais: Alan Saldivia, Carlos Cuesta, Pumita Rodríguez, Santiago Sosa, Johan Rojas, Alan Lescano, Loide Augusto, Marino Hinestroza, Facundo Colidio, Andrés Gómez, Nuno Moreira e Claudio Spinelli. Com a regra de 2030, sete deles precisariam ficar fora da relação em uma rodada na qual todos estivessem disponíveis.

O Internacional também montou um elenco bastante internacional. Aparecem no grupo Sergio Rochet, Gabriel Mercado, Félix Torres, Denis Marfo, Guillermo Maripán, Braian Aguirre, Alexandro Bernabei, Rodrigo Villagra, Benjamin Arhin, Niclas Eliasson, Tonny Sanabria e Johan Carbonero. Eliasson, porém, é um caso particular: embora tenha nascido na Suécia, tem mãe brasileira e não entra atualmente na contagem de estrangeiros da CBF.

O Athletico possui 11 estrangeiros e construiu boa parte de seu elenco recente olhando especialmente para o mercado colombiano. Estão no grupo Felipe Aguirre, Carlos Terán, Lucas Esquivel, Gastón Benavídez, Bruno Zapelli, Juan Portilla, Alejandro García, Steven Mendoza, Kevin Viveros, Jorge Rivaldo e Kerwin Vargas. Viveros, inclusive, é um dos destaques do time na temporada, o que mostra que a discussão não envolve apenas atletas de composição de elenco.

O Botafogo também aparece entre os clubes com forte presença internacional. Mateo Ponte, Nahuel Ferraresi, Cristian Medina, Domingos Andrade, Jordan Barrera, Álvaro Montoro, Hakim Ziyech, Lucas Villalba e Kadir Barría estão atualmente à disposição do profissional, enquanto Jhoan Hernández e Christian Loor têm sido utilizados principalmente na base. Lucas Monzón nasceu no Brasil e, apesar da ligação com o Uruguai, não entra na cota de estrangeiros da CBF.

No Flamengo, a situação já exige escolhas mesmo com o limite atual de nove. O clube tem dez estrangeiros que contam para a regra: Agustín Rossi, Guillermo Varela, Erick Pulgar, Giorgian Arrascaeta, Nicolás De la Cruz, Saúl Ñíguez, Gonzalo Plata, Anthony Valencia, Joaquín Freitas e Jorge Carrascal. Como Jorginho nasceu no Brasil, ele não integra essa conta, mesmo tendo defendido a seleção italiana.

O Grêmio também possui dez jogadores estrangeiros no elenco: Fabián Balbuena, Erick Noriega, Juan Nardoni, Filip Krovinovic, Mathias Villasanti, Cristian Pavón, Martin Braithwaite, Francis Amuzu, Jovane Cabral e José Enamorado. Kannemann não aparece nessa relação porque concluiu o processo de naturalização brasileira e deixou de ocupar vaga na cota.

Atlético-MG, Bahia e Fluminense também teriam cortes importantes

O Atlético-MG conta com nove estrangeiros: Angelo Preciado, Alan Franco, Tomás Pérez, Kevin Castaño, Mamady Cissé, Alan Minda, Mateo Cassierra, Tomás Cuello e Thiago Borbas. Num cenário com todos disponíveis e apenas cinco vagas, quatro deles precisariam ser retirados da relação. A composição também mostra como o mercado sul-americano se tornou parte normal do planejamento dos principais clubes brasileiros.

No Bahia, os nove nomes são Guido Herrera, Marco Moreno, Román Gómez, Lautaro López, Nicolás Acevedo, Michel Araújo, Mateo Sanabria, Cristian Olivera e Alejo Véliz. A presença estrangeira cresceu bastante durante 2026, quando o clube atingiu pela primeira vez o teto permitido pelo regulamento atual.

O Fluminense tem Juan Freytes, Julián Millán, Lucho Acosta, Jefferson Savarino, Germán Cano, Kevin Serna, Agustín Canobbio, Yeferson Soteldo e Rodrigo Castillo. Matheus Reis, brasileiro que também possui nacionalidade mexicana, não entra na cota. Nesse grupo há jogadores com funções muito diferentes, de zagueiros a atacantes, o que obrigaria o clube a considerar não apenas a qualidade individual, mas também a montagem do banco para cada partida.

Palmeiras e Bragantino estão na média atual, mas ainda acima do limite de 2030

O Palmeiras tem oito estrangeiros que contam para a regra: Alexander Barboza, Gustavo Gómez, Agustín Giay, Joaquín Piquerez, Emiliano Martínez, Jhon Arias, Flaco López e Ramón Sosa. Maurício, apesar de também defender o Paraguai, nasceu em São Paulo e não ocupa vaga de estrangeiro. Se o limite de cinco já existisse, três dos oito precisariam ficar fora da relação em cada partida com o grupo completo.

O Red Bull Bragantino também possui oito: Guzmán Rodríguez, Weimar Palacios, Andrés Hurtado, Agustín Sant’Anna, Ignacio Sosa, José Herrera, Henry Mosquera e Isidro Pitta. A situação mostra que a futura regra não atingirá apenas os clubes que hoje extrapolam o teto de nove; equipes que atualmente estão confortavelmente dentro do regulamento também precisarão rever a composição de seus grupos quando o limite cair para cinco.

Corinthians, São Paulo e Coritiba teriam de excluir dois por rodada

O Corinthians tem sete estrangeiros no elenco profissional: Pedro Milans, Fabrizio Angileri, Zakaria Labyad, Rodrigo Garro, Jesse Lingard, Memphis Depay e André Carrillo. Aplicada a regra de 2030 ao grupo atual, dois desses jogadores teriam de ficar fora de cada partida quando todos estivessem disponíveis.

O São Paulo também tem sete nomes que entram na conta: Robert Arboleda, Domingos Duarte, Aurélio Buta, Cédric Soares, Enzo Díaz, Damián Bobadilla e Jonathan Calleri. Rafael Tolói e Coronel não entram no limite por serem brasileiros, apesar de possuírem outras nacionalidades esportivas ou civis.

No Coritiba, aparecem Fabricio Bustos, Nicolás Fonseca, Alejandro Ararat, Sebastián Gómez, Josué, Joaquín Lavega e Brian Ocampo. Assim como Corinthians e São Paulo, o clube precisaria cortar dois nomes da relação para se adequar ao limite projetado para 2030.

Cruzeiro teria três escolhas a fazer

O Cruzeiro aparece em levantamentos mais recentes com oito estrangeiros no elenco ativo: Lucas Villalba, Matías Viña, Gabriel Rojas, Lucas Romero, Luciano Rodríguez, Luis Sinisterra, Neyser Villarreal e Keny Arroyo. Fabrizio Peralta pertence ao clube, mas não integra atualmente o grupo ativo, enquanto João Costa nasceu no Brasil e não conta como estrangeiro para a CBF.

Se a regra de cinco já estivesse em vigor, o clube teria de deixar três desses oito fora da relação. A composição também mostra outro efeito que a mudança poderá provocar: jogadores jovens contratados no exterior disputarão as mesmas vagas de estrangeiros com atletas experientes e consolidados no elenco.

Santos, Vitória e Remo precisariam escolher apenas um a menos

O Santos tem seis estrangeiros no levantamento atual: Gonzalo Escobar, Christian Oliva, Miguelito, Gustavo Caballero, Benjamín Rollheiser e Álvaro Barreal. Com a regra de 2030, a decisão seria direta: cinco relacionados e um fora a cada partida, considerando todos disponíveis.

O Vitória está na mesma situação. Emanuel Brítez, Emmanuel Martínez, Rúben Ismael, Tomás Pochettino, Nacho Laquintana e Diego Tarzia formam o grupo de seis estrangeiros. O Remo também possui seis nomes: Duplexe Tchamba, Cristian Tassano, Franco Catarozzi, Leonel Picco, Antonio Galeano e Andrés González.

A Chapecoense, por sua vez, já está exatamente no número previsto para 2030. Miguel Carvalho, Yannick Bolasie, Kevin Ramírez, Franco Rossi e Dylan Borrero formam o grupo de cinco. O Mirassol é o único clube da Série A sem estrangeiros no elenco profissional nos levantamentos atuais.

Como ficaria a escolha em cada clube

* O exercício considera os elencos atuais e não significa que os clubes terão esses mesmos jogadores em 2030.
** Niclas Eliasson não ocupa atualmente vaga na cota por ter mãe brasileira.
*** O Botafogo possui casos de atletas da base e Lucas Monzón não conta para a cota por ter nascido no Brasil.
Os elencos foram cruzados a partir de levantamentos publicados pela Folha e pelo ge em 22 e 23 de setembro.

A regra é sobre a súmula, não sobre quem pode continuar no clube

O exercício de escolher apenas cinco serve principalmente para mostrar como a redução pode interferir na formação das equipes, mas a regra não obrigará ninguém a dispensar jogadores. Um clube poderá chegar a 2030 com oito ou dez estrangeiros sob contrato. O treinador, porém, só poderá colocar cinco deles na relação de cada jogo do Brasileiro, o que tende a influenciar decisões sobre contratações, renovações e composição de elenco ao longo dos próximos anos.

A CBF sustenta que a redução pretende devolver espaço aos jovens brasileiros. Segundo os dados apresentados pela entidade, a participação dos atletas brasileiros sub-23 caiu fortemente nos últimos anos, enquanto aumentou o tempo em campo de estrangeiros mais experientes. A mudança no limite foi acompanhada de outra medida: a partir de 2027, os 50 inscritos de cada clube também serão divididos entre uma lista principal e outra destinada aos jogadores de até 23 anos, até chegar a uma divisão de 25 vagas para cada grupo em 2030.

A decisão provocou divergências entre dirigentes. Flamengo e Bahia votaram contra a redução, enquanto clubes como o Athletico defenderam a medida como uma forma de estimular o aproveitamento da base. José Boto, diretor do Flamengo, argumentou que limitar o mercado internacional pode reduzir a qualidade do campeonato, enquanto outros dirigentes entendem que a transição até 2030 dá tempo suficiente para os clubes se reorganizarem.

Para o torcedor, entretanto, a discussão pode ser colocada de maneira bem mais concreta. Olhando apenas para o elenco atual do seu clube e imaginando que todos estivessem saudáveis e disponíveis, quais seriam os cinco estrangeiros que você escolheria para relacionar? E quem ficaria de fora?

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