Marquinhos: da base corintiana à líder do estrelado Paris Saint-Germain e da Seleção

Carlo Ancelotti orientando a dupla de zagueiros do Brasil, Marquinhos e Gabriel Magalhães, contra o Chile nas Eliminatórias para a Copa do Mundo. Foto: Pablo Porciuncula

Quem olhasse o jovem magro, de estrutura leve e comportamento tímido, jamais pensaria que se tratava de um zagueiro. Muito menos poderia imaginar que, no futuro, seria um dos melhores do mundo durante alguns anos.

Mas foi exatamente assim que Marquinhos chegou às categorias de base do Corinthians aos oito anos de idade: sem impressionar pelo físico ou pela personalidade. O que chamava atenção, desde cedo, eram outros atributos: a versatilidade e a inteligência.

Antes de chegar aos profissionais, o zagueiro disputou a Copinha pelo Timão. Não era titular, mas acabou se tornando após a lesão de um dos companheiros. O Alvinegro foi campeão e aquele menino, ainda franzino, se destacou e foi promovido ao elenco principal.

“A gente conversava muito. Na final da Copa São Paulo, a gente ia enfrentar o time do Fluminense, que era muito rápido no ataque. Ele sempre fazia as coberturas e tinha uma leitura de jogo muito boa. Era muito inteligente para conversar sobre tática durante os jogos. Lembro que nos intervalos ele já tinha a leitura do que estava acontecendo. Era um jogador diferente.”, comentou Marcelo Zanardi, auxiliar-técnico da equipe na época, em entrevista à ESPN.

A passagem foi curta, durou apenas 14 jogos, a maioria improvisado como lateral ou volante. Por necessidade, mas também por uma dúvida que o técnico Tite tinha a respeito dele.

Segundo Marcelo, o treinador o procurou na época para questionar alguns pontos sobre o defensor. Ele acreditava que Marquinhos não tinha estatura para ser zagueiro.

Marquinhos ao lado do técnico Tite em seus primeiroa anos de profissional no Corinthians, Foto: Gazeta Press

Mesmo entrando poucas vezes em campo e improvisado, Marquinhos, aos 18 anos, despertou o interesse do futebol europeu. A Roma fez uma proposta de empréstimo com opção de compra que totalizava 5 milhões de euros. Em entrevista ao Lance, ele relembrou a decisão:

“Foi conjunta. Marquinhos, família, empresário, Corinthians. Foi uma decisão que na época seria boa para todos. A Roma era um projeto que me encantou. Se não fosse conjunta, claro que eu não sairia. Mas como foi vontade de todo mundo, acabamos decidindo isso”.

Da parte do clube, no entanto, há uma polêmica. Mário Gobbi, que dirigia o Timão à época, disse que só vendeu o jogador pois Tite não acreditava nele e não iria mais relacioná-lo. A declaração foi dado ao podcast Futeboteco (confira a seguir).

A venda foi sacramentada e o jogador, que passou quase 10 anos na base do clube, saiu pouco mais de seis meses depois de se juntar ao elenco principal. Mesmo sem ter atuado em nenhum jogo, fez parte do grupo campeão da Libertadores daquele ano.

Roma: uma temporada e uma certeza

A passagem pela capital italiana foi tão rápida quanto impressionante. Em setembro de 2012, estreou pela Roma e rapidamente virou titular absoluto, colocando no banco o ex-companheiro de clube Leandro Castán.

A leitura de jogo, a evolução tática e a capacidade técnica para sair jogando foram os pontos principais que marcaram a estadia do zagueiro pelo clube. Em 31 jogos, conseguiu se destacar ao ponto do Barcelona demonstrar interesse em contar com ele.

Mas quem chegou primeiro, e com muita grana, foi o Paris Saint Germain. Em julho de 2013, os franceses abriram os cofres e pagaram 35 milhões de euros – entre fixo e variáveis – por Marquinhos.

Naquele momento, era o quarto zagueiro mais caro da história, atrás apenas de Rio Ferdinand, Lilian Thuram e do compatriota e futuro companheiro de muitas jornadas, Thiago Silva.

Marquinhos em jogo da Roma contra o Parma no Campeonato Italiano em 2013. Foto: Giuseppe Bellini

Os primeiros anos de aprendizado

Talvez ninguém imaginasse, mas a partir daquele momento, chegava ao clube um dos maiores jogadores da história do Paris Saint-Germain.

O começo foi de adaptação e aprendizado. Em uma liga mais física, Marquinhos também precisou evoluir na imposição, o que a curta temporada na Itália também ajudou.

No primeiro ano de clube foram apenas 31 jogos. Muitas vezes era relacionado mas não saia do banco. Nas temporadas seguintes, o padrão se repetiu, embora o número de partidas disputadas aumentasse a cada ano.

A virada começou em 2016, quando David Luiz foi vendido ao Chelsea. A partir daí, Marquinhos se estabeleceu de vez. Virou titular absoluto, parceiro fixo de Thiago Silva, e foi crescendo dentro do clube e ganhando cada vez mais importância e liderança no sempre estrelado elenco parisiense. 

Muitos, inclusive brasileiros, chegaram e saíram. Ibrahimovic, Neymar, Messi, Mbappé, Cavani, Sérgio Ramos, Verratti, Di Maria, Icardi, Lucas Moura… ele ficou.

Silenciosamente, Marquinhos foi conquistando o respeito de todos, até assumir a braçadeira de capitão quando Thiago Silva deixou o clube, em 2020. Em 2023, com a chegada de Luis Enrique, foi eleito pelos companheiros para seguir na função.

Nesses quase 13 anos na capital francesa, o zagueiro já venceu 40 títulos, um número impressionante, mas que não pode esconder o contexto em que o Paris Saint-Germain se encontra. Entre as muitas conquistas da Liga e das Taças na França, o troféu mais desejado escapou inúmeras vezes.

As decepções na Champions e o título de um time coletivo

Champions League e Paris Saint-Germain foram quase sempre feito água e óleo: não se misturam. A obsessão do fundo de investimento que comanda o clube sempre foi pela Orelhuda, mas ao longo dos anos ela foi escapando de diversas formas diferentes.

Quatro eliminações nas oitavas de final, com direito a remontada do Barcelona no histórico 6×1 no Camp Nou, depois de vencer no Parque dos Príncipes por 4×0, em 2017.

Três eliminações seguidas nas quartas-de-final, entre 2014 e 2016. Duas derrotas nas semifinais. E a final de 2020, sem público por causa da pandemia da Covid-19, na qual o Paris Saint-Germain foi derrotado pelo Bayern de Munique.

Mas, finalmente, chegou o dia 31 de maio de 2025. Paris Saint-Germain x Inter de Milão. Na Allianz Arena, uma goleada impiedosa para cima dos italianos: 5×0. Um verdadeiro atropelo que há muito não se via em uma final de competições europeias.

O capitão Marquinhos e o troféu da Liga dos Campeões da Europa em 2025. Foto: Xavier Laine

Nos 17 jogos daquela campanha, Marquinhos foi titular em 16, perdeu apenas um por suspensão. No momento mais marcante dos 55 anos do clube francês, coube a ele, capitão, levantar a taça.

Foi apenas o segundo brasileiro a erguer o troféu como capitão, igualando Marcelo, que havia feito isso em 2022 pelo Real Madrid.

Após o jogo, falou sobre o que significava aquilo tudo:

“Foi incrível. Antes mesmo de acabar o jogo, já começaram a escorrer lágrimas, pensando em tudo que a gente passou. Foram 12 anos aqui. Eu vi o quanto o clube cresceu, o quanto amadureceu. Quantos jogadores passaram, lendas aqui, que não conseguiram esse troféu”.

Depois de tantos anos, hoje Marquinhos é o jogador com mais partidas pela equipe, com quase 550 jogos. Também é, atualmente, o brasileiro que mais vezes entrou em campo pela competição europeia, com 121 aparições. A 122° virá no próximo sábado, quando o Paris Saint-Germain tentará o bicampeonato contra o Arsenal.

A Champions League saiu da fila. A Copa do Mundo ainda não.

A primeira convocação foi ainda em 2013, na reta final da preparação da Copa do Mundo disputada no Brasil. Apesar da estreia, Marquinhos não teve espaço na lista final.

Assim, a estreia em Mundiais com a camisa do Brasil teve que esperar mais quatro anos. Em 2018, na Rússia, vinha de titularidade no ciclo, mas acabou sendo reserva durante a competição e atuou poucos minutos, contra o México, nas oitavas de final.

Na Copa do Mundo do Catar, em 2022, o cenário já era bem diferente. Titular absoluto ao lado do ex-companheiro de Paris Saint-Germain, Marquinhos já era uma das referências da Seleção. Nas quartas de final, contra a Croácia, foi um dos escolhidos para bater as penalidades e acabou perdendo sua cobrança.

“É inevitável trazer isso para você quando erra um pênalti. A dor da eliminação sendo protagonista é o conjunto de uma obra que acaba sendo mais difícil”, delcarou ele. 

Com 32 anos durante a Copa de 2026, chega à terceira participação como capitão e principal líder de um time que ainda busca um norte. São 24 anos sem vencer o torneio, igualando o maior jejum brasileiro.

Se não vencer este ano, é provável que essa seja uma geração marcada negativamente.  Mas o líder da seleção, que passou 12 anos lidando com as frustrações até erguer a sonhada Champions League, não pretende desperdiçar mais uma oportunidade.

O zagueiro Marquinhos durante o amistoso do Brasil contra a Croácia. Foto: Richard Callis
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