27 de setembro de 2007: o dia em que Marta derrubou os Estados Unidos e levou o Brasil à primeira final de uma Copa

Aos 21 anos, a brasileira marcou duas vezes na goleada por 4 a 0 sobre a maior potência do futebol feminino e comandou a melhor campanha da história da Seleção em um Mundial. Quase duas décadas depois, aquela atuação continua sendo uma das maiores demonstrações individuais já vistas em uma Copa do Mundo

Há partidas que permanecem importantes porque decidiram um campeonato, estabelecem recordes ou mudam a história de uma seleção. A semifinal da Copa do Mundo Feminina de 2007 entre Brasil e Estados Unidos conseguiu reunir tudo isso em 90 minutos. Em 27 de setembro de 2007, no Estádio do Dragão Amarelo, em Hangzhou, na China, a Seleção Brasileira venceu as norte-americanas por 4 a 0 e alcançou pela primeira vez uma final de Mundial. Leslie Osborne marcou contra, Cristiane fez um dos gols brasileiros e Marta marcou duas vezes em uma atuação que a própria FIFA passou a tratar como uma das mais marcantes da história da competição. Diante de 47.818 pessoas, o Brasil produziu uma vitória que continua sendo referência quase 20 anos depois.

O resultado já seria extraordinário por si só, mas o adversário ajuda a explicar sua dimensão. Os Estados Unidos chegaram àquela semifinal como uma das forças dominantes do futebol feminino mundial e estavam havia 51 partidas sem perder no tempo regulamentar. Tinham sido campeões mundiais em 1991 e 1999, campeões olímpicos em 1996 e 2004 e nunca haviam terminado uma Copa do Mundo abaixo do terceiro lugar. O Brasil, por outro lado, ainda procurava sua primeira decisão mundial, apesar de já ter uma geração com Marta, Cristiane, Formiga, Daniela, Renata Costa e outras jogadoras capazes de enfrentar qualquer seleção. O que aconteceu naquela noite não foi uma vitória apertada de uma equipe que resistiu à favorita, mas uma atuação em que o Brasil impôs seu futebol e provocou a maior derrota da história da seleção norte-americana.

Para Marta, então com apenas 21 anos, aquela partida acabou se transformando em uma síntese precoce do que sua carreira representaria. Técnica, velocidade, improvisação e capacidade de decidir apareceram em uma semifinal contra o adversário mais difícil possível, quando o Brasil buscava algo que nunca havia conseguido. Ela já era reconhecida internacionalmente e havia sido eleita pela FIFA a melhor jogadora do mundo em 2006, mas China 2007 ampliou sua dimensão para outro nível. Marta terminou aquele Mundial como Bola de Ouro de melhor jogadora e Chuteira de Ouro com sete gols, uma combinação que confirmou que a principal personagem da melhor campanha brasileira em Copas era uma jovem que ainda tinha quase toda a carreira pela frente.

Hoje, quando seu currículo inclui seis prêmios de melhor do mundo, o recorde de 17 gols em Copas, três medalhas olímpicas de prata, quatro títulos de Copa América e uma premiação da FIFA que leva seu próprio nome, pode parecer simples enxergar Marta como uma das maiores jogadoras da história. Em 2007, porém, boa parte dessa história ainda estava sendo construída. A semifinal contra os Estados Unidos foi um daqueles momentos em que o potencial se transformou diante do mundo em algo concreto e difícil de contestar. Não foi apenas uma grande partida de Marta em uma grande competição, mas uma atuação que ajudou a estabelecer a posição que ela ocuparia nas duas décadas seguintes.

O Brasil enfrentava uma seleção que quase nunca perdia

A Copa de 2007 já mostrava um Brasil diferente antes mesmo da semifinal. A equipe de Jorge Barcellos passou pela primeira fase com três vitórias, marcou dez gols e sofreu apenas dois, antes de eliminar a Austrália por 3 a 2 nas quartas de final. Marta chegou ao duelo com os Estados Unidos como uma das principais jogadoras do torneio, formando com Cristiane uma dupla ofensiva difícil de controlar e tendo ao redor uma equipe tecnicamente confortável para manter a bola e atacar. O Brasil não chegava a Hangzhou apenas como uma seleção que esperava surpreender, mas como uma equipe capaz de jogar de maneira agressiva mesmo diante das favoritas. A semifinal serviria para mostrar até onde aquela geração poderia chegar.

O tamanho do desafio era considerável. Os Estados Unidos haviam terminado a fase de grupos invictos e eliminado a Inglaterra por 3 a 0 nas quartas, além de carregarem uma sequência de 51 jogos sem derrota no tempo normal. A seleção tinha nomes como Abby Wambach, Kristine Lilly, Christie Rampone, Shannon Boxx e Heather O’Reilly, jogadoras acostumadas a disputar os principais títulos internacionais. A equipe norte-americana também havia derrotado o próprio Brasil por 2 a 0 em um amistoso apenas três meses antes do Mundial, em junho daquele ano. O retrospecto e a história recente, portanto, davam às norte-americanas motivos suficientes para entrar em campo com confiança.

Havia ainda uma discussão interna importante nos Estados Unidos. O técnico Greg Ryan decidiu tirar a goleira Hope Solo, titular ao longo da competição, e utilizar a veterana Briana Scurry, que possuía bom histórico contra o Brasil. A troca se tornaria uma das decisões mais debatidas do Mundial depois da eliminação, especialmente porque Solo havia sofrido apenas dois gols nas quatro partidas anteriores e criticaria publicamente a opção do treinador. O assunto acabou ocupando espaço considerável após o jogo, mas reduzir a goleada à escolha da goleira seria ignorar aquilo que aconteceu em campo. O Brasil não venceu por um erro pontual ou uma noite ruim de Scurry, mas porque conseguiu controlar o confronto e transformar sua superioridade em quatro gols.

A diferença começou a aparecer cedo. Aos 20 minutos, um escanteio brasileiro terminou com Leslie Osborne desviando contra o próprio gol, abrindo o placar. Sete minutos depois, Marta recebeu pela direita, levou a jogada para dentro e finalizou de esquerda da entrada da área para fazer 2 a 0. A vantagem antes da meia hora mudou completamente a dinâmica da semifinal e colocou os Estados Unidos em uma situação à qual não estavam acostumados. O Brasil podia explorar espaços sem abandonar a iniciativa, enquanto Marta encontrava cada vez mais possibilidades para atacar uma defesa que precisava se expor.

A situação norte-americana piorou no fim do primeiro tempo, quando Shannon Boxx recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulsa. É importante lembrar esse contexto porque o Brasil jogou toda a segunda etapa com uma atleta a mais, mas a expulsão aconteceu quando a Seleção já vencia por 2 a 0 e havia construído sua vantagem em igualdade numérica. Aos 56 minutos, Cristiane marcou o terceiro, aproveitando a dificuldade cada vez maior dos Estados Unidos para controlar as transições brasileiras. O restante da partida ofereceu espaço para o Brasil administrar a vantagem, mas Marta e suas companheiras continuaram atacando. Essa escolha produziria o lance que passou a representar aquele jogo.

Marta fez dois gols, mas o quarto transformou a atuação em uma imagem histórica

Aos 79 minutos, Marta recebeu a bola próxima à lateral esquerda com Tina Ellertson nas costas. Em vez de simplesmente proteger a posse ou recuar, utilizou um toque de calcanhar para escapar da primeira marcação, recuperou o domínio, entrou na área, mudou de direção diante da defesa e finalizou rasteiro com a perna direita. A jogada reuniu em poucos segundos várias das características que acompanharam toda sua carreira: capacidade técnica em espaço curto, improvisação, aceleração depois do drible e confiança para concluir com o pé menos utilizado. Era o quarto gol brasileiro e o segundo de Marta naquela semifinal. A partida já estava praticamente decidida, mas aquele lance deu ao placar uma imagem que sobreviveria muito além do resultado.

A própria Marta passou a tratar aquele gol como o melhor de sua carreira. Em entrevista recuperada pela FIFA anos depois, ela afirmou que a semifinal de 2007 permanece como sua melhor lembrança em Copas e considerou aquela também a melhor atuação da Seleção Brasileira em um Mundial. Ao descrever o segundo gol, destacou justamente a jogada criada em espaço reduzido e a finalização com a direita depois de superar as defensoras norte-americanas. Não se trata, portanto, apenas de uma interpretação feita posteriormente por torcedores ou jornalistas. Para uma jogadora que marcou centenas de gols e disputou algumas das maiores competições do futebol, aquele permanece como seu momento individual mais especial.

A percepção das adversárias ajuda a compreender o impacto da atuação. Carli Lloyd, que entrou no segundo tempo e mais tarde seria duas vezes eleita a melhor jogadora do mundo, lembrou que Marta conseguiu levantar o estádio praticamente sozinha e a descreveu como uma jogadora extraordinária em habilidade, presença e controle da bola. Greg Ryan, treinador dos Estados Unidos, também reconheceu depois que era difícil planejar uma marcação capaz de antecipar aquilo que Marta fazia. A goleada permaneceu como a maior derrota da história da seleção norte-americana, uma equipe que continuaria acumulando títulos mundiais e olímpicos nas décadas seguintes. Isso coloca o 4 a 0 brasileiro em uma dimensão que vai além da campanha de 2007.

Também é importante não transformar a atuação de Marta em uma história que apague suas companheiras. O Brasil tinha uma geração excepcional, e a vitória foi construída por uma equipe que conseguiu controlar o meio-campo, defender sem abandonar a capacidade de atacar e aproveitar a mobilidade de Marta e Cristiane. Formiga já era uma referência no setor central, Cristiane tinha enorme capacidade de finalização e Daniela foi uma das jogadoras mais importantes daquela campanha. A própria Marta sempre tratou aquele jogo como um momento coletivo da Seleção, não apenas como uma apresentação individual. Sua atuação se tornou tão lembrada justamente porque aconteceu dentro de uma das melhores exibições que o futebol feminino brasileiro já produziu.

A final não trouxe o título, mas 2007 continua sendo a melhor Copa do Brasil

Três dias depois, o Brasil entrou em campo em Xangai para enfrentar a Alemanha na decisão. A seleção alemã defendia o título conquistado em 2003 e havia atravessado todo o torneio sem sofrer gols, característica que se manteria até o fim. Birgit Prinz abriu o placar aos sete minutos do segundo tempo, e o Brasil teve sua principal oportunidade para empatar quando Cristiane sofreu um pênalti. Marta assumiu a cobrança, mas Nadine Angerer defendeu, e Simone Laudehr marcou perto do fim para confirmar a vitória alemã por 2 a 0. A Alemanha tornou-se a primeira seleção a conquistar duas Copas do Mundo Femininas consecutivas, enquanto o Brasil terminou com o vice-campeonato.

A derrota impediu aquela geração de conquistar o título que parecia possível depois da atuação contra os Estados Unidos, mas não diminuiu a importância da campanha. Até hoje, o segundo lugar de 2007 continua sendo a melhor colocação do Brasil em uma Copa do Mundo Feminina. Marta terminou a competição com sete gols e recebeu tanto a Chuteira de Ouro quanto a Bola de Ouro, prêmio entregue à melhor jogadora do Mundial. Ela tinha 21 anos e já deixava uma Copa com os dois maiores reconhecimentos individuais possíveis, além da participação direta na primeira decisão brasileira.

A ausência do título mundial acabou se tornando uma das poucas lacunas no currículo de Marta. Ela disputaria mais quatro Copas depois de 2007, mas o Brasil nunca voltaria à final durante sua trajetória no torneio. Em 2019, chegou aos 17 gols em Mundiais, recorde que permanece acima de qualquer outro jogador ou jogadora na história das Copas da FIFA. Ao todo, esteve em seis edições, de 2003 a 2023, e disputou 23 partidas na competição. O fato de nunca ter levantado o troféu não diminui esses números, mas ajuda a explicar por que a lembrança da China permanece tão presente quando ela fala sobre sua carreira.

A história da seleção também tornou aquela semifinal ainda mais importante com o passar do tempo. Em outras gerações, o Brasil teve equipes competitivas, chegou perto e revelou novas jogadoras, mas nenhuma conseguiu repetir a presença na final. A vitória por 4 a 0 permanece, portanto, associada ao ponto máximo alcançado pela Seleção em uma Copa. Em agosto de 2026, a própria FIFA voltou a incluir o jogo entre as cinco vitórias mais importantes da história brasileira no torneio. A proximidade da Copa de 2027, que será disputada em território brasileiro, devolveu aquela campanha ao centro da discussão sobre o que a Seleção ainda tenta alcançar.

A carreira que veio depois colocou Marta entre os maiores nomes da história do futebol

A semifinal de Hangzhou pode ser utilizada como uma fotografia da grandeza de Marta, mas sua dimensão no futebol não depende de uma única noite. Ela foi eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo pela FIFA, vencendo em 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e novamente em 2018. Nenhuma outra jogadora acumulou tantos reconhecimentos individuais da entidade. No Mundial, seus 17 gols estabeleceram um recorde que considera tanto a competição feminina quanto a masculina, e ela se tornou a primeira pessoa a marcar em cinco edições diferentes de uma Copa do Mundo. São marcas construídas em períodos distintos, enfrentando gerações diferentes e atravessando mudanças profundas no próprio futebol feminino.

Pela Seleção, o currículo coletivo também é extenso. Marta conquistou três medalhas olímpicas de prata, em Atenas 2004, Pequim 2008 e Paris 2024, além de ter sido campeã dos Jogos Pan-Americanos em 2003 e 2007. Em 2025, depois de já ter conquistado a Copa América em 2003, 2010 e 2018, voltou à competição e ajudou o Brasil a conquistar mais um título, seu quarto continental. A final contra a Colômbia ofereceu outro exemplo impressionante de longevidade: aos 39 anos, saiu do banco, marcou dois gols no empate por 4 a 4 e foi eleita a melhor jogadora do torneio depois da vitória brasileira nos pênaltis. Entre o primeiro título continental e o mais recente, passaram-se 22 anos.

Sua carreira por clubes também atravessou diferentes centros do futebol feminino. Marta foi campeã na Suécia e construiu longa trajetória nos Estados Unidos, onde se tornou uma das figuras mais importantes da história do Orlando Pride. Em 2024, já aos 38 anos, foi capitã do time que conquistou pela primeira vez o NWSL Shield e o campeonato da NWSL, encerrando uma das melhores temporadas da história da equipe. Foi escolhida para o time ideal da liga e, posteriormente, para o FIFPRO World 11. O Orlando renovou seu contrato até o fim de 2026, mantendo em atividade uma jogadora que começou a disputar competições internacionais de elite no início dos anos 2000.

Talvez o reconhecimento mais simbólico tenha surgido fora de uma competição específica. A FIFA criou o Prêmio Marta, destinado ao gol mais bonito do ano no futebol feminino, transformando seu nome em uma homenagem permanente às futuras gerações. Na primeira edição, referente a 2024, a própria Marta venceu com um gol marcado pela Seleção contra a Jamaica. É raro que uma atleta ainda em atividade veja seu nome incorporado oficialmente a um prêmio internacional da modalidade que disputa. No caso de Marta, isso aconteceu porque sua influência ultrapassou a quantidade de gols, títulos e premiações individuais acumulados ao longo da carreira.

Essa grandeza também precisa ser entendida dentro da história do futebol feminino brasileiro. Marta nasceu em Dois Riachos, em Alagoas, em 1986, e começou a carreira em um ambiente muito diferente daquele encontrado pelas jogadoras atuais. O futebol feminino brasileiro havia passado décadas enfrentando proibições, pouca estrutura, escassez de competições e visibilidade reduzida, e mesmo a geração de 2007 trabalhava em condições bastante inferiores às existentes em algumas das principais seleções adversárias. Marta não resolveu sozinha esses problemas estruturais, mas tornou-se a figura brasileira mais reconhecida internacionalmente em uma época fundamental para a expansão da modalidade. Seu sucesso ajudou a demonstrar, dentro e fora do país, que uma brasileira poderia ocupar durante anos o centro do futebol mundial.

A Copa de 2027 torna aquela semifinal ainda mais atual

A lembrança de 2007 ganha um significado diferente agora porque o Brasil se prepara para receber a Copa do Mundo Feminina de 2027, a primeira edição do torneio realizada na América do Sul. A competição acontecerá de 24 de junho a 25 de julho em oito cidades: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. O Maracanã receberá a abertura e a final, enquanto a Seleção disputará seus três jogos da fase de grupos no Rio, em São Paulo e em Brasília. Pela primeira vez, uma geração brasileira poderá disputar um Mundial inteiro tendo o próprio país como cenário.

O objetivo continua sendo justamente superar aquilo que Marta e suas companheiras fizeram na China. O Brasil ainda não conquistou a Copa do Mundo Feminina, e o vice de 2007 permanece como o melhor resultado nacional. A diferença é que a equipe de 2027 entrará em campo em um futebol feminino muito mais estruturado, profissionalizado e acompanhado do que aquele de duas décadas atrás. Parte desse crescimento foi construído pelas gerações que tiveram de conquistar espaço quando a modalidade recebia atenção muito menor, e Marta tornou-se o rosto mais reconhecido desse processo. Recordar a semifinal de Hangzhou, portanto, também ajuda a compreender de onde vem parte da expectativa que existirá sobre a próxima Seleção.

Em 27 de setembro de 2007, o Brasil não ganhou uma Copa do Mundo. Ainda faltava a Alemanha, e a final terminaria com uma das derrotas mais dolorosas da história da Seleção. O que aconteceu contra os Estados Unidos foi diferente: foi a demonstração de que o Brasil podia enfrentar a maior potência da modalidade e dominá-la em uma semifinal de Mundial, com uma jovem de 21 anos produzindo uma atuação que continua sendo lembrada quase duas décadas depois. Marta ainda conquistaria títulos, quebraria recordes, disputaria outras cinco Copas e se tornaria uma referência mundial muito maior do que já era naquela noite. Quando se procura um jogo que explique por que ela ocupa um lugar tão alto na história do futebol, porém, é difícil encontrar um exemplo melhor do que aqueles 90 minutos em Hangzhou.

Sair da versão mobile