
Faltam pouco mais de 40 dias para a próxima Copa do Mundo. Em outros tempos, isso já seria suficiente para mudar o humor das ruas no Brasil. Bandeiras começariam a aparecer nas janelas, alguns bares pintariam as calçadas de verde e amarelo e alguém já estaria discutindo qual seria a escalação ideal da seleção. Mas há alguns anos isso tem mudado.
Uma pesquisa do Datafolha divulgada na última quarta-feira (15/4) mostra que 54% dos brasileiros dizem não ter interesse em assistir aos jogos do Mundial. É o maior índice de desinteresse registrado desde que o levantamento começou a ser feito, em 1994. Na prática, significa que mais da metade do país não está empolgada com o torneio que, durante décadas, foi tratado quase como um evento nacional.
A Copa de 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato, teve o cenário oposto. Na época, 56% dos entrevistados diziam ter grande interesse na competição. Apenas 20% demonstravam pouco ou nenhum entusiasmo.
Os números levantam uma pergunta difícil de responder, mas impossível de ignorar. O que aconteceu com a relação do brasileiro com a seleção?
Conexão perdida
A explicação mais simples seria o desempenho esportivo. O Brasil não vence uma Copa do Mundo desde 2002 e coleciona eliminações frustrantes desde então.
Mas talvez essa resposta seja curta demais.
Ganhar a Copa nunca foi fácil para ninguém. Diversas seleções tradicionais passam décadas sem levantar o troféu. Algumas conquistaram apenas um título em toda a sua história. Mesmo assim, em muitos países a paixão permanece intacta.
No caso brasileiro, o distanciamento parece ter outras camadas. Nos últimos anos, muitos torcedores passaram a sentir uma falta de identificação com a seleção. Jogadores que atuam quase exclusivamente no exterior, convocações que frequentemente tiram atletas dos clubes brasileiros em momentos importantes da temporada e uma equipe que raramente joga diante da torcida no país criaram um cenário de afastamento.
Quando a seleção vem ao país, muitas vezes os jogos acontecem em estádios caros e pouco acessíveis para grande parte da população. As arquibancadas até lotam, mas a sensação de pertencimento que sempre cercou a seleção parece menor.
É como se o time nacional tivesse se tornado algo mais distante do cotidiano do torcedor.
Transformação cultural
O futebol sempre foi mais do que esporte no Brasil. Ele ocupa um espaço cultural difícil de explicar para quem olha de fora.
Durante décadas, jogos da seleção paralisaram cidades inteiras. Escolas suspendiam aulas, empresas liberavam funcionários e bares ficavam lotados.
As ruas pintadas de verde e amarelo viraram uma imagem clássica das Copas do Mundo. Hoje, essa cena nem existe mais.
Parte disso pode estar ligada às transformações do próprio país. O futebol deixou de ser o único grande entretenimento coletivo. As redes sociais, os serviços de streaming e a globalização do esporte mudaram a forma como as pessoas acompanham jogos e campeonatos.
Ao mesmo tempo, o calendário internacional faz com que muitos brasileiros acompanhem mais seus clubes ou times europeus do que a própria seleção e a relação emocional que antes parecia automática talvez esteja se enfraquecendo.
Ainda faltam algumas semanas para o início da Copa e muita coisa pode mudar. Uma boa campanha costuma reacender paixões rapidamente.
Mas o dado revelado pela pesquisa deixa um sinal de alerta. Pela primeira vez, o país mais vencedor da história do Mundial demonstra um desinteresse majoritário pela competição.
Talvez não seja apenas uma fase. Talvez seja o sintoma de uma relação que precisa ser reconstruída.
Porque, no Brasil, a seleção sempre foi mais do que um time. Ela era um símbolo coletivo, algo capaz de unir pessoas muito diferentes por alguns minutos diante da televisão. Se essa conexão realmente estiver se perdendo, a pergunta que fica não é apenas por que isso aconteceu. É quem vai conseguir trazê-la de volta.