O último jogo de Pelé: quando o Rei dividiu a despedida entre Santos e Cosmos

Em 1º de outubro de 1977, Pelé entrou em campo pela última vez como jogador profissional. A despedida aconteceu no Giants Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, diante de 75.646 pessoas e de uma audiência internacional que acompanhava um evento pensado para reunir as duas partes mais importantes de sua trajetória em clubes. De um lado estava o Santos, onde ele havia surgido ainda adolescente, se transformado no maior jogador brasileiro de sua geração e construído boa parte de sua história. Do outro, o New York Cosmos, equipe que o havia tirado de uma primeira aposentadoria em 1975 e colocado no centro de uma tentativa ambiciosa de popularizar o futebol nos Estados Unidos. Pelé jogou o primeiro tempo pelo Cosmos, vestiu a camisa do Santos no intervalo e voltou para os 45 minutos finais defendendo o clube brasileiro. Era um amistoso no calendário, mas pouco naquela tarde tinha realmente o caráter de um jogo comum.

A importância daquela despedida começava muito antes do apito inicial. Pelé já havia encerrado sua trajetória competitiva pouco mais de um mês antes, quando o Cosmos venceu o Seattle Sounders por 2 a 1 e conquistou o Soccer Bowl de 1977, título da North American Soccer League. Ele poderia ter terminado a carreira ali, campeão, depois de três temporadas nos Estados Unidos. A partida contra o Santos tinha outra função: permitir que o jogador encerrasse a carreira diante dos dois clubes que representavam épocas completamente diferentes de sua vida e, ao mesmo tempo, transformasse sua aposentadoria em um acontecimento internacional. O Cosmos já havia anunciado que aquela seria a última apresentação de Pelé, e o formato de um tempo por equipe foi preparado justamente para que nenhuma das duas histórias ficasse de fora. O resultado esportivo importava, mas estava subordinado ao significado daquele encontro.

Um estádio cheio para uma despedida

O Giants Stadium recebeu 75.646 pessoas, segundo os registros oficiais do New York Cosmos, mesmo com o mau tempo que marcaria principalmente a parte final da tarde. O público ajuda a dimensionar o tamanho que Pelé havia alcançado nos Estados Unidos em apenas três anos. Quando chegou ao país, em 1975, o futebol ainda ocupava um espaço relativamente pequeno no mercado esportivo norte-americano, e sua contratação representou uma mudança brusca de exposição para a NASL. A U.S. Soccer registra que a passagem do brasileiro foi seguida por um salto de público e pela expansão da liga, enquanto a própria FIFA aponta que sua presença transformou o Cosmos em uma equipe cercada por celebridades e atraiu outros grandes nomes internacionais. Franz Beckenbauer e Carlos Alberto Torres, por exemplo, jogaram ao lado dele em Nova York, dentro de um projeto que misturava futebol, entretenimento e a tentativa de criar uma nova cultura esportiva no país.

A cerimônia antes do jogo procurava reconhecer exatamente essa dimensão. Muhammad Ali estava no estádio e apareceu ao lado de Pelé durante as homenagens; Bobby Moore também participou do evento. Dondinho, pai do jogador, acompanhava a despedida, e Jeff Carter, filho do então presidente norte-americano Jimmy Carter, entregou uma placa a Pelé em reconhecimento à sua contribuição durante os anos em que atuou pelo Cosmos. As imagens registradas naquela tarde mostram um evento que já havia ultrapassado os limites de uma partida de futebol e se transformado em uma cerimônia pública de despedida. Pelé falou ao público antes de o jogo começar e voltou a um tema que já havia utilizado em outros momentos de sua carreira, pedindo atenção às crianças e repetindo a palavra “amor” diante da multidão. Ele chorou durante a homenagem antes mesmo de a bola rolar.

Não era apenas uma celebração de um jogador que havia decidido parar. Aos 36 anos, a poucos dias de completar 37, Pelé carregava uma carreira que já incluía três Copas do Mundo com a Seleção Brasileira, a transformação do Santos em uma equipe conhecida internacionalmente e uma presença pública que tinha ultrapassado o ambiente esportivo. O futebol norte-americano não se tornou imediatamente uma potência por causa dele, e a NASL enfrentaria problemas graves poucos anos depois, mas sua passagem deixou uma referência concreta sobre o potencial do esporte naquele mercado. A U.S. Soccer considera que sua chegada ajudou a estabilizar a liga e a ampliar o interesse nacional pelo futebol, além de incentivar a contratação de outros astros mundiais. O enorme público reunido para uma partida amistosa de despedida era também consequência dessa transformação. Pelé não havia apenas jogado pelo Cosmos; ele havia se tornado o rosto de um projeto de expansão do futebol no país.

O Santos começou melhor

Quando a bola finalmente rolou, Pelé iniciou a partida usando a camisa do Cosmos. Do outro lado estava um Santos bastante diferente daquele que ele havia comandado durante os anos de maior sucesso do clube, mas ainda carregando o peso de ser a equipe à qual seu nome permaneceria ligado para sempre. O time brasileiro abriu o placar aos 14 minutos, com Reinaldo, e durante boa parte da primeira etapa conseguiu controlar bem o jogo. O Cosmos tinha nomes importantes como Beckenbauer, Carlos Alberto Torres e Giorgio Chinaglia, mas a situação esportiva daquela tarde era incomum até para jogadores acostumados a grandes eventos. Todos sabiam que cada toque de Pelé seria observado de maneira diferente, porque não haveria outra partida depois daquela. Ainda assim, durante boa parte dos primeiros 45 minutos, seu último jogo seguia sem o último gol.

Isso mudou perto do intervalo. O Cosmos avançava em busca do empate quando Alfredo Mostarda interrompeu uma jogada com falta, provocando vaias de parte do público. A distância era considerável, cerca de 30 jardas, e o goleiro santista Ernani organizou uma barreira pequena, com apenas dois jogadores. Pelé foi para a cobrança e bateu forte, por baixo, direcionando a bola para o canto esquerdo. Ernani não conseguiu chegar nela. O placar passava a marcar 1 a 1, e aquele seria o último gol da carreira profissional de Pelé.

O detalhe do gol é importante justamente porque não houve qualquer tentativa de transformar a despedida em uma encenação esportiva. Pelé não recebeu um pênalti simbólico, não teve a partida interrompida para uma finalização preparada e não precisou de um adversário colaborando para que saísse de campo com um último gol. Era uma falta real, cometida durante o jogo, em uma distância que exigia força e precisão. O Santos ainda vencia naquele momento, e o empate do Cosmos tinha valor dentro da partida. Para um jogador que havia construído parte de sua reputação fazendo gols das maneiras mais variadas possíveis, a última bola na rede veio de um recurso que continuava fazendo parte de seu repertório aos 36 anos. O gol também se tornou o último de sua passagem regular pelo Cosmos e encerrou sua produção ofensiva como profissional. O clube norte-americano registra aquela cobrança como o 1.283º e último gol de sua carreira segundo a contagem histórica adotada pela instituição.

No intervalo, Pelé trocou de lado

O intervalo produziu uma das imagens que explicam por que aquela partida continua tão lembrada. Pelé deixou o uniforme do Cosmos e voltou ao gramado vestindo a camisa branca do Santos, entrando no lugar de Aílton Lira. Em um único jogo, sua trajetória profissional havia sido organizada em duas metades. Primeiro, o clube que representava seus últimos anos como jogador e sua experiência norte-americana; depois, o time no qual havia passado praticamente toda a carreira anterior e construído a maior parte de sua história. A mudança não era apenas um recurso de cerimônia: Pelé efetivamente passou a enfrentar os jogadores com quem havia dividido o primeiro tempo. Para o público, isso permitia acompanhar a despedida sem obrigá-lo a escolher qual camisa deveria representar aquele momento.

Mesmo em uma partida festiva, Pelé não passou o segundo tempo apenas caminhando pelo campo ou esperando o encerramento. Os relatos do Santos registram que ele participou de tabelas, tentou finalizações e se movimentou na tentativa de ajudar o clube brasileiro a buscar o resultado. Aos quatro minutos da etapa final, porém, o peruano Ramón Mifflin marcou para o Cosmos e virou o placar para 2 a 1. Curiosamente, Mifflin havia entrado justamente no lugar de Pelé na equipe norte-americana. A partir dali, o Santos tentou reagir, e Pelé participou de algumas das jogadas ofensivas, mas o empate não aconteceu. O Cosmos venceu por 2 a 1, resultado que entrou para a história, embora dificilmente alguém tenha saído daquele estádio tratando o placar como a parte mais importante do dia.

A chuva, que já fazia parte da tarde, ficou ainda mais intensa durante a segunda etapa. O gramado, as arquibancadas e os jogadores terminaram a partida sob uma tempestade, mas boa parte do público permaneceu no estádio para acompanhar os últimos minutos. Quando o árbitro encerrou o jogo, jogadores do Santos e do Cosmos se reuniram em torno de Pelé. Ele foi erguido pelos companheiros e levado pelo campo durante a volta de despedida, enquanto segurava bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos. As fotografias daquela cena, com Pelé sendo carregado sob a chuva, acabariam se tornando algumas das imagens mais reconhecíveis de sua aposentadoria. O placar indicava uma vitória do Cosmos, mas a cerimônia final já não distinguia vencedores e derrotados.

Ali, Santos, Cosmos e um jogador que já pertencia a mais de um país

Muhammad Ali voltou a encontrar Pelé no gramado durante as homenagens e o abraçou diante das câmeras. A presença do boxeador ajuda a compreender o alcance cultural daquele evento, porque Ali era uma das poucas figuras esportivas do período cuja projeção internacional podia ser comparada à de Pelé. Segundo o relato preservado pelo Santos, o norte-americano disse ao brasileiro que os dois eram “os maiores do mundo”. Não é necessário transformar a frase em uma disputa sobre quem ocupava determinado lugar na história do esporte para perceber o que aquela aproximação representava. Dois atletas negros, vindos de contextos muito diferentes, haviam se tornado personagens conhecidos muito além das modalidades que praticavam. A despedida de Pelé reunia exatamente esse tipo de reconhecimento público.

Para o Santos, aquela tarde também encerrava formalmente uma relação esportiva que havia começado mais de duas décadas antes. Pelé estreou pelo clube ainda adolescente e participou de uma era em que a equipe conquistou títulos nacionais, continentais e mundiais, além de realizar excursões que ajudaram a tornar o futebol brasileiro conhecido em diferentes países. Quando voltou a vestir a camisa branca no segundo tempo em Nova Jersey, não estava retornando para iniciar outro capítulo daquela história. Era justamente o contrário: estava encerrando-o diante de um público que incluía brasileiros, norte-americanos e espectadores de muitos outros lugares acompanhando pela televisão. O Santos perderia a partida, mas recuperava Pelé por 45 minutos para que sua carreira terminasse com a camisa que mais havia usado. Foi uma despedida construída de maneira incomum, mas coerente com uma trajetória que já era internacional muito antes de ele chegar aos Estados Unidos.

O Cosmos, por sua vez, encerrava a passagem do jogador que havia mudado a escala do próprio clube. Antes de Pelé, a equipe fazia parte de uma liga que lutava para ganhar espaço em um país dominado por outras modalidades. Durante sua passagem, jogos do Cosmos passaram a reunir dezenas de milhares de pessoas, celebridades começaram a aparecer nas arquibancadas e grandes jogadores europeus e sul-americanos aceitaram participar do projeto. Em 1977, o clube chegou ao título da NASL e transformou o Giants Stadium em um dos principais centros daquele breve período de crescimento do futebol profissional norte-americano. A influência de Pelé não resolveu os problemas estruturais que levariam a liga ao declínio posteriormente, mas demonstrou que havia público para o esporte quando ele era apresentado com jogadores, promoção e organização capazes de atrair atenção. Décadas depois, esse período continuaria sendo utilizado como referência sempre que outra estrela mundial chegasse ao futebol dos Estados Unidos.

A despedida de alguém que já havia mudado o futebol

Pelé encerrou a carreira em um momento em que sua importância já não dependia de qualquer resultado futuro. Ele havia vencido as Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970 com o Brasil, se tornado a principal figura da geração mais vitoriosa da história da Seleção até aquele momento e construído com o Santos uma carreira que ajudou a definir a imagem internacional do futebol brasileiro. Sua ida aos Estados Unidos acrescentou uma etapa diferente a esse percurso. Já não era necessário provar que podia ser campeão ou decidir grandes jogos; o desafio era utilizar sua presença para ampliar o alcance de um esporte que ainda tentava se estabelecer no país. A enorme atenção gerada pelo Cosmos durante aqueles anos mostra que esse objetivo foi alcançado ao menos em parte, ainda que o crescimento não tenha sido linear depois de sua aposentadoria.

Por isso, a partida de 1º de outubro de 1977 continua relevante mesmo quase meio século depois. Ela permite observar Pelé não apenas como o jogador dos gols, dos títulos e das Copas do Mundo, mas como alguém cuja carreira ajudou a conectar diferentes períodos e diferentes mercados do futebol. O garoto que havia começado no Santos terminou diante de mais de 75 mil pessoas em Nova Jersey, depois de transformar o Cosmos em um dos clubes mais conhecidos daquele momento. Jogou um tempo por cada equipe porque sua história já não podia ser representada por apenas uma delas. Marcou seu último gol em uma cobrança de falta, tentou ajudar o Santos no segundo tempo e terminou a tarde carregado pelos jogadores dos dois lados. O futebol continuou sem Pelé em campo a partir daquele dia, mas boa parte do que ele havia ajudado a construir continuou presente muito depois de sua última partida.

O que Pelé já havia conquistado quando se despediu

Quando entrou em campo pela última vez, em 1º de outubro de 1977, Pelé já carregava uma coleção que ajuda a explicar por que sua despedida ganhou dimensão mundial. Pela Seleção Brasileira, havia conquistado as Copas de 1958, 1962 e 1970, além de títulos como Copa Roca, Taça Oswaldo Cruz, Taça Bernardo O’Higgins e Taça do Atlântico. Com o Santos, foram seis Campeonatos Brasileiros, duas Libertadores, dois Mundiais Interclubes, dez Campeonatos Paulistas, três Rio-São Paulo, além da Recopa Sul-Americana e da Recopa Mundial. Nos Estados Unidos, encerrou a trajetória competitiva conquistando a NASL de 1977 pelo New York Cosmos. Individualmente, foi 11 vezes artilheiro do Campeonato Paulista e chegou à aposentadoria carregando vários recordes estabelecidos ainda aos 17 anos na Copa do Mundo de 1958, entre eles o de jogador mais jovem a marcar e a ser campeão mundial.

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