
Um ano depois de chegar ao Wolfsburg para disputar a Bundesliga, Vinícius Souza vive um cenário bem diferente daquele que imaginava ao desembarcar na Alemanha. O tradicional clube alemão acabou rebaixado depois de 29 temporadas seguidas na primeira divisão e agora tenta reconstruir o caminho de volta à elite. No centro desse processo está um jogador que também busca uma transformação particular.
Aos 27 anos, o volante ganhou mais liberdade para avançar no campo e os números mostram que a mudança tem dado resultado: em sete jogos na temporada, já soma dois gols, mesma marca do melhor ano da carreira, em 2022.
Em entrevista exclusiva ao Doentes por Futebol, o brasileiro explicou que enxerga nessa evolução ofensiva uma maneira de se tornar um jogador mais completo e moderno e, consequentemente, aumentar as chances de entrar no radar da Seleção Brasileira.
Mas, por ora, o foco está voltado para o clube e para a briga pelo acesso, cenário bem diferente do imaginado. Na temporada 25-26, os Lobos haviam montado uma equipe com outras expectativas, mas terminaram rebaixados para a Bundesliga 2. Para Vini, a queda provocou uma mudança profunda no ambiente do clube.
— Mudou, mudou 100% tudo. Tanto em relação aos jogadores quanto ao staff. Quando a gente voltou, eram totalmente caras novas, e isso já deu uma motivação a mais para a gente. A ideia, não só no profissional, mas ao redor do clube também, mudou bastante.
A pressão não ficou restrita ao campo. A cidade de Wolfsburg tem cerca de 130 mil habitantes e o humor da população está diretamente ligado aos resultados do clube. Com o rebaixamento, os jogadores sentiram de perto a insatisfação da torcida.
— Aqui teve de tudo. O torcedor entende bem? Não, nem um pouco. E é super normal, lógico. Eu já não saio muito de casa, então para mim fica mais fácil. Mas a cidade gira em torno do clube. Todo mundo te conhece, todo mundo sabe onde você está, onde você mora.
Para o brasileiro, a reação era compreensível diante do tamanho da frustração. O Wolfsburg havia sido montado para olhar para a parte de cima da tabela, não para enfrentar um rebaixamento.
Agora, a prioridade é clara. Apesar de ter contrato até 2030 e já ter despertado interesse de outros clubes após a queda, Vini diz que não projeta o próximo passo da carreira antes de tentar recolocar o Wolfsburg na Bundesliga.
— Acho que o foco agora é tentar subir com o clube e depois ver o que vai acontecer. Mas na minha cabeça agora só tem que subir de novo com o clube. A gente sabe que não vai ser fácil. As pessoas acham que a segunda liga é fácil, mas não é nem um pouquinho.
Mais liberdade, gols e um olho na Seleção
O desafio coletivo coincide com uma mudança no jogo de Vini Souza. Durante boa parte da carreira europeia, o volante teve sempre mais responsabilidades defensivas, responsável principalmente por proteger a retaguarda das equipes. Agora, passou a receber liberdade para atacar espaços e chegar mais perto da área.
Os primeiros resultados apareceram em forma de gols.
— Nos últimos três anos eu vinha com formação diferente, tinha que ser aquele número seis na Europa, cinco no Brasil, fixo, sair menos, proteger mais a defesa. Então fica muito difícil ter essa finalização longe da área.
Com a mudança de função, Vini passou a aparecer mais no campo ofensivo. E é justamente nesse ponto que ele identifica um caminho para aproximar seu futebol das características exigidas atualmente de meio-campistas que chegam à Seleção.
A reformulação de Carlo Ancelotti começou e os titulares da posição nos primeiros amistosos foram Bruno Guimarães e Danilo, exemplos de jogadores capazes de defender, avançar e participar diretamente de gols. Vini reconhece que adicionar essa dimensão ao próprio jogo pode fazer diferença.
— Com certeza. Acho que ser um volante 100% completo, que pode defender, mas também fazer gols, ajudar a equipe nesses momentos. É uma coisa que eu já venho trabalhando bastante, particularmente, e está vindo de pouco a pouco, graças a Deus.
O volante também percebeu como os gols alteram a visibilidade de um jogador.
— Fazendo gol, você sai em todo lugar do mundo. E esses dois últimos jogos em que pude fazer o gol, já notei uma diferença. Então estou com essa fominha de gol também.
Se o objetivo é se tornar mais completo, as referências são algumas das maiores da posição nos últimos anos. Vini coloca Sergio Busquets como principal inspiração e Rodri como referência atual.
— Não tem comparação. Ele era um jogador que também não fazia gol, mas tudo passava por ele. Acho que o Busquets foi fantástico. O Rodri tem cem toques por jogo, dois, três erros. As pessoas falam que só toca para o lado, mas tem que assistir o futebol de outra forma um pouco. Acho que ele consegue, tanto ofensivamente quanto defensivamente, ser completo.
Mas, na hora de escolher entre um ou outro, a idolatria e o confronto dentro de campo falam mais alto.
— Eu fico com o Busquets. Ele pode ganhar mais duas Bolas de Ouro que eu ainda fico com o Busquets. Eu joguei contra ele também, vi de perto, então não tem como.
Da Bélgica à Alemanha: “A Premier League está na frente de todo mundo”
Os confrontos com o ex-jogador do Barcelona aconteceram em La Liga, quando o brasileiro atuava pelo Espanyol. Essa foi uma das muitas experiências de Vini pelos gramados europeus.
Revelado pelo Flamengo em 2019, Vini deixou o Brasil no ano seguinte, ainda jovem, e passou por Bélgica, Espanha e Inglaterra antes de chegar à Alemanha.
Nestes seis anos de Velho Continente, a experiência em quatro países diferentes permitiu ao volante construir uma espécie de mapa das características de cada escola.
Na Bélgica, enxerga um ambiente particularmente favorável ao desenvolvimento de jovens. Na Espanha, encontrou um futebol mais posicional e que exige leitura do jogo. Na Alemanha, chamou sua atenção a velocidade com que as equipes procuram o ataque.
Mas é a Inglaterra que ocupa o primeiro lugar na preferência.
— A Premier League, para mim, tem um pouquinho de cada liga. A agressividade da Alemanha, os contra-ataques da Alemanha, o pensamento… Só que eles conseguem juntar tudo e colocar na mesma prateleira. A Premier League, para mim, está na frente de todo mundo.
Já a Bundesliga é responsável por surpreender o jogador. O fato de todas as equipes buscarem o gol constantemente foi o que mais chamou atenção.
— Você não vê um time recuperar a bola e jogar para trás. Eles vão para frente, fazem gol, fazem mais um, vão atrás. Saem muitos gols na Bundesliga. E não é por um erro defensivo. Pode ser um erro na frente que gerou um contra-ataque e terminou em gol.
A comparação ganha ainda mais peso porque Vini também conheceu a Premier League dentro de campo. Foram 36 partidas na competição pelo Sheffield United antes de disputar também a Championship pelo clube inglês.
Apesar das constantes mudanças de país, idioma, clima e estilo de jogo, ele diz nunca ter encontrado grandes problemas para se adaptar, mesmo em Manchester, cidade conhecida pelo clima frio e chuvoso.
— Eu me adapto fácil. Você pode me deixar em qualquer lugar. Eu venho de Bangu, então fica fácil. Fui para Manchester, dia cinzento, mas para mim nada mudou. O frio a gente tira de letra. Comida brasileira tem em todo lugar do mundo. Você sempre encontra, sempre tem brasileiro. O importante para mim é a comida, o resto eu tiro de letra.
Flamengo de 2019 e um Everton Ribeiro que impressionava até nos treinos
Falar com Vini é falar também sobre Flamengo. O volante fez parte do elenco de 2019 no segundo semestre daquele ano, embora não tenha tido muitas oportunidades. Aquela foi a temporada histórica em que o time comandado por Jorge Jesus conquistou o Brasileirão e a Libertadores.
Era um grupo recheado de protagonistas. Gabigol, Bruno Henrique, Arrascaeta e Everton Ribeiro estavam entre os principais nomes de uma equipe que marcou o futebol brasileiro. Questionado sobre quem mais o impressionava vendo de perto, Vini escolheu o menos badalado do quarteto.
— Nos treinos, acho que o Everton Ribeiro foi incrível. Naquele 2019, botava a bola na pressão para ele e saía com uma facilidade incrível. Só que isso acontecia diariamente nos treinos. Então é um cara que ficou marcado bastante.
A ligação com o Flamengo permanece, mas Vini evita estabelecer uma data para um eventual retorno. A experiência dos últimos anos fez o volante diminuir as projeções de longo prazo.
— Se isso vai acontecer amanhã, ótimo. Se vai acontecer daqui a dois anos, ótimo. Eu não sei o que Deus tem preparado para mim. Eu só tento me preparar para o que vier, estar sempre preparado, seja para o Flamengo ou outro lugar.
O jogador admite que no passado pensava mais na possibilidade de voltar, mas percebeu que criar expectativas sobre transferências que não dependiam exclusivamente dele acabava trazendo frustração.
E motivos não faltaram. Vini revelou que uma negociação frustrada com o Atlético de Madrid foi uma das situações que mais o marcaram.
— Nossa, o que mais teve foi isso. Acho que o Atlético de Madrid foi bem frustrante também. Tiveram algumas boas, que parece que quando vai, sempre dá uma pausa no último minuto, na hora de botar o V de Vini.
Quando o assunto é um possível retorno ao futebol brasileiro por outro clube, ele não fecha muitas portas. Há, porém, uma que provoca uma hesitação imediata pela identificação construída no Flamengo.
— Eu não penso muito, não. Nunca tive esse problema. O Vasco é complicado, né? Nada contra o Vasco, mas o Vasco é um pouquinho complicado para mim.
Por enquanto, qualquer discussão sobre o próximo destino fica em segundo plano. Depois de atravessar Bélgica, Espanha, Inglaterra e Alemanha, Vini Souza tem dois objetivos que se encontram na mesma temporada: ajudar o Wolfsburg a retornar à elite e aproveitar a nova liberdade em campo para mostrar que seu jogo pode ir além da proteção à defesa.
Se os bons jogos e gols se transformarem em padrão nesta temporada, o acesso pode não ser a única porta a se abrir.