
O futebol brasileiro ainda consegue produzir noites que passam longe dos grandes centros e, mesmo assim, têm tamanho de decisão nacional. Neste domingo, 36.536 pessoas foram ao Parque do Sabiá para assistir ao Uberlândia levantar a taça da Série D do Campeonato Brasileiro. O empate por 1 a 1 com o ASA confirmou o título depois da vitória mineira por 2 a 0 na partida de ida, em Arapiraca.
Foi a primeira conquista da Série D na história do Uberlândia e o primeiro título nacional do clube em 42 anos. A última vez havia sido em 1984, quando o Verdão conquistou a Taça CBF, competição correspondente ao segundo nível nacional da época e reconhecida hoje na relação histórica da Série B.
O tamanho da festa ajuda a explicar por que essa final merece atenção para além da divisão em que foi disputada. Os 36.536 presentes representam o maior público do Uberlândia neste século e também o recorde da Série D de 2026. Para um clube que passou décadas distante das principais divisões do país, a tarde no Parque do Sabiá foi ao mesmo tempo título, reencontro com a torcida e retorno ao mapa nacional.
O título praticamente começou a ser construído em Alagoas
O Uberlândia havia chegado à partida decisiva em enorme vantagem.
No primeiro jogo da final, disputado no Coaracy Fonseca, em Arapiraca, o time mineiro venceu o ASA por 2 a 0. João marcou contra e Jhonatan Lima completou o placar, resultado que permitia ao Verdão perder em casa por até um gol de diferença e ainda assim levantar a taça.
A resposta da torcida começou antes mesmo da final. Os primeiros setores colocados à venda para o Parque do Sabiá foram rapidamente esgotados. O clube buscou autorização para abrir novas áreas do estádio, e uma carga adicional também desapareceu em pouco tempo.
No domingo, o cenário prometido se concretizou. O ASA conseguiu empatar por 1 a 1, mas nunca chegou perto de reverter a vantagem construída pelo Uberlândia no confronto. O placar agregado terminou em 3 a 1, suficiente para colocar pela primeira vez a taça da quarta divisão nacional na sala de troféus do clube mineiro.
Danilo troca as decisões como jogador pelas decisões como treinador
A campanha tem também um personagem conhecido de quem acompanhou o futebol brasileiro nas últimas duas décadas.
O Uberlândia é comandado por Danilo, ex-meia que conquistou Libertadores e Mundial por São Paulo e Corinthians e ficou marcado pela capacidade de aparecer em partidas decisivas. Aos 46 anos, ele começa a construir uma história semelhante do lado de fora do campo.
Danilo nem sequer iniciou a Série D no comando do clube. Ele chegou em junho para substituir Rogério Henrique, com o Uberlândia já classificado para a sequência da competição. A escolha da SAF acabou funcionando rapidamente: o treinador ganhou o respaldo do elenco, estabilizou a formação titular e conduziu o time aos dois objetivos mais importantes possíveis na temporada.
Primeiro veio o acesso.
Nas quartas de final, o Uberlândia venceu o CSA por 1 a 0 no Parque do Sabiá e repetiu a vitória em Maceió, desta vez por 2 a 0. A classificação garantiu antecipadamente a presença na Série C de 2027 e representou o primeiro acesso conquistado por Danilo como treinador de uma equipe profissional.
Depois, o time eliminou o ABC na semifinal e chegou à decisão contra o ASA. A temporada que inicialmente tinha o retorno à Série C como grande meta acabou encerrada com uma taça nacional.
Para Danilo, acostumado a ganhar como jogador, é o resultado mais importante até agora em sua ainda curta carreira de técnico.
De volta ao cenário nacional
O título representa muito mais do que a conquista de uma divisão.
O Uberlândia havia passado décadas tentando recuperar espaço no futebol brasileiro. O clube se tornou SAF em 2025, em um projeto que prevê investimentos de longo prazo, e entrou em 2026 com a ambição de construir um caminho de retorno às divisões superiores.
Em poucos meses, o primeiro grande salto aconteceu.
Com o título da Série D, o clube chega à Série C como campeão e também garante vaga direta na terceira fase da Copa do Brasil de 2027, outra oportunidade importante esportiva e financeiramente.
A própria campanha já teve impacto relevante nas contas. Antes mesmo da final, o Uberlândia havia garantido R$ 1,62 milhão em cotas e premiações da CBF ao avançar por todas as fases da competição.
Mas talvez o maior ativo deixado pela temporada seja outro.
Em agosto, mais de 21 mil pessoas já haviam comparecido ao Parque do Sabiá para o confronto com o CSA. Um mês depois, a decisão levou mais de 36 mil torcedores às arquibancadas. O crescimento de público acompanhou a evolução esportiva e devolveu ao estádio um ambiente de grandes jogos que havia se tornado raro nas últimas décadas.
Campeão da maior Série D já disputada
Existe ainda um peso particular na edição conquistada pelo Uberlândia.
A Série D de 2026 foi a maior da história da competição, ampliada para 96 participantes. Ao todo, foram 610 partidas e uma nova fase de playoffs para aumentar de quatro para seis o número de acessos à Série C.
O Uberlândia liderou seu grupo na primeira fase e, durante os mata-matas, passou por Rio Branco-ES, Serra Branca-PB, Portuguesa, CSA, ABC e, finalmente, ASA. Além do campeão e do vice, ABC, Gama, Goiatuba e Nacional-AM também estarão na Série C de 2027.
O ASA encerra a competição com o vice-campeonato e também com o acesso assegurado. Para o clube alagoano, foi a segunda decisão nacional de sua história, depois do vice da Série C de 2009.
Uma daquelas histórias que explicam o tamanho do futebol brasileiro
É fácil olhar para uma Série D apenas como a quarta divisão de uma pirâmide. O Parque do Sabiá mostrou por que essa leitura é pequena demais.
Foram 36.536 pessoas assistindo a um clube de sua cidade disputar uma final nacional. Famílias inteiras, torcedores que atravessaram décadas sem ver outra conquista brasileira e uma geração que provavelmente nunca tinha acompanhado o Uberlândia em um momento semelhante.
Em 1984, o clube havia conquistado o maior título de sua história. Foram necessários 42 anos para outra taça nacional chegar.
Agora ela veio acompanhada do acesso, de um estádio lotado e de um treinador conhecido por decisões importantes descobrindo como vencê-las de uma maneira completamente diferente.
O Uberlândia é campeão brasileiro da Série D. E fez isso diante de mais de 36 mil pessoas em casa.