
A melhor maneira de contar a história de Bruno Guimarães no futebol é usando o número 39. Essa não é a quantidade de gols ou assistências na carreira, muito menos o minuto em que ele botou a bola na rede para definir um título. É bem mais que isso.
Era “39” o número do táxi do pai do volante quando ele ainda sonhava em chegar onde está hoje: na Seleção Brasileira. Foi da profissão de taxista que Dick, o pai de Bruno, tirou o sustento da família por mais de 20 anos.
Dirigindo pelas ruas do Rio de Janeiro, onde o jogador foi nascido e criado, o motorista trabalhava, em média, 15 horas por dia. Mas não deixava de estar presente nos treinos e jogos do filho para incentivá-lo a correr atrás do sonho.
– Os jogos na base aconteciam sempre dia de semana, e eu sempre que podia estava lá na torcida. A mãe não podia ir e eu, por conseguir fazer meu horário, sempre dava uma escapulida para acompanhá-lo. É importante estar por perto – contou Dick em entrevista ao ge.com, em 2019.
Enquanto o pai encarava as longas horas do expediente e o caótico trânsito carioca, era Bruno quem precisava lidar com alguns sinais vermelhos. Como muitos dos 26 convocados por Ancelotti, ele foi rejeitado em testes Botafogo e Fluminense, onde chegou a ficar um ano treinando.
Quando o sinal verde surgiu, foi naquela ruazinha meio parada, que quase ninguém vê. A primeira oportunidade de Bruno surgiu no Audax do Rio de Janeiro. O menino criado em Vila Isabel, bairro próximo ao Maracanã, finalmente estava na estrada que o levaria longe, muito longe, ainda que não soubesse disso.

Audax-SP, ratos e um homem chamado Diniz
Quando completou 15 anos, ele recebeu convite para se juntar ao Audax-SP. No táxi 39 e acompanhado dos pais, encarou as mais de cinco horas de viagem do Rio ao alojamento do clube.
Num quarto apertado com 18 beliches e ganhando 400 reais por mês, Bruno não conseguia vislumbrar seu futuro. Em texto ao The Players Tribune, contou quando voltou de um treino e encontrou um rato embaixo do travesseiro. Ali, enquanto fazia um plano B e tirava a carteira de motorista escondido dos pais para virar taxista, ele quase desistiu.
– Uma vez, liguei pra minha mãe e disse a ela para me mandar o dinheiro da passagem de ônibus para casa. E posso ouvir a voz dela dizendo: “Fica tranquilo. Daqui a pouco, estaremos aí, juntos. Este é o seu sonho. É o que você quer, escreveu o jogador.
Os meses passaram, o volante seguiu em São Paulo e conheceu o treinador do time principal, um tal de Fernando Diniz. O técnico não só o motivou a continuar, como puxou Bruno para o elenco profissional que disputaria o Campeonato Paulista de 2017.
Athlético e o número mágico
Ao chegar ao CAP, Bruno estava decidido a vestir a camisa 97, referente ao ano que nasceu – 1997. O pai o incentivou a jogar com o 39, por razões óbvias: segundo ele argumentou com o filho, esse número que proporcionou tudo que tinham, inclusive as chuteiras que ele calçava.
No primeiro dia no CT, o jogador encontrou o roupeiro e foi perguntar sobre a numeração, mas ela já estava decidida. Quando abriu a camisa rubro-negra, lá estava o 39. Daquelas coincidências que parecem destino. Ou daqueles destinos que parecem coincidência, escolha como quiser.
Fato é que Bruno ficou tão impactado que ligou imediatamente para o pai e contou a novidade. E não demoraria para ele ser uma das grandes novidades do futebol brasileiro. No Furacão, o meia de estilo moderno, daqueles que combatem e organizam o time desde o setor ofensivo, ganhou destaque rapidamente.
Virou um dos pilares do time campeão da Sul-Americana de 2018 e da Copa do Brasil de 2019, o que o levou para outros caminhos. Mas, dessa vez, pegar uma estrada não seria o suficiente.

Lyon: o futebol físico e a semifinal da Champions League
O destino seguinte seria o Lyon, da França, que desembolsou 20 milhões de euros pelo jogador em janeiro de 2020. Mesmo chegando no meio da temporada europeia, Bruno ainda conseguiu espaço no time e fez quatro partidas na Champions League, quando o Lyon chegou até a semifinal.
Pode-se dizer que a passagem foi relâmpago. Apenas dois anos e 71 jogos pelos franceses. Mas uma estadia que ajudou na adaptação ao próximo clube, como o próprio atleta contou em entrevista a Reuters.
Pelo aspecto físico da liga francesa, ele aprendeu a aguentar um jogo mais duro e intenso, e ganhou cinco quilos de massa muscular. Fundamental para que chegasse à Inglaterra e virasse peça-chave de um time em construção.

O rosto do Newcastle, um quase rebaixamento e Champions League
Dois anos depois de trocar o Brasil pela França, Bruno se mudou novamente e o novo lar não deixou de surpreender: Newcastle.
Como Campeão Olímpico em Tóquio com o Brasil e destaque no Lyon, muitos esperavam o salto para um dos gigantes europeus. Mas o caminho escolhido foi um dos novos ricos do futebol mundial, que àquela altura estava afundado na zona de rebaixamento da Premier League.

Com chances de ser convocado por Tite para a Copa do Mundo de 2022, Bruno admitiu que pessoas próximas apontaram aquela transferência como arriscada para a carreira dele. No decorrer do tempo, o percurso se mostrou acertado.
Jogar na liga inglesa era um sonho de vida e o começo não poderia ter sido melhor: nos dez primeiros jogos marcou cinco gols e foi eleito três vezes o jogador da partida. Com o clube livre da segunda divisão (terminou em 11°), a ascensão continuou.
Na temporada seguinte, 2022-2023, o clube voltou à Champions League após 20 anos. Bruno, claro, foi um dos pilares da campanha. Ganhando cada vez mais moral e justificando as 40 milhões de libras pagas nele, foi eleito novo capitão do time no começo da temporada 2024.
Sem saber, meses depois caberia a ele uma honra histórica. Em março, Newcastle e Liverpool se enfrentaram pela final da Copa da Liga Inglesa. Com a vitória por 2×1, os Magpies encerraram um jejum de 70 anos sem títulos. Como capitão, quem levantou a taça foi Bruno.
Na temporada atual, o clube inglês ficou aquém das expectativas e terminou a Premier League apenas na 12° posição. Mas Bruno manteve o nível, contribuindo com nove gols e cinco assistências em 29 jogos na liga, sendo eleito o melhor do time na temporada pelos torcedores do Newcastle.

Seleção Brasileira: reserva de Tite, pilar de Ancelotti
Desde que o treinador italiano assumiu, Bruno é o jogador com mais convocações e jogos. Ausente da última lista de amistosos por lesão, não vê seu espaço ameaçado no momento.
O volante, aos 28 anos, é um dos mais experientes do grupo e se transformou em um dos líderes do elenco, papel que Casemiro incentivou que ele assumisse. Em 2022, o cenário era bem diferente. Com Tite, atuou apenas duas vezes no Catar, ambas vindas do banco e durante a fase de grupos. Jogadores como Fred e Fabinho tiveram prioridade sobre o camisa 39 – que na Seleção veste a 8.
Pilar do time de Ancelotti, Bruno Guimarães vai precisar chamar a responsabilidade em uma equipe que está longe de ter crédito com o torcedor. Em um ciclo confuso, o Brasil se perdeu pelo caminho.
Assim como o pai, que conhecia os atalhos das ruas do Rio de Janeiro e garantia o sustento com o táxi 39, agora o volante é um dos responsáveis por mostrar a direção aos companheiros.






