
A relação entre Neymar e Santos atravessa seu momento mais delicado desde o retorno do atacante à Vila Belmiro. O desgaste envolve reclamações dos dois lados e aumentou depois de uma sequência de episódios ocorridos dentro e fora do CT Rei Pelé.
Segundo apuração do ge, membros da diretoria questionam a maneira como Neymar exerce a liderança sobre o elenco e avaliam que algumas de suas cobranças têm provocado desconforto entre jogadores e integrantes da comissão técnica. O camisa 10 e seus representantes, por outro lado, reclamam da estrutura oferecida pelo clube, da circulação de pessoas sem função direta no futebol e da falta de proteção diante de informações que saem dos bastidores.
Apesar da crise, não existe, até o momento, um rompimento formal. Neymar tem contrato até o fim de 2026 e continua integrado ao planejamento esportivo. A renovação por um período maior, porém, passou a ser considerada improvável por pessoas próximas aos dois lados.
Neymar desabafou em seu perfil do Instagram (vídeo: TNT Sports Brasil)
O que incomoda a diretoria do Santos
O principal questionamento interno está relacionado ao comportamento de Neymar no cotidiano do elenco.
Pessoas ouvidas pelo ge afirmam que as reclamações constantes do atacante durante partidas e treinamentos incomodam alguns companheiros. A avaliação é de que jogadores mais jovens e estrangeiros podem ficar intimidados quando são cobrados de maneira pública pelo principal nome da equipe.
A diretoria também discute se Neymar tem exercido a liderança esperada de um jogador de sua importância. O clube esperava que o camisa 10 fosse uma referência técnica e comportamental para um elenco pressionado pela campanha no Campeonato Brasileiro.
Dentro de campo, a participação do atacante continua sendo decisiva. Contra a Chapecoense, Neymar foi responsável por nove das 20 finalizações do Santos, marcou os dois gols do time e evitou uma derrota em casa. A atuação, entretanto, também foi marcada por reclamações frequentes com companheiros e com a arbitragem.
Cobranças no vestiário aumentaram o desgaste
O episódio mais recente ocorreu durante o empate por 2 a 2 com a Chapecoense, na Vila Belmiro.
Segundo relatos publicados pelo ge, Neymar teria adotado um tom considerado excessivo ao cobrar Gabriel Bontempo e João Ananias no intervalo. A reportagem afirma que a postura incomodou jogadores, comissão técnica e dirigentes.
O Santos vencia por 1 a 0 quando as equipes foram para o vestiário. No início do segundo tempo, a Chapecoense marcou duas vezes em pouco mais de dez minutos, incluindo um gol contra de João Ananias. Neymar empatou posteriormente em cobrança de pênalti.
Internamente, houve a percepção de que o clima criado no intervalo pode ter afetado a equipe. Essa avaliação, porém, é baseada em relatos de bastidores e não foi confirmada publicamente pela comissão técnica.
Neymar nega ter atacado jogadores jovens
Neymar contestou a versão divulgada sobre o episódio.
Em vídeos publicados nas redes sociais, o atacante afirmou que houve uma cobrança coletiva no vestiário e negou ter direcionado ofensas a Gabriel Bontempo ou João Ananias. Segundo o camisa 10, diferentes líderes do elenco participaram da conversa porque o grupo estava insatisfeito com o desempenho.
Bontempo também declarou que a conversa foi geral e que não houve os ataques pessoais descritos. João Ananias negou ter sido desrespeitado, embora tenha confirmado que os jogadores se cobraram no intervalo. O ge informou que mantém sua apuração.
O caso, portanto, possui versões diferentes. A reportagem apresenta relatos de pessoas que acompanharam os bastidores, enquanto Neymar e os dois atletas citados negam a existência de ofensas individuais.
Saída do CT sem autorização desagradou ao clube
O ambiente ficou ainda mais pesado no dia seguinte ao empate.
Na reapresentação do elenco, Neymar permaneceu por poucos minutos no CT Rei Pelé. O jogador tomou café da manhã, participou de algumas ações e deixou o local sem realizar o trabalho regenerativo programado para os titulares. De acordo com fontes consultadas pelo ge, ele não tinha autorização da comissão técnica para sair antes do término da atividade.
Os demais jogadores que começaram a partida contra a Chapecoense permaneceram no centro de treinamento. Membros da diretoria foram ao CT para buscar informações sobre a ausência do camisa 10 e compreender o que havia ocorrido.
A saída antecipada foi interpretada internamente como mais um sinal da deterioração do relacionamento. O Santos, até agora, não anunciou multa, advertência ou outra punição formal ao atacante.
Ida a torneio de pôquer também gerou reclamações
Outro ponto de atrito foi a participação de Neymar em um campeonato de pôquer enquanto o Santos estava na Venezuela para enfrentar a Universidad Central pela Copa Sul-Americana.
O jogador havia sido preservado pela comissão técnica e permaneceu no Brasil enquanto seus companheiros viajaram. Durante o horário da partida, disputou uma etapa do Campeonato Brasileiro de Pôquer em São Paulo. O Santos venceu por 4 a 1 e encaminhou a classificação às oitavas de final.
Embora Neymar estivesse de folga e sua ausência na delegação tivesse sido definida pelo clube, a exposição no evento incomodou integrantes do elenco e da diretoria. A avaliação interna foi de que a presença pública em um torneio durante uma partida importante transmitiu uma mensagem ruim.
Neymar respondeu às críticas nas redes sociais. O atacante explicou que havia treinado, estava em seu período livre e pediu que as pessoas respeitassem sua vida particular.
Na partida seguinte, contra a Chapecoense, comemorou seu primeiro gol simulando a distribuição de cartas. O gesto foi interpretado como uma resposta direta à repercussão provocada pelo torneio.

Santos também é alvo das reclamações de Neymar
O desconforto não está restrito à direção do clube. Neymar e seus representantes também possuem uma lista de insatisfações.
O estafe questiona a presença frequente de pessoas sem função direta na operação do futebol em treinamentos e ambientes restritos do CT Rei Pelé. Conselheiros e indivíduos ligados à administração teriam acesso ao cotidiano do elenco, situação considerada inadequada pelo jogador e por seu pai.
Outra reclamação envolve a falta de proteção interna. O grupo de Neymar considera que conversas e episódios privados chegam com facilidade à imprensa e entende que a direção deveria blindar melhor o elenco.
A divulgação dos relatos sobre o intervalo contra a Chapecoense agravou essa insatisfação. Neymar classificou as informações como mentirosas e mal-intencionadas, enquanto o ge manteve o conteúdo publicado.
Qualidade do elenco e estrutura são questionadas
O projeto esportivo também passou a ser discutido.
Neymar e seu pai questionam a estrutura disponibilizada pelo Santos e a capacidade do elenco de competir por objetivos maiores. O clube voltou a enfrentar dificuldades no Campeonato Brasileiro e permanece pressionado pela possibilidade de lutar contra o rebaixamento pelo segundo ano consecutivo.
O jogador chegou a participar financeiramente de reformas no CT Rei Pelé e na Vila Belmiro. Essa aproximação alimentou especulações de que sua família poderia futuramente participar de uma SAF do Santos, possibilidade negada por Neymar da Silva Santos, pai do atacante.
A expectativa criada no retorno era de que Neymar ajudaria o clube dentro de campo e também fortaleceria o Santos comercialmente. A parceria produziu exposição, patrocínios e maior interesse do público, mas o desempenho esportivo e os problemas financeiros dificultaram o desenvolvimento do projeto.
Dívida com Neymar supera R$ 90 milhões
A questão financeira é outro componente importante da crise.
Segundo o ge, a dívida do Santos com Neymar e empresas ligadas à sua família já ultrapassa R$ 90 milhões. O débito envolve principalmente valores relacionados aos direitos de imagem. Outros jogadores do elenco também chegaram a enfrentar três meses de atrasos nessa forma de pagamento.
Na última semana, o clube destinou R$ 8,5 milhões recebidos pela venda de Luca Meirelles ao Shakhtar Donetsk para pagar parte da dívida com a NR Sports, empresa da família de Neymar. A quantia reduziu o débito, mas não resolveu o problema.
A dificuldade de caixa também afeta o planejamento do departamento de futebol. O Santos precisa equilibrar salários, dívidas com outros clubes, custos operacionais e os compromissos assumidos no contrato de seu principal jogador.
Para Neymar, os atrasos reforçam a percepção de que o projeto apresentado em sua volta não está sendo executado como prometido. Para a diretoria, o custo elevado do atacante aumenta a pressão sobre uma administração que já enfrenta dificuldades para manter as contas em dia.

Liderança de Neymar passou a ser discutida
Quando Neymar retornou, o Santos esperava receber mais que um jogador tecnicamente diferenciado. O camisa 10 também seria responsável por liderar o grupo, desenvolver jovens e elevar o nível de exigência nos treinamentos.
A cobrança faz parte dessa função, mas a maneira como ela acontece passou a ser questionada. Pessoas ligadas ao clube entendem que o atacante ultrapassa o limite em alguns momentos e provoca um efeito diferente do pretendido entre os mais jovens.
Neymar entende a situação de outra forma. Em sua manifestação pública, afirmou que conversas duras são normais em equipes competitivas e que diferentes jogadores experientes participaram da cobrança coletiva depois do primeiro tempo contra a Chapecoense.
A discussão mostra o ponto central da crise: clube e jogador possuem expectativas diferentes sobre o papel que Neymar deve exercer dentro do elenco.

Bom desempenho técnico contrasta com problemas fora de campo
Mesmo em meio ao desgaste, Neymar ainda demonstra capacidade para decidir partidas.
Contra a Chapecoense, marcou um gol após tabela com Barreal e converteu o pênalti que garantiu o empate. O atacante terminou a partida com nove finalizações e 52 passes certos.
O camisa 10 chegou a seis gols no Brasileirão e ocupa a vice-artilharia do Santos na competição. Seu rendimento técnico, porém, tem sido acompanhado por lesões, suspensões e episódios comportamentais que reduzem sua disponibilidade.
Neymar recebeu o terceiro cartão amarelo diante da Chapecoense e não poderá enfrentar o Athletico-PR pelo campeonato. O cartão foi aplicado após uma confusão nos minutos finais.
O contraste é evidente: Neymar continua sendo o jogador mais capaz de transformar o desempenho do Santos, mas sua presença também passou a produzir tensão no cotidiano do clube.
Renovação é considerada improvável
O atual contrato termina em 31 de dezembro de 2026. O vínculo foi renovado oficialmente em janeiro, quando clube e jogador decidiram prolongar por mais uma temporada a passagem iniciada no começo de 2025.
De acordo com o ge, uma nova renovação é considerada improvável neste momento. A decisão definitiva dependerá do desempenho esportivo nos próximos meses, da situação financeira do Santos e da disposição de Neymar para continuar atuando no futebol brasileiro.
Isso não significa que uma saída já esteja definida. Ainda não existe anúncio, acordo com outro clube ou pedido formal de rescisão.
O Santos também não possui interesse imediato em romper com seu principal jogador. Além da importância técnica, Neymar movimenta receitas comerciais, audiência e exposição internacional.
Próximos dias serão decisivos para o ambiente
Neymar era esperado novamente no CT Rei Pelé nesta segunda-feira, no último treinamento antes do confronto com a Universidad Central. Como o Santos venceu a primeira partida por 4 a 1, a tendência é que Cuca preserve alguns titulares.
Depois da Sul-Americana, o clube enfrentará o Remo pelas oitavas de final da Copa do Brasil. O calendário decisivo exige que a direção, a comissão técnica e o elenco encontrem uma maneira de controlar a crise.
O episódio com Bontempo e Ananias, a saída antecipada do CT, as reclamações sobre o pôquer, a dívida milionária e as críticas à estrutura mostram que o problema não está concentrado em apenas um acontecimento.
A relação que começou como uma união histórica entre o maior ídolo recente e o clube que o revelou entrou em uma fase de desconfiança mútua. Neymar segue sendo a principal referência técnica do Santos, mas sua convivência com a instituição deixou de ser simples.
Sem uma mudança de postura dos dois lados, os últimos meses do contrato podem ser marcados mais pelas discussões nos bastidores do que pela expectativa criada com seu retorno à Vila Belmiro.





