O Vasco sofreu um importante revés financeiro nesta terça-feira (18). A Justiça travou a contratação do empréstimo DIP de até R$ 150 milhões solicitado pelo clube à Almirante Participações e Empreendimentos S.A., empresa ligada ao empresário Marcos Lamacchia. A decisão aumenta a preocupação com o caixa da SAF e pode afetar diretamente os planos do clube para a reta final da janela de transferências.
Apesar de a situação poder ser tratada como um “cancelamento” momentâneo da operação, o empréstimo não foi definitivamente negado. A juíza Simone Gastesi Chevrand determinou que uma nova auditoria seja realizada antes de decidir se autoriza o endividamento. Até que essa análise seja concluída, os R$ 150 milhões não poderão entrar no caixa vascaíno.
Justiça quer auditoria antes de autorizar nova dívida
A decisão está diretamente relacionada à recuperação judicial do Vasco. Por estar nesse processo, a SAF não possui liberdade completa para assumir novas dívidas e precisa do aval judicial para contratar determinados financiamentos.
No despacho, a juíza lembrou que o próprio juízo já havia determinado que novos endividamentos não seriam admitidos antes da realização de uma auditoria e da apresentação, pelo menos, de um relatório preliminar. Agora, o pedido de R$ 150 milhões terá de passar por esse procedimento.
Segundo o ge, qualquer movimentação jurídica do Vasco precisa passar pela análise de diferentes agentes envolvidos na recuperação, incluindo interventores, Ministério Público, o chamado gatekeeper e a própria juíza. O prazo mínimo estimado para essa etapa é de 15 dias, mas o processo completo pode chegar a aproximadamente 30.
Dinheiro pode chegar depois do fim da janela
Esse prazo cria um problema esportivo imediato.
A atual janela de transferências do futebol brasileiro termina em 11 de setembro. Como faltam pouco mais de três semanas para o fechamento do mercado, existe a possibilidade de o empréstimo ser autorizado somente depois que o Vasco já não puder registrar novos jogadores.
O próprio clube havia utilizado esse argumento ao pedir urgência à Justiça. Na petição apresentada na semana passada, a SAF relacionou a necessidade de dinheiro à tentativa de fortalecer o elenco e alertou que uma demora diminuiria as opções disponíveis no mercado.
A direção segue buscando reforços. Entre outras movimentações, o Vasco contratou recentemente Sosa e Facundo Colidio e apresentou propostas por novos jogadores durante esta janela. Ao mesmo tempo, a situação financeira utilizada para justificar o pedido judicial revela um cenário de caixa muito mais delicado.
Vasco diz que dinheiro pode acabar nesta quinta-feira
Esse é o ponto mais preocupante da documentação apresentada pelo clube.
Ao solicitar o empréstimo, o Vasco informou à Justiça que os recursos disponíveis poderiam se esgotar já nesta quinta-feira (20). A SAF argumentou que existe risco de deterioração financeira capaz de afetar a operação cotidiana, a competitividade esportiva e até o próprio valor da empresa durante o processo de busca por um novo investidor.
Na petição, o Vasco afirmou que a falta de recursos poderia provocar “deterioração dos ativos”, perda de competitividade e até aumentar o risco esportivo de rebaixamento, algo que prejudicaria também a negociação da SAF.
A preocupação agora é justamente como o clube financiará suas atividades enquanto aguarda a nova análise judicial.
O que é o empréstimo DIP?
O financiamento solicitado pelo Vasco é conhecido como DIP Financing, modalidade utilizada por empresas que estão em recuperação judicial.
Esse tipo de crédito permite que uma companhia obtenha novos recursos durante o processo de recuperação para manter suas operações e financiar atividades consideradas essenciais. Como envolve uma empresa sob proteção judicial e pode afetar os interesses dos credores, a operação depende de controle e autorização da Justiça. No caso vascaíno, foi exatamente essa fiscalização que impediu a liberação imediata dos R$ 150 milhões.
Quem emprestaria os R$ 150 milhões?
O dinheiro seria fornecido pela Almirante Participações e Empreendimentos S.A., empresa ligada a Marcos Lamacchia e apontada como favorita a assumir o controle da SAF vascaína.
A Almirante já havia concedido outro financiamento DIP de R$ 40 milhões ao Vasco em julho. Além disso, o clube havia obtido anteriormente um financiamento de R$ 80 milhões relacionado à Crefisa, que pode ser convertido em participação na SAF dependendo do desfecho do processo de venda.
A nova operação seria muito maior: até R$ 150 milhões.
Pela legislação e pelas regras impostas durante a recuperação judicial, porém, o Vasco não pode simplesmente receber o dinheiro nem concluir a venda da SAF sem cumprir todas as etapas de fiscalização previstas.
Flamengo questiona gastos do Vasco
A crise financeira ganhou ainda outro capítulo nesta terça-feira.
Pouco antes da notícia sobre o bloqueio do empréstimo, o Flamengo informou que acionou a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) para pedir uma análise das finanças vascaínas. O clube rubro-negro questiona como um adversário que relata dificuldades para cumprir obrigações e solicita um novo financiamento emergencial continua realizando investimentos relevantes no mercado.
Em sua manifestação, o Flamengo alegou que a situação pode criar uma assimetria competitiva, especialmente na luta contra o rebaixamento, caso uma equipe em dificuldades financeiras consiga aumentar seus gastos esportivos enquanto outras precisam limitar investimentos para cumprir as regras de sustentabilidade.
Trata-se, neste momento, de um questionamento apresentado pelo Flamengo, e não de uma punição ou conclusão de que o Vasco tenha descumprido as regras financeiras.
Mercado do Vasco entra em compasso de espera
A consequência mais imediata da decisão judicial deverá aparecer no mercado.
O Vasco esperava utilizar parte dos novos recursos para manter suas operações e continuar reforçando o elenco antes do fechamento da janela. Sem a liberação imediata, a direção precisará avaliar se consegue concretizar novas contratações com outras fontes de receita ou se terá de reduzir o ritmo dos investimentos.
O cenário esportivo aumenta a pressão. O clube luta na parte inferior da classificação do Brasileirão e entende que reforçar o elenco é fundamental para reduzir o risco de rebaixamento. Foi justamente essa relação entre saúde financeira e competitividade que o próprio Vasco apresentou à Justiça ao justificar a urgência do financiamento.
Por enquanto, portanto, os R$ 150 milhões não estão cancelados definitivamente, mas estão bloqueados. O Vasco terá de aguardar a auditoria, passar novamente pela avaliação dos órgãos envolvidos na recuperação judicial e somente então poderá receber uma autorização.
O problema é o relógio: o clube diz que seu caixa pode acabar nesta semana, enquanto o dinheiro solicitado pode levar até um mês para ser liberado — quando a janela de transferências já poderá estar fechada.




