
A pressão sobre Gianni Infantino chegou a um novo estágio. Dirigentes ligados a Uefa, Confederação Asiática de Futebol (AFC) e Concacaf estão discutindo a possibilidade de levar ao Congresso da Fifa um voto de desconfiança contra o presidente da entidade, segundo informações publicadas nesta quinta-feira (20) pela Reuters. O objetivo seria forçar a saída de Infantino antes mesmo da eleição presidencial marcada para março de 2027.
Ainda não existe uma moção formal apresentada. O movimento está em fase de discussão e envolve um problema jurídico importante: os estatutos da Fifa não estabelecem expressamente um procedimento para retirar o presidente por meio de um voto de desconfiança. Caso avance, seria uma situação sem precedentes nos 122 anos da entidade.
Uefa, AFC e Concacaf querem mudança
As três confederações representam Europa, Ásia, América do Norte, América Central e Caribe. A aproximação entre elas não começou agora.
No dia 10 de agosto, os presidentes Aleksander Čeferin, da Uefa; Salman bin Ibrahim Al Khalifa, da AFC; e Victor Montagliani, da Concacaf, assinaram um comunicado conjunto extremamente crítico à administração de Infantino. No documento, as entidades acusaram a liderança da Fifa de falta de transparência, consulta insuficiente e quebra de confiança na condução de uma proposta comercial que envolvia a Copa do Mundo.
O comunicado afirmava que a liderança do futebol deveria servir ao esporte, e não tentar controlá-lo. Desde então, as conversas sobre uma mudança na presidência ganharam força.
Agora, segundo pessoas ouvidas pela Reuters, o voto de desconfiança é uma das alternativas consideradas pelas três confederações. Uma das fontes afirmou que os adversários de Infantino enxergam dois caminhos: ele desistir de concorrer novamente em março ou enfrentar uma tentativa de afastamento.
Como Infantino poderia ser retirado?
O primeiro passo seria convocar um Congresso Extraordinário da Fifa.
Pelos estatutos da entidade, pelo menos um quinto das 211 associações filiadas precisa solicitar formalmente a convocação. Na prática, seriam necessárias 43 federações nacionais. Depois disso, o Congresso Extraordinário teria de acontecer em até três meses.
Esse número não parece impossível para a oposição. A Uefa possui 55 associações filiadas e, portanto, teria numericamente condições de atingir sozinha o mínimo necessário caso seus membros atuassem de forma conjunta. A AFC possui outras 47.
Isso não significa, entretanto, que os votos estejam automaticamente garantidos. São as federações nacionais, e não as confederações como blocos, que votam no Congresso da Fifa. Cada associação presente possui um voto.
E existe uma segunda dificuldade.
Os estatutos não dizem especificamente quantos votos seriam necessários para retirar um presidente em uma moção dessa natureza. A regra geral da Fifa estabelece que, quando não há previsão diferente, decisões são tomadas por maioria simples dos votos válidos, superior a 50%. É essa regra que poderia ser utilizada em uma eventual tentativa de afastamento, mas o mecanismo nunca foi testado contra um presidente em exercício.
Nunca aconteceu na história da Fifa
A Reuters não encontrou registro de um presidente da Fifa submetido formalmente a um voto de desconfiança no Congresso.
Algo semelhante chegou a ser discutido contra Sepp Blatter em 2001 e 2002, durante crises envolvendo a administração financeira e a governança da entidade. Na época, dirigentes europeus chegaram a levantar publicamente a possibilidade de uma moção, mas nenhuma votação ocorreu.
Caso uma tentativa contra Infantino avance, portanto, a Fifa entraria em terreno institucional praticamente desconhecido.
Se ele fosse impedido de continuar no cargo, os estatutos estabelecem que o vice-presidente mais antigo em exercício assumiria temporariamente as funções presidenciais até o Congresso seguinte, quando um novo presidente poderia ser eleito. Atualmente, esse posto caberia justamente a Salman bin Ibrahim Al Khalifa, presidente da AFC e um dos signatários do comunicado crítico a Infantino.
A origem da crise: o FIFA Forward Enterprise
A ruptura começou com o projeto chamado FIFA Forward Enterprise (FFE).
A proposta de Infantino previa a criação de uma subsidiária responsável por concentrar direitos comerciais e a operação dos torneios da Fifa, incluindo transmissão, patrocínio, licenciamento, hospitalidade e outras receitas. Investidores privados poderiam adquirir uma participação minoritária nessa estrutura.
Infantino argumentava que o modelo poderia aumentar significativamente as receitas da Fifa e, consequentemente, o dinheiro destinado às federações nacionais. Na apresentação inicial, a entidade projetou elevar o financiamento do programa FIFA Forward de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões por associação no ciclo de 2027 a 2030, além da possibilidade de acesso a outros US$ 20 milhões por meio de um programa adicional.
Segundo o ge, a estrutura buscava levantar até US$ 4,2 bilhões com investidores privados.
A reação foi imediata.
Uefa, AFC e Concacaf criticaram principalmente a maneira como o projeto foi desenvolvido, alegando que uma decisão dessa dimensão não poderia ser conduzida sem consulta e fiscalização adequadas. A Uefa chegou a ameaçar boicotar competições da Fifa enquanto a proposta permanecesse em discussão.
Diante da pressão, Infantino acabou abandonando o projeto.
Mas o recuo não encerrou a crise.
Confederações dizem que problema foi maior que um erro de comunicação
Depois do abandono da FFE, a Fifa reconheceu erros na condução do processo e prometeu rever procedimentos internos. Em reunião realizada em Rabat, no Marrocos, integrantes da direção administrativa reafirmaram apoio a Infantino.
Para as três confederações opositoras, porém, isso não foi suficiente.
No comunicado conjunto de 10 de agosto, Uefa, AFC e Concacaf afirmaram que o episódio representava uma falha de julgamento e uma quebra de confiança, e não simplesmente um problema de comunicação. Também defenderam que qualquer investigação sobre o caso fosse conduzida por uma estrutura independente da própria Fifa.
Esse é o ponto central da atual disputa: a oposição deixou de pedir apenas mudanças no projeto comercial e passou a questionar diretamente a permanência de Infantino no comando da entidade.
Saída de dirigente aumentou a pressão
A crise ganhou outro capítulo nesta semana com a saída de Kevin Lamour, chefe operacional da Fifa.
Lamour havia criticado publicamente o projeto de investimento e afirmado que funcionários da organização foram enganados sobre a maneira como a proposta havia sido desenvolvida. A Fifa confirmou sua saída, mas não apresentou uma justificativa para o desligamento.
Depois disso, Sándor Csányi, vice-presidente da Fifa e presidente da Federação Húngara, retirou o apoio à reeleição de Infantino e classificou a saída de Lamour como o episódio que tornou sua posição insustentável.
A sucessão de movimentos mostra que a resistência não está limitada à Uefa.
Infantino ainda tem apoio importante
Apesar da pressão crescente, retirar Infantino está longe de ser simples.
O presidente ainda possui apoio significativo entre as 211 associações da Fifa. A Confederação Africana de Futebol (CAF) declarou que continua apoiando sua liderança e defende que qualquer mudança seja decidida democraticamente na próxima eleição.
A Conmebol também tem mantido uma posição favorável ao respeito do processo eleitoral, enquanto diferentes federações árabes manifestaram publicamente apoio a Infantino. Qatar e Marrocos estão entre as associações que se posicionaram em sua defesa.
Existem divisões inclusive dentro das próprias confederações opositoras. A Federação do Qatar, por exemplo, criticou a decisão da AFC de assinar a carta contra Infantino sem consultar previamente todas as associações asiáticas.
Por isso, o fato de três confederações apoiarem politicamente uma mudança não significa que todos os países pertencentes a elas votarão contra Infantino.
O maior risco para a oposição é perder a votação
Esse é justamente um dos pontos discutidos pelos adversários do presidente.
Segundo uma fonte ouvida pela Reuters, existe receio de que uma tentativa de afastamento sem votos suficientes produza o efeito contrário: Infantino sobreviveria ao voto de desconfiança, demonstraria que ainda possui maioria entre as federações e chegaria fortalecido à eleição de 2027.
Nenhum candidato de oposição foi oficialmente lançado até agora.
O prazo para inscrição de candidaturas termina em 18 de novembro, e Infantino já declarou que pretende disputar novamente a presidência no Congresso marcado para março de 2027.
Um dos nomes mais citados nos bastidores é Victor Montagliani, presidente da Concacaf, mas até o momento ele não confirmou uma candidatura.
Clubes europeus também aumentam a pressão
A crise ultrapassou as confederações.
A European Football Clubs (EFC), organização que representa mais de 800 clubes e é presidida por Nasser Al-Khelaifi, do Paris Saint-Germain, também cobra mudanças na governança da Fifa. Segundo a Reuters, a entidade chegou a alertar que seus associados poderiam não participar de futuras Copas do Mundo de Clubes se as questões institucionais não fossem resolvidas.
Os clubes não possuem votos na eleição presidencial, mas têm enorme peso comercial e esportivo nas competições da Fifa.
A pressão, portanto, acontece simultaneamente dentro e fora do sistema eleitoral da entidade.
Infantino vive maior crise desde que assumiu a Fifa
Gianni Infantino chegou à presidência em 2016, eleito durante o processo de reconstrução institucional que sucedeu a crise que derrubou Sepp Blatter.
Dez anos depois, enfrenta seu momento de maior fragilidade política.
O cenário ainda não permite afirmar que Infantino será afastado. Não há voto convocado, não existe uma moção formal apresentada e seus adversários ainda precisam provar que possuem maioria entre as 211 federações.
Mas o que antes era uma disputa pública sobre um projeto comercial avançou para algo muito maior.
Uefa, AFC e Concacaf agora discutem abertamente um caminho institucional para tentar encerrar a presidência de Gianni Infantino antes da eleição de 2027. E, caso escolham o voto de desconfiança, a Fifa poderá enfrentar uma situação que nunca viveu em toda a sua história.





