
A crise política na Fifa ganhou um novo e simbólico capítulo neste sábado (22). Victor Montagliani, presidente da Concacaf e vice-presidente da própria Fifa, pediu diretamente a Gianni Infantino que não comparecesse a um torneio de futebol Sub-14 realizado na República Dominicana.
O motivo não envolve questões esportivas. Em uma carta enviada a Infantino na sexta-feira (21), Montagliani argumentou que a atual crise de governança da entidade faria com que a presença do presidente atraísse toda a atenção da imprensa e prejudicasse o caráter esportivo da competição organizada pela União Caribenha de Futebol (CFU).
A solicitação, porém, foi ignorada. Infantino viajou à República Dominicana e, neste sábado, publicou imagens ao lado de autoridades políticas e dirigentes locais durante o torneio, em Punta Cana.
Montagliani cita “crise de governança” na Fifa
A Reuters teve acesso à carta enviada pelo presidente da Concacaf. No documento, Montagliani cita explicitamente a “crise de governança em torno da Fifa” e afirma que a presença de Infantino poderia tirar o foco de uma atividade voltada ao desenvolvimento de jovens jogadores.
O canadense também lembrou que a viagem de Infantino já havia despertado forte interesse da imprensa devido à situação política da entidade.
Em um dos trechos, Montagliani pede que o dirigente reconsidere a participação “em nome do futebol”. Segundo ele, a presença do suíço poderia prejudicar a natureza técnica e esportiva do torneio Sub-14.
Montagliani não é apenas presidente da confederação que controla o futebol da América do Norte, América Central e Caribe. Ele também ocupa uma das vice-presidências do Conselho da Fifa, o que torna o episódio ainda mais significativo.
Infantino ignora pedido e aparece no torneio
Infantino, entretanto, manteve sua programação.
O dirigente chegou a Punta Cana e foi recebido pelo ministro dos Esportes e Recreação da República Dominicana, Kelvin Cruz, além do presidente da Federação Dominicana de Futebol, José Deschamps, e outras autoridades locais.
Neste sábado, o presidente da Fifa também divulgou fotografias de sua passagem pelo evento da CFU. Segundo a Associated Press, as imagens mostram Infantino reunido com dirigentes políticos e esportivos dominicanos nos arredores da competição juvenil.
A Fifa não comentou diretamente a solicitação de Montagliani. À AP, a entidade ressaltou os investimentos realizados em organismos regionais como a CFU por meio dos programas de desenvolvimento do futebol.

Relação entre Concacaf e Infantino se deteriorou
A carta é mais um sinal do rompimento entre Montagliani e Infantino depois da crise provocada pelo projeto Fifa Forward Enterprise (FFE).
A proposta previa transferir parte das atividades comerciais bilionárias da Fifa para uma nova companhia e abrir participação a investidores privados. O projeto foi desenvolvido durante meses sem que dirigentes importantes das confederações fossem informados previamente.
Quando o plano se tornou público no fim de julho, a reação dentro do futebol internacional foi intensa. Infantino acabou abandonando o projeto em 1º de agosto.
A desistência, entretanto, não encerrou a crise.
Concacaf, Uefa e Confederação Asiática de Futebol (AFC) passaram a atuar conjuntamente contra a forma como Infantino conduziu o processo. As três entidades acusaram a direção da Fifa de provocar uma ruptura de confiança ao desenvolver o projeto sem consultar os principais atores do futebol mundial.
Três confederações pressionam Infantino
Montagliani se aproximou de Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, e de Sheikh Salman bin Ebrahim Al Khalifa, presidente da AFC, no movimento de oposição a Infantino.
As três confederações representam uma parcela significativa das 211 associações filiadas à Fifa e discutem os próximos passos diante da crise. Entre as possibilidades está até a tentativa de convocação de um congresso extraordinário e um eventual voto de desconfiança contra o presidente.
A Conmebol, por outro lado, adotou posição diferente e reafirmou seu apoio a Infantino nas últimas semanas.
O Caribe ganhou importância especial nessa disputa. As federações da região são integrantes da Concacaf, mas algumas delas podem continuar apoiando Infantino mesmo diante da posição adotada por Montagliani. A AP aponta que esses votos são vistos como importantes para a tentativa do suíço de preservar sua base política.
Infantino busca novo mandato até 2031
Toda a disputa acontece enquanto Infantino prepara uma nova candidatura à presidência da Fifa.
O dirigente pretende disputar a eleição prevista para março de 2027, em Rabat, no Marrocos, para permanecer no comando até 2031. O prazo para registro de candidaturas termina em 18 de novembro.
Infantino assumiu a entidade pela primeira vez em 2016, depois da queda de Joseph Blatter, e foi reeleito em 2019 e 2023.
Nos últimos dias, porém, algumas federações e dirigentes começaram a retirar o apoio que anteriormente davam ao suíço.
Victor Montagliani aparece inclusive entre os nomes considerados capazes de participar de uma articulação para substituir Infantino caso a crise leve a uma mudança no comando da entidade.
O episódio na República Dominicana mostra até onde chegou o desgaste: um dos vice-presidentes da Fifa pediu formalmente ao próprio presidente que não aparecesse em um evento de futebol.
Infantino apareceu mesmo assim.




