
A Seleção Brasileira encerra no sábado sua primeira Data Fifa depois da Copa do Mundo enfrentando um adversário que nunca encontrou em mais de um século de história. Brasil e Índia jogam às 11h de Brasília, no Salt Lake Stadium, em Calcutá, no primeiro confronto entre as seleções principais dos dois países. O ineditismo chama atenção, mas o tamanho da diferença esportiva entre as equipes torna o amistoso uma partida difícil de avaliar apenas pelo resultado. A Índia ocupa atualmente a 138ª posição do ranking da Fifa, enquanto o Brasil tenta reorganizar seu futebol depois de terminar a Copa de 2026 apenas na 11ª colocação e ser eliminado pela Noruega nas oitavas de final.
Por esse critério, a Índia será o adversário pior colocado no ranking enfrentado pela Seleção em 28 anos. A última equipe situada abaixo dela no momento de um confronto contra o Brasil foi Andorra, então 185ª, derrotada por 3 a 0 em junho de 1998. Desde então houve partidas contra Hong Kong, que ocupava a 134ª posição em 2005, e Tanzânia, 108ª em 2010, mas nenhuma contra uma seleção tão distante das primeiras posições quanto a adversária deste sábado. A Índia venceu apenas uma de suas seis partidas disputadas em 2026 e sequer participou da última Copa do Mundo.
Para Carlo Ancelotti, isso cria uma situação diferente daquela encontrada nos dois jogos contra a Austrália. O Brasil empatou por 1 a 1 no primeiro encontro e venceu o segundo por 4 a 2, mostrando melhora ofensiva, mas ainda com momentos de dificuldade para controlar o meio-campo e proteger a defesa. A viagem à Índia encerra essa sequência com um teste de exigência claramente menor e, portanto, menos capaz de responder perguntas sobre o nível atual da Seleção diante das equipes que estarão entre seus principais adversários no ciclo até 2030. Ao mesmo tempo, oferece ao treinador espaço para observar jogadores menos utilizados, modificar posições e trabalhar comportamentos que talvez fossem mais arriscados contra uma seleção de maior nível.
O amistoso, por isso, precisa ser entendido por dois ângulos diferentes. Dentro de campo, existe uma diferença técnica tão grande que uma vitória brasileira será tratada como obrigação e dificilmente permitirá conclusões definitivas. Fora dele, porém, há uma combinação de história, mercado e popularidade da Seleção Brasileira que ajuda a explicar por que a CBF incluiu Calcutá no início do novo ciclo.
Por que o Brasil foi jogar na Índia
A relação da Índia com o futebol brasileiro é antiga e não depende do desenvolvimento de sua seleção nacional. Mesmo em um país no qual o críquete ocupa uma posição muito maior no esporte, o futebol possui regiões de enorme popularidade, e Calcutá é uma delas. A cidade abriga alguns dos clubes mais tradicionais da Ásia e está acostumada a estádios cheios em jogos locais, principalmente nos confrontos que envolvem equipes como Mohun Bagan e East Bengal. Para a CBF, levar a Seleção ao país também é uma forma de se aproximar de um mercado no qual os jogadores brasileiros são acompanhados há décadas.
O ex-atacante Reinaldo conhece esse ambiente. Depois de passar por clubes como Flamengo, São Paulo e Botafogo, ele atuou no FC Goa entre 2015 e 2016, em uma equipe dirigida por Zico e que também teve brasileiros conhecidos como Léo Moura e Lúcio. Reinaldo relatou ao UOL que encontrou partidas locais com públicos próximos de 70 mil pessoas e acredita que a presença da Seleção provoque uma mobilização ainda maior em Calcutá. Sua experiência ajuda a mostrar que o futebol indiano pode ter pouca relevância competitiva internacional e, ao mesmo tempo, movimentar uma torcida numerosa e bastante interessada no jogo brasileiro.
A escolha do adversário, entretanto, não foi unanimidade nem mesmo na Índia. Para viabilizar o amistoso, a seleção local abriu mão de disputar os ASEAN Games, competição regional contra adversários mais próximos de seu nível. A imprensa indiana também estimou o custo do evento em cerca de 6 milhões de euros, aproximadamente R$ 36 milhões, o que gerou críticas de ex-jogadores, dirigentes e grupos de torcedores que defendiam a utilização desse dinheiro na infraestrutura e na formação de atletas. Bhaichung Bhutia, ex-capitão da Índia, chegou a pedir publicamente um boicote ao jogo, enquanto Igor Stimac, antigo treinador da seleção, classificou a partida como uma ação essencialmente de marketing.
A posição da CBF é diferente. A entidade tratou a visita como uma forma de aproximação com uma região que historicamente demonstra grande interesse pela Seleção e que acompanhou o Brasil também durante a última Copa. Isso ajuda a entender por que um jogo de pouco equilíbrio esportivo pode ser considerado interessante comercialmente e institucionalmente. Seleções também utilizam amistosos para alcançar novos públicos, fortalecer marcas e atender mercados que dificilmente receberiam partidas desse porte em competições oficiais.
Esse aspecto se torna ainda mais claro considerando o momento da própria Seleção. O Brasil acabou de iniciar um novo ciclo depois de uma Copa abaixo das expectativas, e uma sequência de amistosos na Austrália e na Índia coloca a equipe diante de públicos muito diferentes daqueles encontrados normalmente na América do Sul ou na Europa. Isso pode ser útil para a CBF como estratégia internacional, mas não substitui a necessidade de enfrentar seleções de nível mais alto quando o trabalho de Ancelotti entrar em fases mais avançadas. Para uma equipe que ainda procura uma nova base depois do Mundial, variedade de ambientes pode ser interessante, mas qualidade de oposição continuará sendo fundamental.
O que Ancelotti realmente pode aproveitar de uma partida tão desigual
O principal desafio para a comissão técnica é separar aquilo que pode ser avaliado daquilo que o placar tende a esconder. Contra a Índia, o Brasil provavelmente terá muito mais posse de bola, enfrentará uma equipe recuada por longos períodos e encontrará menos pressão na saída do que teria diante de seleções de primeiro nível. Isso permite observar mecanismos ofensivos, circulação contra bloco baixo, ocupação da área e reação imediata após a perda da bola. Por outro lado, não oferece um cenário adequado para medir a capacidade do time de resistir sob pressão, defender grandes espaços ou construir diante de uma marcação tecnicamente e fisicamente comparável às melhores seleções do mundo.
Ancelotti também pode utilizar o jogo para ampliar suas observações individuais. A primeira convocação depois da Copa teve vários jogadores que atuam no futebol brasileiro e nomes ainda com pouca experiência pela Seleção. O goleiro Pedro Morisco, por exemplo, deve ganhar uma oportunidade como titular depois de Hugo Souza e Otávio serem utilizados nas partidas anteriores. A lógica da comissão técnica é aproveitar uma Data Fifa longa para distribuir minutos e evitar que jogadores atravessem uma viagem extensa sem qualquer participação.
A ausência de Raphinha também abre espaço para mudanças no ataque. O atacante deixou o jogo contra a Austrália com desconforto muscular, teve um edema constatado na coxa direita e foi liberado para retornar ao Barcelona, sem que a CBF convocasse um substituto. A decisão de não chamar outro jogador também está relacionada à avaliação de que o elenco atual é suficiente para enfrentar a Índia e à logística da viagem. Isso pode significar novas oportunidades para atacantes jovens e diferentes combinações ao redor de Vinícius Júnior, Endrick e outros nomes testados neste início de ciclo.
O cuidado necessário estará na interpretação posterior. Se o Brasil vencer por uma margem larga, isso não significará necessariamente que os problemas apresentados na Copa ou nos jogos contra adversários mais organizados foram resolvidos. Se encontrar dificuldades, por outro lado, a partida naturalmente aumentará as cobranças porque a diferença entre as seleções é muito grande. Para Ancelotti, o valor do amistoso estará menos no placar e mais na possibilidade de observar como os jogadores executam comportamentos específicos quando possuem controle quase permanente da partida.
Esse contexto também ajuda a explicar por que o confronto ganha interesse histórico maior do que esportivo. Calcutá foi o cenário do penúltimo jogo da carreira de Pelé, em 24 de setembro de 1977. Naquela ocasião, o Rei atuou pelo New York Cosmos contra o Mohun Bagan, diante de uma cidade que já demonstrava enorme fascínio pelo futebol brasileiro. Uma semana depois, Pelé faria sua despedida definitiva em Nova Jersey, no amistoso entre Cosmos e Santos. Quase 49 anos depois, a Seleção chega à mesma cidade para disputar pela primeira vez uma partida contra a Índia.
A ligação histórica ajuda a dar contexto à viagem, mas o Brasil chega à Índia em uma situação bastante diferente daquela construída por suas grandes gerações. O time de Ancelotti ainda procura estabilidade depois de uma Copa em que terminou fora das quartas de final e apresentou uma das piores classificações de sua história. O novo ciclo começou com testes, mudanças de jogadores e duas partidas contra a Austrália que deixaram resultados e sinais diferentes. Enfrentar a Índia pode ser útil dentro desse processo, mas dificilmente será a partida que mostrará quanto a Seleção realmente evoluiu.
O sábado servirá, portanto, para algumas experiências táticas, observações individuais e para um encontro inédito em um dos mercados mais interessados na camisa brasileira. A dimensão do evento em Calcutá pode ser enorme e a história de Pelé na cidade acrescenta um componente especial, mas a diferença de nível entre as equipes não deve ser ignorada. Para uma Seleção que precisa reconstruir sua competitividade depois da Copa de 2026, o resultado contra a 138ª colocada do ranking terá importância limitada. O trabalho de Ancelotti será melhor medido quando o Brasil voltar a enfrentar adversários capazes de exigir aquilo que ainda precisa ser corrigido.





