O Campeonato Brasileiro inicia neste sábado, 25 de julho, uma nova etapa para a arbitragem nacional. O sistema de impedimento semiautomático passa a ser utilizado oficialmente em todos os jogos da Série A a partir da 20ª rodada, que marca o começo do segundo turno.
As primeiras partidas com a tecnologia serão Athletico-PR x Internacional, na Arena da Baixada, e Santos x Chapecoense, na Vila Belmiro, ambas às 18h30. Vasco x Mirassol, em São Januário, também contará com a ferramenta ainda neste sábado. Os dez confrontos da rodada terão o novo sistema.
O recurso automatiza parte do trabalho que antes era realizado manualmente pelos operadores do VAR. A expectativa da CBF é reduzir o tempo das revisões e oferecer maior precisão na identificação da posição dos jogadores.
A novidade, porém, não elimina a participação dos árbitros nem representa o fim das interpretações. A tecnologia auxilia na parte geométrica do lance, mas decisões sobre participação ativa, interferência em um adversário ou vantagem obtida por um jogador continuam dependendo da avaliação humana.
Como funcionará o impedimento semiautomático
A estrutura instalada nos estádios brasileiros utiliza aproximadamente 30 celulares posicionados em diferentes pontos da arena. Os aparelhos gravam a partida em resolução 4K, a 100 quadros por segundo, e enviam as imagens para um sistema de visão computacional.
A tecnologia cria uma réplica digital do jogo e calcula a posição dos atletas. Em uma possível situação de impedimento, o sistema:
- identifica a posição dos jogadores;
- recomenda o momento do contato com a bola;
- indica as partes do corpo que podem caracterizar o impedimento;
- traça as linhas virtuais;
- produz uma animação para explicar a decisão.
O resultado é enviado para a equipe do VAR, que precisa validar as informações antes de comunicar a decisão ao árbitro de campo. É justamente essa validação humana que faz com que o recurso seja chamado de “semiautomático”, e não totalmente automático.
O modelo brasileiro foi fornecido pela Genius Sports, empresa que também opera sistemas semelhantes na Premier League e nos campeonatos da Bélgica e do México. A CBF estima que o processo pode reduzir em aproximadamente 33% o tempo médio das checagens, com base nos resultados registrados nessas competições.
Confira, no vídeo, como a tecnologia funciona. exemplo na Arena da Baixada, casa do Athletico
O que realmente muda nas partidas
A principal mudança será o fim do traçado manual como procedimento padrão nas revisões de impedimento.
Até a 19ª rodada, os operadores do VAR precisavam selecionar o momento do passe, marcar manualmente os pontos de referência nos corpos dos jogadores e posicionar as linhas. Em lances muito ajustados, o processo poderia levar vários minutos.
Agora, o sistema fará automaticamente grande parte desse trabalho. O árbitro de vídeo continuará responsável pela conferência e pela aplicação da regra, mas receberá a reconstrução do lance pronta para análise.
A expectativa é que os impedimentos puramente posicionais sejam resolvidos com mais rapidez. Isso inclui os lances em que a dúvida está apenas na localização do atacante em relação ao penúltimo defensor.
A ferramenta também deverá produzir imagens mais claras para as transmissões, permitindo que o público acompanhe a posição dos jogadores em uma reconstrução digital.
Tecnologia não decidirá todas as situações
O impedimento semiautomático não será responsável por interpretar completamente a jogada.
A tecnologia pode mostrar que um jogador estava adiantado, mas estar em posição irregular, por si só, não representa uma infração. O atleta precisa participar da jogada, tocar na bola, interferir em um adversário ou obter vantagem da posição ocupada.
Situações como bloqueio da visão do goleiro, disputa pela bola, interferência no movimento de um defensor e diferença entre um desvio e uma ação deliberada do adversário continuarão sendo analisadas pelos árbitros. Essas definições fazem parte da aplicação da Regra 11.
A própria Fifa destaca que a tecnologia pode traçar a linha, mas a avaliação sobre a interferência de um jogador permanece nas mãos da arbitragem. Portanto, o novo sistema deve diminuir erros de posicionamento e acelerar revisões, mas não encerra as discussões relacionadas à interpretação.
Sistema manual será utilizado em caso de falha
A CBF estabeleceu um protocolo para situações em que o sistema não estiver disponível.
Caso uma falha seja identificada antes da partida, capitães, comissões técnicas e equipes de transmissão deverão ser informados. Se o problema ocorrer durante uma revisão, a operação voltará ao procedimento utilizado no primeiro turno, com o traçado manual das linhas pelo VAR.
A existência de uma alternativa impede que a partida seja interrompida ou adiada apenas por causa de um problema tecnológico.
Os equipamentos passaram por etapas de instalação, calibração, testes e validação. Segundo o levantamento divulgado pelo UOL, cada estádio recebeu pelo menos três testes antes da liberação definitiva.
Série A só poderá utilizar estádios preparados
O sistema está disponível nos 19 estádios utilizados regularmente pelos 20 clubes da Série A. O número é menor que o total de equipes porque Flamengo e Fluminense dividem o Maracanã.
A Arena Barueri também recebeu a estrutura por iniciativa do Palmeiras, que utiliza o local quando seu estádio principal está ocupado. Com isso, 20 arenas estão preparadas para operar a tecnologia.
A partir da implantação, um clube que precisar transferir uma partida não poderá escolher qualquer estádio. A CBF exigirá que o local alternativo também possua o sistema instalado e aprovado.
A medida busca evitar que alguns jogos do mesmo campeonato tenham acesso à tecnologia e outros não. O investimento previsto apenas para o impedimento semiautomático é de aproximadamente R$ 25 milhões até o fim de 2027.
Copa do Brasil também deverá receber a tecnologia
O planejamento da CBF inclui levar o impedimento semiautomático para as etapas mais avançadas da Copa do Brasil.
A utilização dependerá da disponibilidade da estrutura nos estádios escolhidos para as partidas. A entidade ainda deverá divulgar em quais fases o sistema começará a ser utilizado no torneio eliminatório.
Neste primeiro momento, a aplicação oficial estará concentrada no segundo turno do Brasileirão.
CBF estuda câmera no árbitro para 2027
Com o impedimento semiautomático em funcionamento, a Comissão de Arbitragem já analisa outras duas ferramentas para a próxima temporada.
A primeira é a refcam, uma pequena câmera presa ao corpo do árbitro. O equipamento acompanha sua movimentação e registra os lances a partir da visão de quem está dentro do campo.
A tecnologia recebeu destaque nas transmissões da Copa do Mundo de 2026. As imagens permitem mostrar a proximidade dos jogadores, a velocidade das jogadas e as conversas realizadas durante momentos importantes da partida.
A CBF ainda avalia o orçamento necessário e não confirmou que a câmera será adotada em 2027. O recurso também não funcionaria necessariamente como ferramenta para mudar decisões. Sua utilização inicial pode estar mais ligada às transmissões, ao treinamento e à análise do trabalho dos árbitros.
Tecnologia da linha do gol também está em análise
A segunda ferramenta estudada é a tecnologia da linha do gol, conhecida internacionalmente pela sigla GLT.
O sistema é utilizado para determinar se a bola ultrapassou completamente a linha entre as traves. A informação é enviada diretamente ao árbitro, reduzindo as dúvidas em lances nos quais a bola é afastada muito perto do gol.
O modelo avaliado pela CBF é diferente daquele utilizado pela Fifa na última Copa do Mundo. Em vez de depender de um chip instalado na bola, a ferramenta analisada pela entidade brasileira utiliza câmeras específicas para monitorar diferentes pontos da linha.
A tecnologia ainda está em fase de estudo financeiro e técnico. Não existe confirmação de contratação nem data oficial para a estreia.
Investimento na arbitragem chegará a R$ 195 milhões
A modernização tecnológica faz parte de um programa mais amplo da CBF para a arbitragem.
A entidade prevê investir aproximadamente R$ 195 milhões durante 2026 e 2027, cerca de R$ 50 milhões a mais que no biênio anterior. O projeto também inclui a profissionalização de 72 árbitros, treinamentos, formação de novos profissionais e ampliação da estrutura do VAR.
O impedimento semiautomático é o primeiro resultado visível desse processo dentro do Brasileirão. Refcam e tecnologia da linha do gol aparecem como os próximos possíveis passos, mas ainda dependem de orçamento e aprovação.
A estreia representa um avanço importante para o campeonato, especialmente por tornar mais rápidas e precisas as decisões posicionais. Ainda assim, a ferramenta não deve ser apresentada como solução para todos os problemas da arbitragem.
A máquina poderá localizar jogadores e traçar linhas. A interpretação da jogada, a aplicação da regra e a decisão final continuarão pertencendo aos árbitros.





