
Julio Casares gastou mais de R$ 1 milhão com o cartão corporativo do São Paulo durante o período em que presidiu o clube, entre janeiro de 2021 e dezembro de 2025. Os dados aparecem em faturas obtidas pelo ge.
O valor total reúne despesas ligadas ao exercício do cargo e cobranças que foram posteriormente consideradas pessoais pelo próprio ex-dirigente. Casares devolveu R$ 560.401,74 ao São Paulo em novembro de 2025, por meio de seis depósitos realizados no espaço de uma semana.
A defesa afirma que o dinheiro restituído correspondia a despesas sujeitas a diferentes interpretações. Também sustenta que os demais pagamentos foram operacionais e ocorreram durante reuniões, viagens e compromissos relacionados à presidência do clube.
Faturas mostram gastos em locais de luxo
Entre as despesas encontradas estão restaurantes, lojas de roupas e produtos de beleza, consultas médicas, salão de beleza e uma casa de charutos.
O cartão do clube foi utilizado 71 vezes no Esch Café, estabelecimento que reúne restaurante, bar e tabacaria. As cobranças somaram R$ 77.140,97 entre 2021 e 2025. Somente no último ano da gestão, foram registradas 34 utilizações no local.
Outro estabelecimento frequente foi o restaurante Gero. As faturas mostram 53 cobranças, que totalizaram R$ 71.797,12 durante os cinco anos do mandato. Em 2025, foram 25 pagamentos e aproximadamente R$ 37,4 mil gastos no local.
Também foram identificadas cobranças em um restaurante que tinha Mara Carvalho, namorada de Casares, como uma das sócias. Em 2024, o cartão corporativo foi utilizado 12 vezes no Café Empório Ibérico, com despesas de R$ 11.939,71. Ela deixou a sociedade em maio de 2025.
Viagens tiveram compras em lojas de grife
As despesas aumentaram significativamente nos dois últimos anos da gestão. Em 2021, primeiro ano do mandato, Casares gastou cerca de R$ 20 mil. O total chegou a R$ 428.568,52 em 2024 e a R$ 342.352,43 entre janeiro e novembro de 2025.
Durante uma pré-temporada do São Paulo nos Estados Unidos, em janeiro de 2025, o cartão acumulou R$ 51.013,33 em cobranças. Entre elas estava uma compra de R$ 26.241,22 na Prada, além de despesas em restaurantes e uma farmácia.
Em 2024, Casares também utilizou o cartão durante viagens a Londres e Las Vegas. Nos Estados Unidos, onde trabalhou como chefe da delegação brasileira na Copa América, foram gastos R$ 79.940,36 com recursos do São Paulo. As faturas incluem compras na Zara, Victoria’s Secret, Sephora e Prada, além de restaurantes.
Na viagem à Inglaterra, os gastos chegaram a R$ 80.084,14. Entre as cobranças estavam uma loja de departamentos, restaurantes e outros estabelecimentos visitados durante a passagem por Londres.
Cartão também foi usado em cuidados pessoais
As faturas apresentam pagamentos relacionados a consultas com um endocrinologista. Foram identificadas três cobranças, nos valores de R$ 2.100, R$ 1.700 e R$ 1.900.
Também foram registradas nove idas a um salão de beleza entre 2024 e 2025. As sete cobranças realizadas somente no último ano chegaram a R$ 3.666.
Apesar desses exemplos, o valor superior a R$ 1 milhão não representa apenas despesas pessoais. Entre as cobranças havia pagamentos considerados institucionais, como R$ 70.376,42 pela hospedagem da equipe antes de uma partida contra o Cuiabá, além de encontros com empresários e reuniões profissionais. Por isso, Casares não devolveu todo o valor utilizado no cartão.
São Paulo analisa todas as faturas
Durante quase todo o mandato, o São Paulo não tinha uma política específica para o cartão corporativo nem exigia prestação periódica de contas. Uma regulamentação foi criada somente no fim de 2025, depois da devolução feita por Casares.
A nova política proíbe expressamente despesas pessoais, mesmo quando existe a intenção de ressarcir posteriormente o clube. O documento permite gastos com viagens institucionais, hospedagens, alimentação, reuniões com patrocinadores e eventos oficiais.
Em nota, o São Paulo declarou que o valor devolvido foi estabelecido pelo próprio Casares. A atual administração informou que está analisando todas as faturas anteriores e que poderá exigir novos ressarcimentos caso outras despesas pessoais sejam comprovadas.
Defesa nega irregularidade
O advogado Bruno Borragine afirmou que o cartão foi utilizado no exercício das funções de Casares como presidente. Segundo a defesa, os valores devolvidos eram aqueles que poderiam gerar interpretações sobre uma possível natureza particular, enquanto as demais despesas estariam registradas no departamento financeiro.
A defesa também destacou que não existia uma regulamentação específica durante boa parte da gestão e afirmou que Casares participou da elaboração da política implantada posteriormente. Os representantes do ex-presidente pediram ainda que o clube divulgue o histórico de utilização de cartões corporativos por gestões anteriores.
Casares pode ser expulso do clube
Casares foi afastado após a aprovação de seu impeachment pelo Conselho Deliberativo, em janeiro de 2026. Antes de o processo ser analisado pela Assembleia Geral, ele renunciou à presidência.
A Comissão de Ética também recebeu um pedido para que o ex-dirigente seja expulso do quadro associativo por possível gestão temerária ou irregular. O procedimento permanece aberto.
Casares ainda é investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público em outros casos ligados à administração do clube. As apurações relacionadas a saques e à exploração de camarotes do Morumbis são independentes das faturas do cartão corporativo.