
A chamada “Lei Vini Jr.” terá aplicações diferentes no Brasil e na Espanha na temporada 2026/27. Enquanto a CBF decidiu que jogadores que cubram deliberadamente a boca durante uma discussão com adversários poderão receber cartão vermelho, o futebol espanhol optou por não utilizar a punição dessa maneira. A decisão foi tomada pelo Comitê Técnico de Árbitros (CTA) da Real Federação Espanhola de Futebol antes do início da nova edição de LaLiga.
A mudança está prevista oficialmente nas Regras do Jogo da IFAB, mas existe um detalhe fundamental: sua utilização é opcional para cada competição. A entidade internacional permite que o organizador determine a expulsão de um jogador que cubra a boca enquanto se comunica com um adversário em uma situação provocativa, depreciativa ou inflamatória.
Espanha considera vermelho automático excessivo
Na Espanha, o CTA decidiu não exercer essa opção.
Segundo orientação divulgada para a temporada, simplesmente cobrir a boca durante um confronto não será motivo suficiente para cartão vermelho no Campeonato Espanhol. A avaliação dos árbitros espanhóis é de que não seria possível saber automaticamente o que foi dito pelo jogador e que uma expulsão apenas pelo gesto poderia representar uma punição excessiva.
Isso não significa, porém, que o gesto será completamente ignorado.
Cobrir deliberadamente a boca para esconder uma conversa durante uma discussão poderá ser considerado conduta antidesportiva e resultar em cartão amarelo, dependendo das circunstâncias. Caso exista comprovação de insultos, ofensas discriminatórias ou comportamento abusivo, o jogador ainda poderá sofrer as punições disciplinares correspondentes.
Portanto, a Espanha não está retirando das regras a punição para racismo ou outras formas de discriminação. A diferença está especificamente na decisão de não transformar o ato de esconder a boca, por si só, em uma expulsão automática.
Brasil escolheu caminho diferente
A CBF adotou justamente a interpretação mais rígida.
Em reunião com os clubes das Séries A e B realizada nesta semana, a entidade aprovou um amplo pacote de alterações das regras para o futebol brasileiro. Entre elas está o chamado “Protocolo Vini Jr.”: tapar intencionalmente a boca ao discutir com um adversário passa a ser uma conduta passível de cartão vermelho.
A medida foi antecipada pelo futebol brasileiro junto com outras mudanças testadas durante a Copa do Mundo de 2026, como novas regras para combater a cera, ampliar o tempo efetivo de jogo e permitir determinadas intervenções adicionais do VAR.
Dessa forma, uma situação idêntica poderá receber tratamentos diferentes no Brasileirão e em LaLiga.
No Brasil, um jogador que cobrir a boca durante uma discussão poderá ser expulso diretamente pela aplicação do protocolo. Na Espanha, a mesma ação não provocará vermelho automático, embora possa resultar em amarelo e em punições posteriores caso uma eventual ofensa seja comprovada.
Por que a regra ganhou o nome de Vini Jr.?
A alteração foi criada após um episódio envolvendo Vinicius Junior e Gianluca Prestianni, do Benfica, durante a Champions League de 2025/26.
O brasileiro acusou Prestianni de proferir uma ofensa discriminatória enquanto o argentino escondia a boca durante a discussão. O jogador do Benfica negou a acusação, mas posteriormente recebeu uma suspensão de seis partidas da UEFA por comportamento discriminatório. O episódio ajudou a acelerar a discussão sobre uma maneira de impedir que jogadores ocultassem deliberadamente aquilo que dizem em confrontos dentro de campo.
Em abril, a IFAB aprovou por unanimidade a nova possibilidade de punição. A justificativa apresentada pela entidade foi criar um mecanismo de prevenção contra comentários impróprios, insultos ou outras formas de abuso que jogadores tentem esconder das câmeras e da arbitragem cobrindo a boca com a mão, braço ou camisa.
Apesar do apelido pelo qual ficou conhecida, tecnicamente não se trata de uma “lei” criada especificamente para Vinicius. É uma alteração opcional da Regra 12 da IFAB, adotada após o episódio protagonizado pelo brasileiro.
Regra já provocou expulsões na Copa do Mundo
A FIFA optou pela aplicação mais rigorosa durante a Copa do Mundo de 2026.
O primeiro jogador expulso pela nova norma foi Miguel Almirón, do Paraguai. Ele recebeu vermelho direto após cobrir a boca durante uma discussão com Mert Müldür, da Turquia. O lance também passou pela análise do VAR.
Poucos dias depois, aconteceu novamente. Piero Hincapié, do Equador, foi expulso nos minutos finais da derrota por 2 a 0 para o México ao esconder a boca enquanto discutia com Santiago Giménez.
Os episódios também geraram críticas justamente pela severidade da medida. O técnico do Paraguai, Gustavo Alfaro, por exemplo, reconheceu que a expulsão de Almirón estava de acordo com a regra utilizada no Mundial, mas questionou se um cartão vermelho era proporcional à ação.
IFAB permite que cada competição escolha
É justamente essa discussão que explica por que Brasil e Espanha chegaram a decisões diferentes.
Quando aprovou a mudança, a IFAB determinou explicitamente que ela funcionaria como uma “competition option”. Isso significa que uma liga ou federação pode introduzir o vermelho pela ação de cobrir a boca, mas não é obrigada a fazê-lo.
A FIFA aplicou a norma no Mundial. A CBF decidiu utilizá-la também no futebol brasileiro. O CTA espanhol, por outro lado, optou por uma interpretação menos automática para LaLiga.
Assim, a manchete de que a Espanha “rejeitou a Lei Vini Jr.” precisa de uma pequena ressalva: o futebol espanhol não rejeitou as punições contra insultos racistas ou discriminatórios; decidiu apenas não adotar o cartão vermelho automático previsto como opção pela IFAB para quem cobre a boca durante uma discussão.
A diferença já estará valendo a partir da nova temporada. E cria uma situação curiosa justamente no país onde Vinicius Junior travou alguns dos episódios mais conhecidos de sua luta contra o racismo no futebol europeu.