Flamengo vive desgaste interno às vésperas da Libertadores

Cobranças pelo estilo de jogo, tensão com o departamento médico e insatisfação com José Boto aumentam pressão antes do confronto com o Cruzeiro

O Flamengo entra em agosto cercado por cobranças dentro e fora de campo. As atuações abaixo do esperado depois da Copa do Mundo, os resultados recentes e uma série de desgastes internos aumentaram a pressão sobre o clube às vésperas das oitavas de final da Libertadores.

O ambiente no Ninho do Urubu reúne questionamentos sobre o modelo de jogo de Leonardo Jardim, atritos entre a comissão técnica e o departamento médico e críticas ao trabalho do diretor de futebol José Boto. Apesar das divergências, não há indicação de rompimento entre o treinador e o elenco. O principal problema está na dificuldade de transformar as ideias da comissão em desempenho dentro de campo.

O Flamengo empatou consecutivamente com São Paulo e Internacional pelo Campeonato Brasileiro. Além dos pontos perdidos, as partidas aumentaram a distância para o Palmeiras na liderança e reforçaram a percepção de que o time ainda não recuperou as características apresentadas antes da interrupção da temporada.

O próximo compromisso será contra o Vitória, no dia 9 de agosto, no Maracanã. Três dias depois, o Rubro-Negro enfrenta o Cruzeiro no Mineirão pelo primeiro jogo das oitavas da Libertadores. A partida de volta acontecerá em 19 de agosto, também às 21h30, no Maracanã.

Jogadores cobram recuperação do estilo de jogo

Parte das cobranças está relacionada à maneira como o Flamengo passou a atuar depois da Copa do Mundo.

Uma ala do departamento de futebol entende que a equipe perdeu características importantes construídas durante o trabalho de Filipe Luís. O time deixou de controlar as partidas com a mesma frequência e, ao mesmo tempo, passou a oferecer mais espaços defensivos aos adversários.

Leonardo Jardim assumiu o comando em março, depois da demissão de Filipe Luís. O treinador português é descrito internamente como direto e trabalhador, e não enfrenta problemas graves de relacionamento com os jogadores. A divergência está concentrada no modelo de jogo, nos treinamentos e na velocidade de adaptação do elenco.

O lateral Varela tornou pública a insatisfação depois dos últimos resultados. O uruguaio afirmou que o grupo precisava “fechar as portas e começar de novo”. Danilo adotou um discurso de autocrítica e defendeu uma rápida reconexão entre os jogadores e as ideias da comissão técnica.

O zagueiro reconheceu que as decisões estão próximas e que o Flamengo não possui tempo para aguardar uma evolução lenta. A Libertadores, especialmente depois da eliminação precoce na Copa do Brasil, ganhou um peso ainda maior para o planejamento da temporada.

Copa do Mundo prejudicou preparação de Jardim

Leonardo Jardim considera que a pausa no calendário não trouxe os benefícios esperados.

Nove jogadores do Flamengo permaneceram aproximadamente dois meses afastados do trabalho cotidiano do clube por causa da Copa do Mundo. Durante esse período, os atletas estiveram sob o comando de diferentes treinadores e foram submetidos a ideias táticas e métodos de preparação distintos.

Outros integrantes do elenco trabalharam separadamente ou retornaram gradualmente após problemas físicos. Quando o grupo voltou a ficar próximo de sua formação completa, a sequência de três jogos em poucos dias limitou o tempo disponível para os ajustes.

Jardim afirmou que ainda não conseguiu “afinar” a equipe depois da reunião dos diferentes grupos. O treinador pretende aproveitar o período sem partidas para reorganizar o funcionamento coletivo e recuperar o nível apresentado antes da interrupção.

O Flamengo terá mais de uma semana de treinamentos antes de enfrentar o Vitória. O jogo pelo Brasileirão será utilizado como último teste antes do início do confronto eliminatório com o Cruzeiro.

Comissão técnica e departamento médico vivem tensão

O desempenho esportivo não é o único motivo de preocupação. A relação entre a comissão técnica e o departamento médico também atravessa um momento de desgaste.

Leonardo Jardim demonstrou publicamente insatisfação com prazos de recuperação que precisaram ser adiados. Os casos de Erick Pulgar e Léo Ortiz provocaram questionamentos sobre a avaliação inicial das lesões e a previsão de retorno dos atletas.

Durante a intertemporada realizada em Portugal, o treinador revelou que Léo Ortiz deveria permanecer afastado por aproximadamente 15 dias. Depois de três semanas, porém, o zagueiro ainda sentia o problema durante o aquecimento e não possuía uma nova data para voltar.

As alterações de prazo dificultam o planejamento da comissão. Jardim prepara escalações, treinamentos e estratégias considerando determinados retornos, mas precisa reformular o trabalho quando os jogadores não são liberados.

O departamento médico já havia passado por uma extensa reformulação desde a chegada de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, à presidência, em dezembro de 2024. O setor também precisou recuperar a confiança de jogadores preocupados com os métodos adotados após mudanças na estrutura.

José Boto sofre críticas de jogadores e funcionários

Outro foco de insatisfação é José Boto.

A relação do diretor de futebol com atletas e funcionários é descrita como distante. O dirigente recebe críticas pela forma considerada excessivamente dura de realizar cobranças e pela maneira como conduz o contato cotidiano com diferentes setores do clube.

O processo que terminou com a demissão de Filipe Luís, em março, ampliou a rejeição interna. Boto participou diretamente da saída do treinador que havia conquistado títulos importantes, incluindo a Libertadores e o Campeonato Brasileiro de 2025.

Internamente, também existem reclamações sobre a exposição do diretor em materiais de divulgação e sobre pedidos feitos a funcionários para serviços de caráter particular. O conjunto desses episódios provocou um desgaste que não foi solucionado pela contratação de Leonardo Jardim.

Bap chegou a procurar possíveis substitutos para o cargo no começo do ano, mas decidiu manter José Boto. A relação profissional do diretor com Jardim apareceu como um dos argumentos para a continuidade. Mesmo assim, a permanência do português em 2027 é considerada pouco provável nos bastidores do clube.

Bap acompanha ambiente no Ninho do Urubu

O presidente esteve no centro de treinamento nos últimos dias para acompanhar reuniões e o trabalho do departamento de futebol.

Bap esperava que as conquistas de 2025 ajudassem a diminuir as tensões internas. O início irregular da nova temporada, a demissão de Filipe Luís e as dificuldades posteriores impediram que o ambiente se estabilizasse.

A diretoria evita tratar o momento como uma ruptura generalizada. O Flamengo ainda possui um elenco valorizado, disputa o Campeonato Brasileiro e continua na luta pelo principal título continental.

A preocupação está na proximidade das decisões. O clube precisa solucionar problemas esportivos e administrativos enquanto prepara uma eliminatória contra um adversário brasileiro.

Empates aumentaram pressão no Brasileirão

Os resultados diante de São Paulo e Internacional foram recebidos como oportunidades desperdiçadas.

O Flamengo esperava reduzir ou manter a distância para o Palmeiras, mas os empates permitiram que o rival abrisse vantagem na liderança. A maneira como o time atuou também incomodou, especialmente pela dificuldade para controlar os jogos e manter equilíbrio entre ataque e defesa.

Jardim reconheceu que os resultados ficaram abaixo do objetivo. Para o técnico, os jogadores sabem que precisam reagir à adversidade e utilizar o período de treinamentos para recuperar a confiança e o funcionamento coletivo.

O clube volta a campo apenas no dia 9. A pausa oferece a primeira sequência mais longa de treinamentos com grande parte do grupo desde o retorno dos convocados para o Mundial.

Libertadores passa a ser decisiva para a temporada

O Flamengo enfrentará o Cruzeiro nos dias 12 e 19 de agosto. O primeiro jogo será disputado no Mineirão, enquanto o segundo acontecerá no Maracanã. Por ter realizado uma campanha superior na fase de grupos, o Rubro-Negro terá a vantagem de decidir em casa.

A classificação é tratada internamente como fundamental. Depois da queda na Copa do Brasil, uma nova eliminação nas oitavas representaria um impacto esportivo, financeiro e político considerável. Nos bastidores, esse cenário é classificado como catastrófico para o planejamento.

A Libertadores também possui importância simbólica. O Flamengo defende o título conquistado em 2025 e iniciou a temporada com a expectativa de permanecer entre as principais forças do continente. A eliminação diante de um adversário brasileiro ampliaria as cobranças sobre Jardim, Boto, o departamento médico e a própria direção.

O jogo contra o Vitória será a oportunidade para demonstrar uma reação antes da viagem a Belo Horizonte. Mais do que conquistar três pontos, o Flamengo precisará mostrar sinais de recuperação coletiva.

O clube ainda não vive uma ruptura entre treinador e elenco, mas acumula divergências em diferentes setores. As próximas semanas definirão se o período de treinamentos será suficiente para reconstruir o time ou se os desgastes internos passarão a comprometer definitivamente a temporada.

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