Ídolo da Índia critica amistoso contra o Brasil, por conta da situação do futebol local

Ex-capitão Baichung Bhutia questiona o momento e a utilidade da partida em meio à crise dos clubes, à indefinição da liga nacional e à disputa da FIFA ASEAN Cup

O amistoso entre Índia e Brasil, marcado para 3 de outubro, em Calcutá, provocou críticas de Baichung Bhutia, um dos principais jogadores da história do futebol indiano. O ex-atacante questionou o momento escolhido para a partida e afirmou que a federação deveria priorizar a organização das competições nacionais e o desenvolvimento da modalidade no país.

Bhutia considera que receber a Seleção Brasileira poderia representar uma celebração para os torcedores. O problema, segundo ele, é que o evento acontecerá enquanto o futebol indiano enfrenta dificuldades financeiras, clubes ameaçam encerrar atividades e a principal liga do país ainda tenta definir sua próxima temporada.

O antigo capitão também demonstrou preocupação com a proximidade da partida em relação à primeira edição da FIFA ASEAN Cup. A Índia participará da competição entre setembro e outubro e ainda não sabe como organizará sua seleção para cumprir os dois compromissos.

— O momento do amistoso com o Brasil é um problema para mim — declarou Bhutia ao Times of India.

Brasil enfrentará a Índia em Calcutá

A Federação de Futebol da Índia anunciou que o amistoso será disputado em 3 de outubro de 2026, no Vivekananda Yuba Bharati Krirangan, também conhecido como Salt Lake Stadium, em Calcutá.

Segundo a entidade, será o adversário mais bem colocado no ranking da FIFA enfrentado pela Índia desde a criação da classificação, em 1992. O Brasil aparecia na quinta posição, enquanto a seleção indiana ocupava o 138º lugar.

A federação classificou a partida como um dos maiores acontecimentos da história da seleção nacional. A expectativa é de grande presença de público, já que o Brasil possui uma base numerosa de torcedores no país asiático.

O vice-secretário-geral da entidade, M. Satyanarayan, afirmou que receber uma seleção da importância do Brasil representará um momento extraordinário para o futebol indiano. Subrata Paul, diretor de seleções nacionais, destacou a oportunidade de os jogadores enfrentarem uma das equipes mais tradicionais do mundo.

A partida faz parte da primeira Data Fifa depois da Copa do Mundo de 2026. Antes de viajar à Índia, a Seleção Brasileira deverá realizar dois amistosos contra a Austrália, nos dias 25 e 29 de setembro, em Townsville e Brisbane. A Associação Indiana confirmou o jogo de Calcutá, mas a CBF ainda não havia publicado um anúncio próprio em seu site oficial até esta terça-feira (4).

Leia mais: Seleção Brasileira prepara até cinco amistosos para fechar 2026

Baichung questiona utilidade do amistoso

A crítica de Baichung Bhutia não está diretamente relacionada à qualidade do adversário.

O ex-jogador reconhece que enfrentar o Brasil produzirá interesse comercial, audiência e mobilização dos torcedores. Sua dúvida envolve o que essa partida poderá deixar para o desenvolvimento permanente da modalidade na Índia.

Bhutia questionou se a seleção e os clubes receberão algum benefício estrutural depois do evento. Para o antigo capitão, a realização de uma partida de grande repercussão não pode esconder os problemas enfrentados pelo futebol do país.

A Índia já recebeu outros eventos internacionais importantes. Argentina e Uruguai participaram da Copa Nehru durante a década de 1980, enquanto a seleção argentina esteve no país em 2011 e novamente em 2025.

Essas visitas produziram grandes públicos e repercussão, mas Bhutia avalia que não foram suficientes para mudar a trajetória do futebol nacional. O temor é de que a presença do Brasil resulte em mais uma noite marcante sem deixar melhorias nas competições, nas categorias de base ou nos clubes.

Data coincide com a FIFA ASEAN Cup

O calendário é uma das principais preocupações apresentadas pelo ex-capitão.

A primeira FIFA ASEAN Cup será realizada durante a janela internacional entre 21 de setembro e 6 de outubro. A Índia foi colocada no Grupo A da primeira divisão, ao lado de Indonésia, Malásia e Singapura. As partidas da chave serão realizadas em território indonésio.

O amistoso contra o Brasil está marcado justamente para o último dia previsto para a competição regional. De acordo com o formato divulgado pela imprensa indiana, apenas o primeiro colocado da chave avançará à decisão.

Bhutia afirmou que ainda não está claro como a seleção será formada durante esse período. A equipe poderá precisar disputar partidas decisivas na Indonésia e, ao mesmo tempo, preparar o confronto contra o Brasil em Calcutá.

O antigo atacante considera que a FIFA ASEAN Cup deveria receber prioridade esportiva. A Índia enfrentará adversários mais próximos de seu nível técnico e terá uma possibilidade real de disputar um título, melhorar sua posição no ranking e desenvolver o entrosamento do elenco.

Contra o Brasil, o benefício estaria principalmente na experiência individual dos jogadores e na repercussão do evento. Na competição regional, os resultados terão impacto direto sobre o planejamento da seleção.

Jamshedpur FC anuncia encerramento das atividades

A declaração de Bhutia ganhou força poucos dias depois de o Jamshedpur FC anunciar que encerraria suas atividades após a participação na Durand Cup.

O clube pertence ao Tata Group, um dos maiores conglomerados empresariais da Índia, e disputa a Indian Super League desde 2017. A equipe conquistou o troféu destinado ao líder da temporada regular em 2021/22 e chegou à final da Supercopa nacional na temporada passada.

Jogadores publicaram um vídeo pedindo que os proprietários reconsiderassem a decisão. Alguns atletas apareceram chorando enquanto explicavam que haviam sido informados sobre o encerramento das operações.

O defensor Pratik Chaudhari afirmou que a saída do Jamshedpur não representaria apenas a perda de um clube, mas um prejuízo para todo o futebol indiano.

Sunil Chhetri, maior referência recente da seleção, também pediu que o Tata Group voltasse atrás. O ex-capitão reconheceu que a continuidade poderia não ser a melhor decisão comercial, mas considerou a presença da empresa indispensável para a estabilidade da modalidade.

Para Baichung Bhutia, uma empresa da importância do Tata Group abandonar um clube da primeira divisão demonstra a gravidade do cenário. O ex-atacante utilizou o episódio para questionar a prioridade concedida a um amistoso de grande apelo comercial.

Liga indiana vive indefinição

A temporada 2026/27 da Indian Super League ainda não possuía uma data de início confirmada quando o amistoso foi anunciado. A competição também buscava um parceiro de transmissão.

Na temporada anterior, a liga precisou adotar um formato reduzido depois do fim da parceria comercial entre a Federação Indiana e a Reliance Industries. A relação durou 15 anos e terminou em meio a um processo sobre a implantação de uma nova constituição para a federação.

A competição passou a funcionar sob um modelo de administração liderado pelos próprios clubes, mas encontrou dificuldades para estabelecer seu calendário, garantir receitas e manter o interesse comercial.

A situação atinge diretamente jogadores e funcionários. Sem uma previsão segura de partidas, os clubes enfrentam problemas para definir orçamentos, contratos, elencos e patrocínios.

O encerramento do Jamshedpur amplia o risco de que outras equipes considerem medidas semelhantes. Essa possibilidade explica por que o amistoso contra o Brasil foi recebido com menos entusiasmo por pessoas ligadas ao futebol local.

Bhutia cobra organização das categorias de base

O ex-capitão também criticou o desempenho das seleções de base.

Bhutia afirmou que nem mesmo as equipes sub-17 estão conseguindo se classificar regularmente para as competições continentais. Segundo ele, os programas juvenis perderam direção e não possuem recursos suficientes para ampliar o trabalho de formação.

A avaliação contrasta com os objetivos estabelecidos no projeto estratégico “Visão 2047”, criado pela Federação Indiana para desenvolver a modalidade nas próximas décadas.

A realização de jogos contra grandes seleções pode incentivar crianças e atrair novos torcedores. Entretanto, esse efeito dependerá da existência de academias, treinadores, campeonatos escolares e clubes capazes de receber os jovens interessados.

Sem essa estrutura, o impacto tende a ficar limitado à venda de ingressos, à audiência e à exposição temporária da seleção.

Bhutia defende que os recursos e a atenção administrativa sejam direcionados primeiro à organização interna. Para ele, a federação precisa recuperar a estabilidade da liga, proteger os clubes e reconstruir os programas de base antes de utilizar partidas especiais como demonstração de crescimento.

Quem é Baichung Bhutia

Baichung Bhutia é tratado pela própria FIFA como uma lenda do futebol indiano. O antigo centroavante disputou mais de 100 partidas pela seleção e foi capitão durante parte importante de sua carreira internacional.

Conhecido pelo apelido de “Franco-atirador de Sikkim”, tornou-se uma das figuras mais reconhecidas da modalidade no país antes da ascensão de Sunil Chhetri.

Bhutia participou da campanha que levou a Índia à Copa da Ásia de 2011, encerrando um período de 27 anos sem disputar a principal competição de seleções do continente. A classificação permanece entre os momentos mais importantes de sua carreira.

Depois da aposentadoria, continuou envolvido com o desenvolvimento da modalidade. Criou escolas de futebol, integrou estruturas técnicas e participou de debates sobre as seleções e as competições nacionais.

Por isso, sua manifestação não representa apenas a opinião de um ex-jogador. Bhutia é uma das vozes mais influentes do futebol indiano e já ocupou funções relacionadas ao planejamento da federação.

Jogador da seleção apoia críticas

Nikhil Poojary, lateral da seleção indiana, também se manifestou sobre a situação.

O jogador destacou o contraste entre a empolgação provocada pela visita do Brasil e a notícia de que um clube da primeira divisão encerraria suas atividades.

A reação mostra que a preocupação não está limitada a ex-atletas ou dirigentes de oposição. Jogadores em atividade também temem os efeitos da instabilidade sobre empregos, campeonatos e desenvolvimento profissional.

A perda de um clube reduz o número de vagas disponíveis na elite e dificulta a formação de novos jogadores. Também pode diminuir o interesse de empresas em investir na competição.

Nesse cenário, o amistoso passou a simbolizar duas realidades diferentes. De um lado, a Índia terá a possibilidade de receber uma das seleções mais populares do mundo. Do outro, ainda não consegue garantir estabilidade para suas próprias equipes profissionais.

Federação defende valor esportivo da partida

A Associação Indiana apresenta uma interpretação diferente.

A entidade considera que enfrentar o Brasil permitirá que os jogadores testem seu nível contra adversários de qualidade muito superior. A experiência também poderia aumentar a confiança e oferecer referências sobre intensidade, velocidade e exigência técnica no futebol internacional.

A visita da Seleção Brasileira deve gerar grande exposição para a modalidade em um país no qual o críquete ocupa a posição de esporte dominante.

O evento poderá atrair patrocinadores, aumentar a audiência e aproximar novos torcedores. A presença de jogadores conhecidos internacionalmente também tende a transformar a partida em um produto comercial importante.

A federação ressalta ainda a ligação dos indianos com o futebol brasileiro. Segundo a entidade, a Índia possui uma das maiores bases de torcedores da Seleção fora do Brasil.

A divergência, portanto, não está na capacidade do amistoso de produzir interesse. Bhutia questiona se esse interesse será transformado em uma política permanente para a modalidade.

Partida pode ter valor sem resolver a crise

Enfrentar o Brasil pode oferecer benefícios esportivos e comerciais à Índia. Os jogadores terão contato com um nível técnico raramente encontrado em seu calendário, enquanto os torcedores poderão acompanhar uma seleção de grande prestígio internacional.

O amistoso também poderá ser utilizado para divulgar o futebol local e gerar receitas. Essas possibilidades explicam a comemoração da federação ao anunciar o confronto.

A crítica de Bhutia, entretanto, está direcionada à ideia de apresentar o evento como um sinal de evolução. Uma partida isolada não resolve a ausência de calendário, a saída de investidores, a fragilidade das categorias de base ou os problemas financeiros dos clubes.

O ex-capitão não pediu necessariamente o cancelamento do jogo. Sua posição é de que a visita brasileira não deveria receber prioridade sobre a FIFA ASEAN Cup e sobre a reorganização do futebol nacional.

A Índia enfrentará o Brasil em um dos maiores eventos esportivos já organizados no país. Até 3 de outubro, porém, a federação terá que explicar como pretende conciliar o amistoso com a competição regional e quais medidas adotará para impedir que a crise interna continue avançando.

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