Igor Thiago: Série B, depressão e recorde na Premier League

Igot Thiago comemorando gol pela Seleção Brasileira; Foto: Wagner Meier

Se tem algo em comum a diversos jogadores do atual grupo da Seleção Brasileira, é o fato de terem jogado pouco em solo brasileiro ou não serem tão conhecidos do grande público. 

Igor Thiago é mais um nessa lista. Mas ao contrário de jogadores como Matheus Cunha, Martinelli e Raphinha, que saíram do Brasil antes mesmo de virarem profissionais, o centroavante que hoje faz sucesso na Premier League ficou pouco mais de dois anos no elenco principal do Cruzeiro. 

Muitas questões o fizeram sair em 2022 para atuar na Europa, ainda que começando em mercados periféricos, como Bulgária e Bélgica. Nascido em Brasília, desde cedo ele aprendeu a batalhar por espaço, como faz hoje quando encara os zagueiros adversários, ainda que fosse longe de casa..

Para seguir no futebol, teve que superar a perda do pai aos 13 anos, as dificuldades financeiras e a distância da família. Foi em Verê, no interior do Paraná a 500 quilômetros de Curitiba, que ele teve oportunidade na base do time que leva o nome da cidade.

Lá, se destacou, foi campeão estadual batendo os grandes do Estado e fez três gols nos dois jogos da final contra o Paraná. O desempenho chamou atenção do Cruzeiro, que o levou para Belo Horizonte.

“Ele já tinha passado por alguns clubes em avaliação, mas não tinha conseguido jogar. No Verê teve as oportunidades no sub-17 e até no profissional. Na base ele foi protagonista no título inédito no estadual. Isso o colocou na situação de ir para o Cruzeiro, conquistando espaço em uma carreira nacional e depois mundial – falou Bruno Saymon, ex-técnico do Igor Thiago no Verê, em entrevista ao ge

Na Raposa, Igor Thiago encontraria um cenário bem diferente do pequeno Verê: um clube grande, em crise dentro e fora de campo e com muita pressão.

O Cruzeiro foi o primeiro clube profissional de Igor Thiago. Foto: Igor Sales / Cruzeiro EC

Cruzeiro: um clube em crise e um atacante inexperiente

O atacante chegou ao sub-20 do Cruzeiro em 2019, ano em que o Cruzeiro acabaria rebaixado para a Série B do Brasileirão. Após anos de má gestão e em grave crise financeira, o clube celeste não resistiu e acabou encarando a inédita situação.

Naquele momento, ainda chamado apenas de Thiago, ele não sabia o quanto a situação do clube ia impactar na vida – e na carreira – dele. Após participar da Copinha em 2020, ele foi promovido aos profissionais. 

O começo até foi animador, em seis jogos pelo Campeonato Mineiro marcou três gols, mas no restante da temporada não conseguiu sobressair. Entrou em campo mais 21 vezes, quase sempre vindo do banco, sem balançar as redes.

No ano seguinte, novamente na Série B, conseguiu ter mais oportunidades como titular, mas marcou somente cinco gols em 31 jogos durante todo o ano. A pressão, com o Cruzeiro tentando reencontrar o caminho do sucesso, atrapalhou. E o levou a quase desistir do futebol.

“Eu não sentia mais aquela vontade de jogar, de desfrutar, de ter alguma coisa pra lutar. Porque na minha cabeça eu já tinha entendido que já dei uma casinha pra minha mãe e pronto. Missão cumprida. E aí eu falei: quero voltar pra minha cidade… início de depressão. Prefiro trabalhar na feira do que ficar aqui nessa cobrança toda”, revelou em entrevista ao “Um Dia Com”, da Cazé TV.

Em 2022, quando a Raposa retornaria à Série A no fim do ano, Igor Thiago nem chegou a jogar a Série B. Após oito jogos, foi vendido para o futebol búlgaro.

Igor Thiago em jogo do Campeonato Mineiro. Foto: Bruno Haddad / Cruzeiro EC

Ludogorets: um ano de gols e aprendizados

O Ludogorets é um dos principais, senão o principal, clube da Bulgária e pagou ao Cruzeiro quase 8 milhões de reais pelo atacante. A venda de Thiago foi a primeira da SAF sob o comando de Ronaldo  

A mudança chamou pouca atenção no Brasil. Afinal, poucos torcedores acompanham o futebol búlgaro e raramente jogadores utilizam aquele mercado como trampolim para os grandes centros europeus.

A adaptação ao idioma, clima, cultura e a um novo estilo de futebol demandaram tempo. Ele mesmo admitiu a diferença entre o futebol praticado na Série B e na Bulgária. 

Aos poucos, porém, passou a mostrar características que o acompanhariam pelo resto da carreira: intensidade física, mobilidade, capacidade de pressionar defensores e o faro de gol. Na primeira e única temporada completa, entrou em campo 55 vezes e fez 19 gols.

No campeonato local, foram 15 bolas na rede, sendo 14 deles na segunda metade da temporada, já em 2023, quando passou a ser titular com mais frequência. 

O bom desempenho chamou atenção de outros clubes do Velho Continente e Igor rumou para um novo destino.

Foi o Ludogorets, da Bulgária, a primeira equipe europeia de Igor Thiago. Foto: Giuseppe Maffia

Club Brugge: destaque na Bélgica e em solo europeu

O Club Brugge, um dos mais tradicionais da Bélgica, investiu quase 40 milhões de reais no atacante, seis vezes mais do que quando saiu do Cruzeiro. Ainda em um campeonato de baixo nível técnico, mas superior ao anterior, ele voltou a se destacar.

Os gols se multiplicaram e o brasileiro rapidamente se transformou em um dos principais jogadores do campeonato. Mais do que isso: tornou-se uma referência ofensiva em competições continentais.

Foram 55 jogos e 29 gols, sendo sete deles em 14 jogos na Conference League. A participação e o bom desempenho em um torneio europeu fizeram com que clubes da Premier League passassem a monitorar sua evolução.

O atacante que havia deixado o Cruzeiro quase em depressão, agora despertava interesse na liga mais rica e competitiva do mundo. E sonhava com a Seleção, mesmo que naquele momento fosse a Olímpica, de olho nos Jogos de Paris 2024.

“Defender a seleção é o sonho de todo jogador brasileiro e para mim não é diferente. Assisti as conquistas de 2016 e 2021, quero poder sentir esse gosto de vencer uma competição tão tradicional pelo meu país e levar a medalha de ouro para casa. Mas meu foco é primeiro no time, no hoje, continuar melhorando e, quando a oportunidade vier, aí sim, estarei pronto para isso”, contou em entrevista à TNT Sports.

Foi na Bélgica que Igor Thiago alcançou os maiores feitos, até então. Foto: Isosport

Brentford: das lesões à briga pela artilharia

Quando chegou ao Brentford em 2024, Igor Thiago parecia viver o melhor momento da carreira. Comprado por 210 milhões de reais, chegou cercado de expectativas, mesmo em um time que não tinha muitas pretensões no campeonato. 

Mas o início foi frustrante. Num amistoso de pré-temporada, ele sofreu grave lesão no menisco que o tirou de ação por alguns meses. Retornou em novembro, fez quatro jogos e teve nova lesão. 

Voltou apenas em abril, para fazer mais quatro partidas e encerrar seu primeiro ano na Inglaterra cercado de frustrações. Como contratação mais cara da história de um clube modesto, recebeu confiança da comissão técnica para o início da temporada 2025-2026. E retribuiu. 

A boa campanha do Brentford na Premier League que se encerrou mês passado, na qual o clube brigou por vaga na Champions League até as última rodadas, foi consequência de diversos fatores. Um deles foi o ótimo ano do atacante brasileiro.

Igor Thiago marcou 22 gols em 38 jogos e disputou a artilharia com a máquina de fazer gols norueguesa, Erling Haaland, até o fim da competição. O camisa 9 das Abelhas ainda alcançou uma marca especial: virou o maior goleador brasileiro em uma única edição da Premier League, passando da marca dos 20 gols, algo que nenhum compatriota conseguiu até hoje.

Ainda durante a temporada, não foram raros os momentos em que analistas da imprensa inglesa pediam a convocação do atacante para a Seleção Brasileira.

Já no Brentford, Igor Thiago só não marcou mais gols que Erling Haaland. Foto: Alex Pantling

Seleção Brasileira: uma das principais novidades de Ancelotti

Ancelotti parece ter ouvido os apelos do mundo do futebol. Em março deste ano, o centroavante recebeu o primeiro chamado para defender a Amarelinha. Participou de todos os amistosos até aqui, marcando gols contra Croácia e Panamá, ambos de pênalti.

Contra o Egito, no último amistoso de preparação para a Copa do Mundo, foi testado como titular, mas não foi bem, perdendo duas boas chances de marcar no primeiro tempo.

Nada que desanime o estreante em Mundiais. Aos 24 anos, Igor Thiago já passou por muitos desafios durante sua trajetória. A morte do pai, o trabalho como pedreiro, a quase depressão no Cruzeiro, as aventuras na Bulgária e na Bélgica, as lesões no primeiro ano de Brentford.

Mesmo ainda muito jovem, dá pra dizer que a resiliência é uma marca do jogador, que viu sua vida mudar completamente nesse ciclo de quatro anos antes da Copa do Mundo. Uma caminhada que se alterou completamente em tão pouco tempo, mas que agora pode ter encontrado um caminho que vá cada vez mais de encontro ao topo do futebol mundial.

Igor Thiago comemorando gol contra a Croácia. Foto: Andre Ricardo
Sair da versão mobile