Impedimento semiautomático estreia anulando dois gols e validando outro no Brasileirão

Tecnologia foi acionada em Santos x Chapecoense, Bahia x Corinthians e Flamengo x São Paulo; estreia acelerou decisões, mas não encerrou as discussões

O impedimento semiautomático teve participação direta em três decisões importantes durante sua primeira rodada oficial no Campeonato Brasileiro. A tecnologia validou um gol da Chapecoense e anulou gols de Bahia e Flamengo por posições irregulares detectadas na origem das jogadas.

O sistema começou a ser utilizado na 20ª rodada, primeira do segundo turno. Os três lances analisados ocorreram em partidas que terminaram empatadas: Santos 2 x 2 Chapecoense, Bahia 1 x 1 Corinthians e Flamengo 1 x 1 São Paulo.

Veja as três decisões da estreia

Os casos mostraram diferentes funções da ferramenta. Em Santos, o recurso confirmou uma jogada inicialmente considerada regular. Em Salvador e no Rio de Janeiro, identificou impedimentos por poucos centímetros e impediu a validação dos gols.

Primeiro uso confirma gol da Chapecoense

A estreia ocorreu no sábado, na Vila Belmiro. Aos cinco minutos do segundo tempo, Marcinho marcou o primeiro gol da Chapecoense no empate por 2 a 2 com o Santos.

A dúvida estava na posição de Giovanni Augusto, responsável pela assistência. O sistema reconstruiu o lance, identificou o posicionamento do jogador no instante em que recebeu o passe e indicou que ele estava em condição legal. Após a validação do VAR, o gol foi confirmado.

A decisão foi importante porque mostrou que a tecnologia não serve apenas para anular gols. Sua função também é oferecer segurança para confirmar lances ajustados nos quais o assistente permite que a jogada prossiga.

Com isso, Marcinho tornou-se o autor do primeiro gol validado com auxílio do impedimento semiautomático na história do Brasileirão.

Ponta do pé anula gol do Bahia

O primeiro gol anulado pela nova ferramenta aconteceu no domingo, durante Bahia x Corinthians, na Arena Fonte Nova.

O Corinthians vencia por 1 a 0 quando Alejo Véliz desviou uma finalização de Erick Pulga e colocou a bola na rede, aos 11 minutos do primeiro tempo. A jogada chegou a ser comemorada como o empate do Bahia, mas passou pela análise do VAR.

A imagem tridimensional mostrou que a ponta do pé de Erick Pulga estava à frente do último defensor corintiano na origem da jogada. Cerca de um minuto depois, o gol de Véliz foi anulado.

O Bahia ainda teve outro gol invalidado na partida, marcado por Willian José. Nesse segundo caso, porém, o impedimento havia sido assinalado pelo assistente em campo e apenas confirmado pelo VAR, sem que o lance entrasse na lista das três intervenções destacadas do novo sistema.

Tecnologia também apareceu no jogo entre Flamengo x São Paulo

A decisão de maior impacto ocorreu nos minutos finais de Flamengo x São Paulo, no Maracanã.

A partida estava empatada por 1 a 1 quando Samuel Lino marcou aos 45 minutos do segundo tempo. O gol colocaria o Flamengo em vantagem e poderia garantir três pontos ao time rubro-negro.

O impedimento semiautomático identificou que Wallace Yan estava em posição irregular antes de participar da construção da jogada. A diferença era de poucos centímetros, mas suficiente para configurar o impedimento. O gol de Samuel Lino foi anulado, e o confronto terminou empatado.

O lance evidenciou o peso que a ferramenta poderá ter na classificação. A intervenção retirou o que seria o gol da vitória flamenguista nos acréscimos e preservou o ponto conquistado pelo São Paulo no Maracanã.

Como funciona o sistema utilizado no Brasileirão

O sistema fornecido pela Genius Sports foi instalado em 20 estádios. A lista reúne as 19 arenas utilizadas regularmente pelos participantes da Série A e a Arena Barueri, incluída para receber partidas do Palmeiras quando seu estádio principal não estiver disponível.

Cada estádio recebeu entre 28 e 32 câmeras dedicadas, apoiadas por cinco servidores locais. As imagens são enviadas em tempo real para o centro de operações do VAR da CBF, no Rio de Janeiro, onde existem dez salas integradas para trabalhar com o VAR tradicional e o impedimento semiautomático.

A plataforma utiliza inteligência artificial e rastreamento óptico para:

  1. identificar uma possível situação de impedimento;
  2. localizar atacantes e defensores envolvidos;
  3. determinar o momento relevante do contato com a bola;
  4. comparar as partes válidas dos corpos dos jogadores;
  5. produzir uma reconstrução tridimensional do lance.

O material é enviado aos operadores do VAR, que conferem os dados antes de comunicar a decisão ao árbitro principal. Por isso, o sistema é chamado de semiautomático: parte da análise é automatizada, mas a validação e a decisão final permanecem sob responsabilidade da arbitragem.

Confira como funciona a tecnologia, na explicação do ex-árbitro Sálvio Spínola (fonte: R7 Esportes):

Tecnologia não substitui a interpretação do árbitro

O sistema determina com precisão a posição dos jogadores, mas não resolve sozinho todos os casos relacionados à Regra 11.

Estar em posição de impedimento não representa automaticamente uma infração. O jogador precisa participar ativamente da jogada, tocar na bola, interferir em um adversário ou obter vantagem a partir daquela posição. Essas situações ainda exigem interpretação da equipe de arbitragem.

No gol anulado do Flamengo, por exemplo, a ferramenta apontou a posição irregular de Wallace Yan. A arbitragem também precisou considerar que o atacante efetivamente participou da sequência que terminou na finalização de Samuel Lino.

O mesmo princípio será aplicado em situações envolvendo bloqueio da visão do goleiro, disputa com um defensor ou tentativa de jogar uma bola próxima. A linha pode ser produzida automaticamente, mas a participação do atleta continuará sendo julgada pelos árbitros.

Estreia foi rápida, mas não acabou com as polêmicas

A primeira rodada mostrou uma redução no tempo necessário para analisar lances ajustados. A tecnologia produziu as linhas e as representações tridimensionais sem que os operadores precisassem marcar manualmente os pontos nos corpos dos jogadores.

A fornecedora afirma que o sistema seleciona os atletas envolvidos e identifica o ponto do toque na bola antes de gerar a imagem em três dimensões. A expectativa da CBF é aumentar a velocidade e a precisão das decisões em relação ao método manual utilizado durante o primeiro turno.

Apesar disso, a apresentação das imagens ao público provocou questionamentos. Nas transmissões, a animação tridimensional mostrou principalmente o alinhamento entre atacante e defensor, sem destacar com a mesma clareza o quadro utilizado para definir o momento do passe.

Comentaristas ouvidos pelo UOL afirmaram que a ausência dessa imagem completa pode manter as discussões entre os torcedores. O posicionamento dos corpos é apenas uma parte da análise, já que a regra considera onde os jogadores estavam no instante exato em que a bola foi tocada pelo companheiro.

Isso não significa que o sistema ignore o momento do passe. A Genius Sports informa que a plataforma identifica automaticamente o ponto de contato com a bola. A crítica está principalmente na forma como essa informação é apresentada para quem acompanha o jogo pela televisão ou pelas redes sociais.

Sistema manual continua disponível em caso de falha

Caso o impedimento semiautomático apresente um problema técnico, o VAR poderá voltar ao procedimento utilizado até a 19ª rodada.

Nesse cenário, os operadores selecionam manualmente o momento do passe e os pontos de referência nos corpos do atacante e do defensor. Treinadores, capitães e o público da partida deverão ser informados sobre a indisponibilidade do novo recurso.

A alternativa evita que uma falha impeça a continuidade da partida. Também permite que todos os jogos mantenham algum sistema de revisão, mesmo quando a operação semiautomática estiver temporariamente indisponível.

Tecnologia será usada em todas as rodadas

Depois da estreia, o impedimento semiautomático passa a fazer parte de todas as partidas da Série A. A instalação e a preparação dos estádios ocorreram ao longo de oito meses, com inspeções, testes, simulações e treinamentos para árbitros e operadores.

A CBF também pretende utilizar a ferramenta nas fases mais avançadas da Copa do Brasil. A implantação faz parte de um projeto mais amplo de modernização da arbitragem, que inclui estudos sobre câmera no árbitro e tecnologia da linha do gol para as próximas temporadas.

A rodada inicial apresentou exatamente o tipo de situação para a qual o sistema foi contratado. Um lance apertado foi confirmado, enquanto dois gols importantes foram anulados por diferenças mínimas.

O impedimento semiautomático não eliminou as reclamações, nem retirou dos árbitros a responsabilidade pela decisão. Mas já mostrou, em seu primeiro fim de semana, que poderá ter influência direta nos resultados e na classificação do Brasileirão.

Sair da versão mobile