
Antes mesmo de ser tratado como joia, promessa ou futuro craque, Rayan já fazia parte do Vasco da Gama. Era apenas uma relação de amor, praticamente como extensão da própria família. O atacante cresceu na Barreira do Vasco e dentro de São Januário. Literalmente.
O pai, Valkmar, foi jogador do clube entre os anos 1990 e 2000, e depois passou a trabalhar nas categorias de base do Cruzmaltino. A mãe também trabalhou no clube. O atacante não apenas torcia pelo Vasco: ele vivia o Vasco diariamente desde criança, muito por influência dos pais.
“Na época que meu pai era jogador, ele saía muito pela Barreira. Ele sempre ficou por ali. Depois, ele levou ela para o mundo do futebol. Eles fizeram minha irmã e eu… (risos). Deu tudo certo. Ter os dois dentro de casa, que são vascaínos, que trabalharam dentro do Vasco, é muito importante. Meu avô também é vascaíno. A família toda é vascaína”, contou Rayan ao ge, em outubro do ano passado.
Vasco: destaque na base desde cedo
Foi nesse ambiente que começou a chamar atenção muito cedo. Aos 11 anos, atingiu a marca de 280 gols somando futsal e futebol de campo pelas categorias inferiores do clube. O número impressionava até mesmo dentro de uma base historicamente acostumada a revelar atacantes que marcaram época no Brasil, como Roberto Dinamite e Romário.
A ascensão foi rápida. Desde o sub-15 o atacante já era figurinha carimbada nas convocações de seleções de base e uma das principais joias do clube. Se destaca tanto, principalmente pela explosão, força física e qualidade na finalização, que estreou pelo sub-20 cruzmaltino aos 15 anos de idade.
No sub-17, foi campeão sul-americano com a Seleção Brasileira em 2023, sendo um dos artilheiros do torneio ao lado de Kauã Elias, do Fluminense, e Echeverri, joia da base do River Plate que foi vendido ao Manchester City. Naquele mesmo, veio a estreia pelos profissionais do clube carioca e uma nova marca batida.
Contra o Internacional, no Beira-Rio, o atacante balançou as redes e se tornou o jogador mais jovem a marcar pelo Vasco no século, com 16 anos e 10 meses, superando Paulinho, atualmente no Palmeiras.
Vasco: clube em crise, joia instável
Apesar do bom começo, Rayan sofreu duplamente no início da trajetória profissional. Como todo jovem que pula etapas, oscilou bastante. Além disso, o Vasco brigava contra o rebaixamento e, com a mudança de treinador e a chegada de Ramon Diaz, o time passou a contar com jogadores mais experientes para lidar com a situação. Assim, ele voltou ao sub-20 pelo resto do ano.
Em 2024 não foi muito diferente. O clube viveu entre altos e baixos e Rayan não teve muitas oportunidades. Quando teve, não foi bem. Após uma derrota de 6×1 para o Flamengo, houve protestos da torcida junto ao CT do clube. O atacante foi um dos principais alvos. Passou a ser visto como um talento em potencial, mas também displicente e pouco comprometido.
Ao final da temporada, havia feito apenas 33 jogos, a maioria vindo do banco, e marcado 2 gols. De certa forma, foi considerado uma decepção em um clube carente de grandes ídolos recentes. Mas em 2025, especialmente depois da chegada de um treinador em específico, Rayan voltaria a ser a jovem promessa que encantou quando estava na base.
Vasco: Fernando Diniz, confiança e uma nova fase
Em maio de 2025, Fernando Diniz voltou para mais uma passagem pelo Vasco. De cara, ficou impressionado com Rayan e, duas semanas após o começo do trabalho, fez uma previsão que se mostraria acertada meses depois.
“O Rayan é imperdível. Vender o Rayan agora é vender por um valor muito menor do que ele vai valer. Você não contrata outro igual. Ele estava muito abaixo do que pode render. Esse Rayan, pra mim, é só um início do que eu sinto. Tive uma conexão muito rápida. É um jogador que vai deixar muita saudade quando ele sair, mas não pode ser agora”, falou em entrevista coletiva após Vasco 3×0 Melgar, pela Sul-Americana.
O desempenho com Diniz cresceu e Rayan passou a ser a principal peça ofensiva do time. Mesmo jovem, foi assumindo o protagonismo da equipe, já que o treinador conseguiu explorar o que ele tinha de melhor: força, drible em velocidade e finalização. Mas, apesar disso, o jovem não deixou de levar uma das tradicionais broncas de Diniz a beira do gramado.
No fim do ano, o atacante já era alvo de clubes europeus que sonhavam em ter um talento de tanto potencial à disposição. Ele se despediu da temporada, e do Vasco, com 57 jogos (52 como titular), 20 gols e artilheiro da Copa do Brasil.
Bournemouth: adaptação à Premier League e destaque
A ida para o Bournemouth representou um grande passo. Ainda que num clube de menor expressão, Rayan entrou na Europa pela principal porta, a Premier League. O time, que já era um dos destaques da temporada sob o comando do espanhol Andoni Iraola e fazia boa campanha, tem a fama de desenvolver jovens talentos.
O clube perfeito por ter mais espaço para amadurecer sem a pressão imediata dos gigantes tradicionais e uma equipe competitiva que ofereceria novos desafios e possibilidades ao jogador. O clube inglês enxergava nele justamente um perfil muito valorizado no futebol moderno: atacante de força física, profundidade e capacidade de atacar espaços em velocidade.
A escolha se mostrou acertada e Rayan se transformou em um dos destaques de um time que terminou a Premier League com uma sequência de 18 jogos sem derrotas. Chegando no final de janeiro, fez muitos jogos como titular. No total, foram 15 partidas, cinco gols marcados e duas assistências.
Seleção Brasileira: aos 19 anos, a primeira Copa do Mundo
A convocação para a Copa do Mundo, de certa forma, surpreendeu. Apesar do ótimo 2025 e chegar voando na Premier League, Rayan praticamente não fez parte do ciclo. A primeira convocação foi apenas em março deste ano, para os amistosos contra França e Croácia. No primeiro, não saiu do banco. No segundo, jogou 14 minutos.
Mas a impressão deixada agradou Carlo Ancelotti e a comissão técnica. Além disso, a capacidade de jogar aberto pela direita ou por dentro também pesou. O treinador italiano sempre deixou claro que gosta de jogadores versáteis, capazes de se adaptar a diferentes formas de jogar.
No amistoso contra o Panamá, no Maracanã, entrou no segundo tempo e marcou seu primeiro gol com a Amarelinha, numa bonita finalização de fora da área, encobrindo o goleiro após falha na saída de bola.
Canhoto, rápido, forte e com ótima finalização, as comparações com Adriano Imperador são inevitáveis. Se terá destaque na Seleção Brasileira como o ex-atacante conseguiu ter em algumas oportunidades, só o tempo dirá.
Em um elenco com muitas opções ofensivas e que a maioria delas já é mais experiente na Europa e em Copas do Mundo, talvez ninguém espera que Rayan seja solução imediata. Mas o que dá para ter certeza, é que o Brasil tem um excelente atacante para as próximas edições do Mundial.