Rosario Central acusa torcida do Corinthians e coloca denúncia de Hugo Souza em dúvida

Clube argentino diz que corintianos cometeram atos “discriminatórios e provocativos”, contesta relato de racismo feito pelo goleiro e promete levar imagens à Conmebol; justificativa apresentada na nota, porém, entra em conflito com a cronologia da partida

Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

O Rosario Central divulgou um comunicado oficial contestando a denúncia de racismo feita por Hugo Souza após o empate por 0 a 0 com o Corinthians, no Gigante de Arroyito, pela ida das oitavas de final da Libertadores. Além de colocar em dúvida a versão apresentada pelo goleiro brasileiro, o clube argentino acusou torcedores corintianos de comportamentos que classificou como “racistas, discriminatórios e provocativos”.

A manifestação transforma o episódio em uma disputa de versões poucos dias antes do confronto decisivo em São Paulo. O Rosario afirma que enviará material à Conmebol e pede investigação tanto sobre o comportamento dos visitantes quanto sobre as ofensas denunciadas por Hugo. O Corinthians, por sua vez, já havia repudiado publicamente o ocorrido e solicitado a identificação e punição dos responsáveis.

O que o Rosario Central acusa a torcida do Corinthians de fazer?

Segundo o comunicado, torcedores do Corinthians teriam exibido repetidamente cédulas de pesos argentinos para provocar os anfitriões. O Rosario também citou a presença de uma camisa da seleção espanhola, que teria sido mostrada como provocação depois de a Espanha derrotar a Argentina na final da Copa do Mundo de 2026.

O clube argentino classificou os episódios como ofensivos e discriminatórios e afirmou possuir registros que serão colocados à disposição da Conmebol.

É importante, contudo, distinguir as acusações. A classificação desses gestos como racistas é uma posição adotada pelo Rosario Central em seu comunicado. As condutas descritas pelo próprio clube são a exibição de dinheiro argentino e de uma camisa da Espanha. Já a denúncia apresentada por Hugo Souza é de outra natureza: o goleiro afirma ter ouvido insultos diretamente relacionados à sua raça e cor.

Hugo diz ter sido chamado de “macaco” durante o jogo

Hugo Souza relatou que as ofensas aconteceram durante diferentes momentos do confronto.

Após a partida, o goleiro afirmou ter ouvido termos como “macaco”, “mono” e “negro de merda” vindos da arquibancada do Rosario Central. Aos 21 minutos do segundo tempo, ele comunicou o árbitro uruguaio Andrés Matonte.

Matonte então acionou a primeira etapa do protocolo antirracismo da Conmebol e fez o sinal de um “X” com os braços acima da cabeça. Ángel Di María, capitão do Rosario, dirigiu-se aos torcedores e pediu que interrompessem as ofensas. A partida prosseguiu normalmente.

Depois do jogo, Hugo lamentou a recorrência desse tipo de episódio em partidas disputadas na Argentina e afirmou que sua única alternativa naquele momento era comunicar a arbitragem.

O Corinthians publicou uma nota no dia seguinte, classificou o episódio como revoltante e pediu investigação para identificar os responsáveis. A Conmebol informou que o caso estava sendo analisado e poderia resultar na abertura de um processo disciplinar.

Rosario questiona a versão de Hugo

Foi justamente essa denúncia que o Rosario Central colocou em dúvida.

Em sua nota, o clube argentino disse que pedirá à Conmebol uma investigação e que deseja que a arbitragem apresente provas que sustentem as ofensas relatadas pelo goleiro. O texto também insinua que o protocolo poderia ter sido utilizado em um momento conveniente esportivamente para o Corinthians.

O Rosario afirmou que a denúncia ocorreu “quando sua equipe estava com um jogador a menos”, durante um momento de pressão argentina.

Essa parte do comunicado, porém, apresenta um problema objetivo.

Cronologia contradiz argumento utilizado pelo Rosario

Hugo Souza acionou o árbitro aos 21 minutos do segundo tempo. Allan só foi expulso aos 34 minutos.

Ou seja, quando o goleiro comunicou as ofensas e o protocolo antirracismo foi acionado, o Corinthians ainda tinha 11 jogadores em campo. Allan recebeu o segundo cartão amarelo aproximadamente 13 minutos depois.

O próprio ge chamou atenção para a inconsistência ao publicar o comunicado do clube argentino.

A cronologia não comprova por si só a denúncia de Hugo Souza, que deverá ser investigada pelos órgãos responsáveis. Mas enfraquece especificamente o argumento apresentado pelo Rosario de que o brasileiro acionou o protocolo depois de o Corinthians ficar com dez jogadores.

O Rosario também afirmou que, até a publicação do comunicado, não havia encontrado imagens que comprovassem as ofensas no setor próximo ao goleiro. Mesmo questionando a acusação, informou que realizará uma apuração interna e prometeu ser rigoroso caso seja identificado algum torcedor envolvido em atos racistas.

Di María pediu para torcida parar

Outro elemento importante aconteceu ainda dentro de campo.

Depois que Matonte acionou o protocolo, Ángel Di María se aproximou da arquibancada e pediu que os torcedores do Rosario interrompessem os xingamentos. A intervenção do capitão argentino foi registrada durante a transmissão e mencionada pelos relatos da partida.

Hugo Souza também afirmou após o confronto que jogadores do Rosario se desculparam pelo comportamento de parte da torcida.

O fato não identifica quais palavras foram utilizadas nem determina responsabilidade individual, mas passa a fazer parte dos elementos disponíveis para a investigação da Conmebol.

Clubes agora trocam acusações antes da decisão

Dentro de campo, Rosario Central e Corinthians empataram por 0 a 0. Hugo foi um dos principais jogadores corintianos, com defesas importantes durante a pressão argentina nos minutos finais.

Fora dele, o clima para o segundo confronto ficou consideravelmente mais pesado.

De um lado, o Corinthians sustenta que seu goleiro sofreu racismo e pede punições. Do outro, o Rosario questiona o relato, exige provas e acusa torcedores brasileiros de comportamentos discriminatórios e provocativos. Os dois lados querem que a Conmebol investigue os acontecimentos no Gigante de Arroyito.

As equipes voltam a se enfrentar na quinta-feira (20), às 21h30, na Neo Química Arena. Quem vencer avança às quartas de final da Libertadores. Um novo empate leva a decisão para os pênaltis.

Até lá, porém, a discussão extrapola completamente o resultado esportivo.

O Rosario Central tem direito de apresentar imagens e pedir a investigação de qualquer comportamento inadequado da torcida visitante. Mas sua tentativa de colocar a denúncia de Hugo Souza sob suspeita inclui um argumento que não corresponde à sequência registrada durante a partida: o protocolo foi acionado antes, e não depois, da expulsão corintiana.

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