John Textor voltou a se colocar no centro da crise política do Botafogo. Mesmo afastado da administração da SAF desde abril e com a GDA Luma já participando diretamente da gestão, o empresário americano não desistiu de tentar recuperar o controle do futebol alvinegro. Nos últimos dias, além de atualizar publicamente suas ações judiciais, Textor voltou a atacar decisões tomadas pela atual direção e deixou claro que continua considerando possível uma retomada.
A estratégia do americano acontece em três frentes, Estados Unidos, Inglaterra e Brasil, e tem como ponto central sua alegação de que ainda seria o proprietário das ações correspondentes a 90% da SAF. Essa tese é contestada por outros envolvidos no processo e ainda não foi reconhecida definitivamente pela Justiça.
Textor insiste que ainda pode recuperar as ações
Em comunicado publicado em seu site oficial no dia 11 de agosto, Textor afirmou que a Eagle Bidco não apresentou defesa dentro do prazo em uma ação que tramita na Flórida.
O empresário sustenta que a Eagle nunca teria realizado o pagamento previsto no acordo para que as ações que estavam em seu nome fossem definitivamente transferidas para a companhia. Por isso, pede que o contrato seja considerado nulo e que sua propriedade sobre a participação na SAF seja restabelecida.
A defesa do americano solicitou ainda que a Justiça americana reconheça a revelia da Eagle Bidco. Na avaliação apresentada pelo próprio Textor, a ausência de contestação fortalece sua posição e poderia abrir caminho para que ele volte a ser reconhecido como proprietário das ações.
Isso, porém, é a interpretação jurídica de Textor e de seus advogados. Até o momento, não há decisão definitiva determinando que o Botafogo seja devolvido ao empresário.
Vitória temporária na Inglaterra
Textor conseguiu também uma decisão favorável na Justiça britânica.
Em 12 de agosto, um tribunal em Londres concedeu uma liminar que impede temporariamente a Cork Gully, administradora judicial da Eagle Bidco, de vender a participação de 90% na SAF. A restrição vale, inicialmente, até 9 de setembro, quando o caso deverá voltar a ser analisado.
A decisão é relevante porque preserva as ações enquanto a disputa judicial continua, mas existe uma distinção importante: o tribunal inglês não decidiu que Textor é o proprietário da SAF.
A liminar serve apenas para manter a situação atual até que a controvérsia seja analisada com maior profundidade.
No Brasil, retorno não aconteceu
A situação brasileira é diferente.
Em junho, Textor havia obtido uma decisão que suspendeu efeitos de medidas arbitrais contra ele. Inicialmente, a movimentação chegou a levantar a possibilidade de retorno à administração da SAF.
O Tribunal de Justiça do Rio, porém, esclareceu depois que a decisão não anulava os atos posteriores da recuperação judicial nem a nomeação de Eduardo Iglesias para a gestão da empresa.
Na prática, Textor não recuperou automaticamente o comando do Botafogo.
O americano mantém uma ação no Brasil questionando a transferência das ações para a Eagle Bidco. Sua defesa sustenta que o negócio deveria ser anulado e que a participação deveria retornar a ele.
Botafogo segue caminho com a GDA Luma
Enquanto Textor trava sua batalha judicial, o Botafogo trabalha em direção oposta.
O clube assinou em junho um acordo vinculante com a GDA Luma, grupo ligado ao empresário mexicano Gabriel de Alba. O negócio prevê investimento total de US$ 105 milhões no processo de aquisição e reestruturação da SAF.
A GDA já antecipou recursos para manter o funcionamento da empresa. Em julho, fez um aporte de aproximadamente US$ 14,3 milhões, cerca de R$ 75 milhões na cotação daquele momento, destinado às despesas mais urgentes.
Gabriel de Alba chegou ao Rio nesta semana e já iniciou contato direto com jogadores e funcionários.
Na quarta-feira (19), conversou com o elenco no Nilton Santos e apresentou sua visão para o futuro da SAF. O mexicano afirmou que pretende estruturar o Botafogo para voltar a disputar os principais títulos nacionais e internacionais.
A chegada de De Alba mostra que, operacionalmente, o Botafogo já trabalha em uma nova fase, mesmo que existam questões societárias e judiciais ainda abertas.
Textor ataca nova gestão
Paralelamente à batalha pelas ações, Textor voltou a criticar publicamente quem atualmente comanda o Botafogo.
Em entrevista à ESPN, repercutida pelo Fogo na Rede, o americano questionou duramente a demissão do técnico Franclim Carvalho. Para ele, o português pagou por problemas que extrapolavam seu trabalho dentro de campo.
Textor lembrou que Franclim fazia parte da comissão de Artur Jorge no histórico ano de 2024, quando o Botafogo conquistou Brasileirão e Libertadores, e afirmou que o treinador merecia mais apoio institucional.
O americano também criticou o CEO da SAF, Eduardo Iglesias, responsabilizando a atual direção por decisões de planejamento que, em sua visão, contribuíram para a crise esportiva.
Entre os assuntos citados esteve a preparação para o jogo contra o Cienciano, no Peru, quando o Botafogo sofreu uma goleada por 6 a 1 pela Sul-Americana.
Textor disse que, caso ainda comandasse o clube, teria adotado uma preparação diferente para a altitude e criticou a perda do que chamou de “conhecimento institucional” acumulado durante sua passagem.
Confronto direto com Eduardo Iglesias
As declarações mais fortes foram direcionadas a Iglesias.
Textor afirmou que o executivo não possuía experiência anterior comandando um clube de futebol e questionou sua capacidade de liderar o processo atual. Também criticou João Paulo Magalhães, presidente do clube social, e Carlos Augusto Montenegro por, segundo ele, não terem protegido Franclim após os resultados negativos.
As críticas reforçam que a disputa de Textor deixou de ser apenas jurídica.
Ele também busca contestar publicamente a narrativa de que sua saída era necessária para reorganizar o Botafogo e tenta preservar parte do legado esportivo construído entre 2022 e 2026.
Textor chegou em 2022 e mudou o patamar esportivo
O americano assumiu oficialmente o futebol alvinegro em março de 2022, depois de adquirir 90% da SAF.
Sua gestão teve erros, gastos elevados e graves problemas financeiros, mas também conduziu o Botafogo ao período esportivo mais vitorioso de sua história recente.
O auge veio em 2024, quando o clube conquistou pela primeira vez a Libertadores e também venceu o Campeonato Brasileiro.
Foi esse sucesso que transformou Textor em uma figura extremamente popular entre parte da torcida.
O cenário mudou nos anos seguintes, especialmente com o crescimento das dívidas, sucessivos problemas de caixa e punições da Fifa por inadimplência.
Em maio de 2026, a própria SAF entrou em recuperação judicial e criticou publicamente a gestão do americano, acusando-a de falta de compromisso com a estabilidade financeira da empresa.
Dívida bilionária pesou na ruptura
O tamanho da crise financeira é uma das principais justificativas apresentadas pela atual administração para a mudança de rumo.
Quando a recuperação judicial foi aceita, documentos apontavam um passivo total estimado em mais de R$ 2,5 bilhões, com aproximadamente R$ 1,28 bilhão diretamente incluído no processo.
O Botafogo também acumulou diferentes transfer bans da Fifa por pendências em contratações feitas durante a era Textor, incluindo negócios envolvendo Thiago Almada, Artur, Rwan Cruz e Santi Rodríguez.
A atual direção iniciou um plano de reestruturação de 100 dias, com auditoria das finanças, renegociação de contratos e redução de despesas.
Montenegro diz que retorno é impossível
Dentro do clube social, a visão é exatamente oposta à demonstrada por Textor.
Carlos Augusto Montenegro afirmou recentemente considerar “zero” a possibilidade de o americano voltar a comandar o Botafogo.
Para o ex-presidente, a transição para Gabriel de Alba e a GDA Luma já representa um novo capítulo na história da SAF.
O Botafogo também vem tratando as decisões judiciais recentes conquistadas por Textor como uma disputa particular entre o empresário, a Eagle e a Cork Gully, sem intenção de modificar o planejamento administrativo já iniciado.
A batalha está longe de terminar
O cenário, portanto, é de duas versões completamente diferentes.
Textor acredita que ainda possui argumentos jurídicos para recuperar as ações da SAF e voltar ao Botafogo.
Do outro lado, o clube social e a atual administração entendem que seu ciclo terminou e trabalham para consolidar Gabriel de Alba e a GDA Luma como nova força de controle do futebol.
A liminar obtida na Inglaterra mostra que Textor ainda possui instrumentos jurídicos para dificultar ou atrasar uma transferência definitiva das ações.
Mas ela não significa que o americano tenha recuperado o clube.
Por enquanto, Textor segue fora do comando, Eduardo Iglesias permanece na administração e Gabriel de Alba já participa ativamente das decisões da nova fase do Botafogo.
A diferença é que John Textor deixou claro que não considera essa história encerrada.
Depois de semanas brigando nos tribunais, ele voltou também ao debate público, criticou a nova gestão e reforçou sua tese de que ainda pode recuperar o Botafogo.





