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Raphinha: em busca do reconhecimento do torcedor e do mundo do futebol

Leandro Lainetti por Leandro Lainetti
3 de junho de 2026
no Internacional
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Raphinha em amistoso contra a França. Foto: Stephen Nadler

A caminhada de Raphinha pelo mundo da bola é semelhante a de inúmeros jogadores das categorias de base dos clubes brasileiros. Na realidade, é parecida com a da maioria que não está nos grandes centros e não alcança o estrelato nos principais times europeus. São aqueles meninos que sonharam, mas não alcançaram. 

Muitos até conseguem viver do futebol, só que longe dos holofotes e contratos milionários, construindo suas carreiras em países periféricos ao redor do globo ou em times de menor expressão no Brasil. 

Mas as semelhanças param por aí. Raphinha chegou ao mais alto nível do futebol mundial e hoje é titular no Barcelona e na Seleção Brasileira. Para isso, ele precisou vencer desafios bastante comuns para as joias brasileiras. .

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Criado em Restinga, bairro periférico de Porto Alegre, o atacante cresceu em uma realidade econômica difícil. Em diversas entrevistas, já contou que dividia uma casa simples com familiares e que muitas vezes enfrentava dificuldades financeiras. Ao Players’ Tribune, relembrou parte desse cenário:

“Os meus pais trabalhavam duro para colocar comida na mesa. Mas não éramos ricos. Nossa casa era tão pequena que dormíamos todos no mesmo quarto: meus pais, meu irmão mais novo, eu, os cachorros e os gatos. Graças a Deus sempre tínhamos os animais de estimação. Eles me animaram nos momentos que eu mais estava pra baixo”.  

Por ser natural de Porto Alegre, seria normal tentar a sorte nos principais clubes da cidade: os rivais Grêmio e Internacional. Mas as portas se abriram mesmo no Avaí, após um amistoso entre o Imbituba, equipe de Raphinha na época, e o time de Santa Catarina. 

“Desde quando o observamos em um amistoso contra o nosso profissional, detectamos um atleta muito promissor, ousado, que enfrentava nossos jogadores de igual para igual. Mesmo quando errava, tentava na jogada seguinte, e isso também nos chamou muita atenção”, falou o treinador Fabio da Cunha, que era o comandante do Avaí na ocasião.

No Leão da Ilha, o atacante conheceu um atual parceiro de Seleção: o zagueiro Gabriel Magalhães. Eles foram contemporâneos e tiveram destino parecido, saindo do clube antes de estrearem no profissional.

O Avaí foi o primeiro time profissional de Raphinha. Fonte: reprodução

Vitória de Guimarães: cidade pequena, oportunidade grande

Depois de uma oportunidade de empréstimo ao Porto não ter dado certo, Raphinha começou sua trajetória europeia um pouco mais ao norte de Portugal. Guimarães tem pouco mais de 150 mil habitantes, mas uma das torcidas mais fanáticas do país. 

Apesar disso, é um clube considerado médio no cenário local, sendo a quinta ou sexta força do futebol português. Nesse contexto, quando chegou em 2016, o atacante foi visto como um jogador de potencial: rápido, habilidoso e competitivo. O ambiente era ideal para se desenvolver e depois tentar explorar mercados maiores.

A adaptação não foi simples. Longe da família e vivendo a primeira experiência internacional, precisou amadurecer rapidamente. Aos poucos, começou a ganhar espaço no elenco principal e chamou atenção pela agressividade ofensiva. Em pouco tempo se transformou em um dos jogadores mais interessantes da Liga Portuguesa.

Tanto que após a segunda temporada no Vitória, quando foi titular em 32 jogos na Liga, marcando 15 gols e distribuindo quatro assistências, ele chamou a atenção de um dos gigantes do país. 

Raphinha em seu primeiro desafio na Europa. Fonte: Reprodução

Sporting: a primeira vitrine europeia

Raphinha saiu do norte para o sul do país e foi defender as cores do Sporting, que pagou 6,5 milhões de euros por ele em 2018. Pela primeira vez, Raphinha passava a atuar em um clube acostumado a disputar títulos e competições europeias. A mudança representou um salto importante.

No Sporting, começou a enfrentar maior pressão por resultados e ganhou experiência internacional. Também mudou o lado de atuação no campo. No Guimarães atuava pela ponta esquerda, mas nos Leões passou a atuar pela direita, posição atual na carreira. 

Apesar de permanecer apenas uma temporada, deixou boa impressão e consolidou sua reputação como um dos pontas mais promissores do futebol português. A evolução não passou ao largo de clubes de outros países, como era de se imaginar.

Raphinha em sua breve passagem pelo Sporting. Foto: Carlos Rodrigues

Rennes: a explosão na França

Em 2019, o Rennes investiu cerca de 21 milhões de euros para contratá-lo. Foi na França que Raphinha deu o salto seguinte. Assim como outros jogadores do atual elenco Canarinho, como Bruno Guimarães e Paquetá, passou a enfrentar jogadores mais físicos e partidas com intensidade superior às que encontrava em Portugal.

Em vez de sentir a mudança, usou o período para amadurecer. Apesar dos números modestos (28 jogos, 6 gols e 5 assistências), as atuações despertaram interesse de diversos clubes ingleses. Um deles chegou e levou o atacante para conhecer a loucura.

Raphinha comemorando gol pelo Rennes. Foto: Damien Meyer

Leeds United: Bielsa e a transformação definitiva

A contratação pelo Leeds United em 2020 mudou completamente a carreira de Raphinha.

O clube era comandado por Marcelo “El Loco” Bielsa, treinador conhecido pela intensidade quase obsessiva e pela capacidade de desenvolver jogadores. Embora com poucos títulos nos mais de 30 anos de carreira, é considerado um dos mais influentes do futebol e simplesmente o maior ídolo de Pep Guardiola.

Sob comando do argentino, Raphinha atingiu outro nível como atleta. Além dos dribles e da criatividade ofensiva, passou a contribuir defensivamente de forma constante. Aprendeu a pressionar, recompor espaços e participar mais do jogo coletivo.

Raphinha foi peça fundamental do Leeds. Foto: Gareth Copley

Bielsa se tornou uma das figuras mais importantes da formação do atacante e impactou até na primeira convocação dele para a Seleção Brasileira. Em 2021, Tite entrou em contato com o técnico do Leeds, que encheu o brasileiro de elogios. 

” Ele sempre me ajudou e me exigia ter o rendimento mais alto. Me ajudou a chegar à Seleção e provavelmente não estaria aqui sem ele. É uma pessoa importante para mim e para minha carreira” disse o atacante em entrevista ao globoesporte.com

Os números cresceram (65 jogos, 17 gols e 12 assistências), mas o impacto ia além das estatísticas.Quando o Leeds lutava contra o rebaixamento, era Raphinha quem frequentemente assumia a responsabilidade de decidir partidas.

Depois de rodar por ligas menores e em um time de menor expressão na maior liga do mundo, era hora de voos mais altos. Ao contrário dos muitos meninos que sonham mas não chegam, Raphinha alcançou o degrau mais alto. Uma grande liga e um gigante do futebol mundial. 

Raphinha foi peça fundamental do Leeds, clube que o projetou ao estrelato. Imagem: Andy Rain

Barcelona: da desconfiança a quase melhor do mundo

Quando o Barcelona contratou Raphinha em 2022, parte da imprensa espanhola demonstrou dúvidas, principalmente pelo valor desembolsado para contar com ele: 58 milhões de euros – na época, o equivalente a 320 milhões de reais – com mais nove milhões em metas.

Naquele momento, quando o Barça procurava rumo após os anos de Messi, Suárez e Neymar, muitos acreditavam que o clube deveria buscar um nome mais consolidado internacionalmente. Outros questionavam se o atacante teria nível suficiente para ser titular em uma equipe historicamente acostumada a grandes estrelas.

Raphinha em sua apresentação no Barcelona. Foto: David Ramos

Os primeiros meses foram de adaptação. A concorrência era forte, o ambiente de pressão enorme e as críticas constantes. Em vários momentos, seu nome apareceu entre os possíveis negociados do elenco. Mas Raphinha resistiu. 

Evoluiu temporada após temporada até alcançar o melhor momento da carreira.

Sob comando de Hansi Flick, transformou-se em um dos líderes técnicos da equipe. Os números da temporada 2024-2025 foram de jogador de elite. 53 jogos, 32 gols e 23 assistências, totalizando mais participações em gols que partidas disputadas. Algo que jogadores do quilate de Ronaldo, Rivaldo e Neymar nunca alcançaram pelos culés. 

Naquela temporada, na Champions League, Raphinha foi artilheiro da competição e teve 21 participações em gols (13 gols e 8 assistências) em 14 jogos. Um desempenho que o colocou na briga pelo prêmio de melhor jogador do mundo. Acabou em quinto lugar, o que rendeu críticas de muitas analistas do universo do futebol que acreditavam que ele merecia pelo menos estar no top 3.

Seleção Brasileira: de aposta de Tite a cobrança por protagonismo

A primeira convocação aconteceu em 2021. Raphinha chegou sem o status de estrela que cercava outros nomes da geração, até desconhecido do grande público brasileiro, mas rapidamente conquistou espaço. 

Sua estreia foi tão impactante que muitos torcedores passaram a pedir sua titularidade imediatamente. Tite ficou impressionado com a personalidade demonstrada nos primeiros jogos. Na Copa do Mundo de 2022, participou da campanha brasileira no Catar, mas não teve grande destaque. 

Hoje, aos 29 anos, chega à Copa do Mundo de 2026 como titular do Brasil, protagonista do Barcelona e um dos atacantes mais respeitados do futebol europeu, mas que precisa se provar quando o assunto é Seleção Brasileira – assim como muitos dos companheiros atuais

Como a carreira de Raphinha mostra, em muitos momentos houve dúvidas sobre sua capacidade de dar o próximo passo. E ele sempre conseguiu. A ver se repetirá esse sucesso também com a Amarelinha.

Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, orientando Raphinha em treinamento. Foto: Nelson Almeida
Tags: Carlo AncelottiConvocação da SeleçãoCopa do MundodestaqueRaphinhaSeleção Brasileira

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